A Diáspora Africana de Setúbal

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Foto: Watchfan04 / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
A diáspora africana do Distrito de Setúbal compreende comunidades de Cabo Verde, Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. A sua presença remonta ao século XVI, quando pessoas de origem africana constituíam até 9% da população das aldeias costeiras, enquanto as comunidades modernas se formaram após a descolonização em 1974–1975.
Presença Histórica
“Os Pretos do Sado” (séculos XV–XX)
Uma comunidade de origem africana conhecida como os “Pretos do Sado” existiu durante séculos no vale do rio Sado. A sua presença foi documentada pelo etnógrafo José Leite de Vasconcelos no final do século XIX. A historiadora Isabel Castro Henriques dedicou uma monografia, Os Pretos do Sado (2020), a esta comunidade, traçando a história dos descendentes de escravos africanos trazidos para trabalhar nas plantações de arroz a partir do século XVIII.
Época dos Descobrimentos (séculos XVI–XVIII)
Segundo registos paroquiais de batismo do século XVI, entre 6% e 9% dos batizados em aldeias perto de Setúbal eram pessoas de origem africana. O seu legado cultural pode ser rastreado no folclore local e na toponímia.
A Comunidade Cabo-Verdiana
Migração
Os cabo-verdianos são uma das maiores comunidades africanas de Portugal. A migração começou nos anos 1960, quando as pessoas deixaram as ilhas fugindo da seca e da fome. Após a independência de Cabo Verde em 1975, o fluxo intensificou-se. Hoje vivem em Portugal aproximadamente 150.000 cabo-verdianos — a segunda maior diáspora mundial. A maioria dos migrantes veio da ilha de Santiago.
Música
A música cabo-verdiana é parte integrante da paisagem cultural do distrito:
- Morna — género lírico e melancólico nascido na ilha da Boa Vista. Símbolo da identidade cabo-verdiana, é Património Imaterial da UNESCO desde 2019
- Funaná — música energética movida a acordeão de Santiago. Proibida como “africana” e “primitiva” durante o domínio colonial, experimentou um renascimento após a independência
- Batuku — forma ritual de canto e dança feminina de Santiago, uma das mais antigas tradições musicais do arquipélago
Entre os artistas de origem cabo-verdiana ligados à região, destaca-se Dino D’Santiago (n. 1982) — compositor e cantor que ganhou os Prémios da Música Portuguesa em 2019. A sua música mistura ritmos cabo-verdianos com fado, soul e sons eletrónicos.
Gastronomia
- Cachupa — o prato nacional: um guisado de milho, feijão, carne e vegetais. Símbolo de família e comunidade
- Búzio — pratos de marisco
- Restaurantes cabo-verdianos funcionam em Setúbal e outras cidades do distrito
Língua
O Crioulo cabo-verdiano (Kriolu) é amplamente falado em casa. O serviço municipal SEI providencia assistência em crioulo.
A Comunidade Angolana
Migração
A imigração angolana para Portugal intensificou-se no final dos anos 1980 no contexto da Guerra Civil Angolana. O período mais intensivo foram os anos 1990. Cerca de 70% dos migrantes angolanos são homens. A comunidade está concentrada na Área Metropolitana de Lisboa, incluindo o Distrito de Setúbal.
Música
A comunidade angolana enriqueceu a vida cultural da região com géneros musicais:
- Kuduro — género eletrónico nascido em Luanda no final dos anos 1980. Imensamente popular nos subúrbios da área metropolitana
- Kizomba — género de música-dança nascido em Angola no final dos anos 1970. Escolas de kizomba e noites de dança encontram-se por toda a área metropolitana
- Semba — tradição musical angolana, precursora do samba brasileiro
Outras Comunidades
Guineenses
Em 2023, 32.535 cidadãos da Guiné-Bissau viviam em Portugal (3,1% da população estrangeira). A comunidade guineense está presente no Distrito de Setúbal, embora em menor escala do que as comunidades cabo-verdiana e angolana.
Moçambicanos e Santomenses
As comunidades de Moçambique e São Tomé e Príncipe são menos proeminentes no distrito mas contribuem para a diversidade multicultural da região.
Festivais e Eventos
Festival Sabura
Festival multicultural em Sesimbra (Parque Natural de Sesimbra), realizado anualmente no final de agosto–início de setembro. A palavra sabura significa “momento de alegria” em crioulo cabo-verdiano. Programa: 5 palcos, mais de 80 artistas — de funaná e kuduro a reggae e hip-hop. Para além da música: gastronomia, workshops, capoeira, yoga e área infantil.
Maio – Diálogo Intercultural
Programa municipal anual (maio–junho) com concertos, exposições e o desfile “Mundos ao Largo” no Largo da Ribeira Velha: mais de 80 participantes em trajes nacionais.
Organizações Comunitárias
Organizações culturais da diáspora africana operam em Setúbal:
- Associação Caboverdiana de Setúbal — a associação cabo-verdiana
- Centro Cultural Africano — o Centro Cultural Africano
- Associação “Os Africanos” — localizada no bairro da Bela Vista; recebeu novas instalações nos anos 2020 como parte do programa de reabilitação do bairro
As associações realizam eventos culturais, cursos de língua e apoiam a integração de novos migrantes.
Desafios e Conquistas
Desafios
- Habitação: concentração em bairros socialmente vulneráveis (Bela Vista)
- Emprego: predominância em setores mal pagos
- Educação: necessidade de apoio para crianças migrantes de segunda e terceira geração
- Estereótipos: combater preconceitos e discriminação
Conquistas
- Influência musical: kuduro, kizomba e funaná tornaram-se parte integrante da cultura musical portuguesa
- Programa “Nosso Bairro, Nossa Cidade”: modelo bem-sucedido de reabilitação e integração social na Bela Vista, reconhecido internacionalmente
- Festival Sabura: festival multicultural em crescimento de dimensão internacional
- Contribuições da segunda geração: artistas, atletas e empresários de origem africana tornam-se figuras proeminentes na sociedade portuguesa
Ver Também
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