O Panorama Mediático de Setúbal
O panorama mediático do Distrito de Setúbal tem experienciado ciclos de florescimento e declínio: de duas dúzias de jornais e vinte estações de rádio há 30 anos para um punhado de meios sobreviventes hoje. No coração desta história está O Setubalense, fundado em 1855 e portador do título de jornal mais antigo do Portugal continental.
A imprensa escrita
O Setubalense — crónica de uma cidade
Fundação (1855)
O Setubalense foi fundado a 1 de julho de 1855 por João Carlos de Almeida Carvalho, um monárquico que comprou uma prensa tipográfica e a instalou na sua casa no que é agora a Rua Tenente Valadim. Na altura, Setúbal tinha uma população de cerca de 15.000. Após 30 meses e 131 números, o jornal fechou a 27 de dezembro de 1857.
Reavivamento (1916)
A 10 de agosto de 1916, O Setubalense foi reavivado como publicação independente aparecendo duas vezes por semana. Nessa altura, vários jornais já publicavam em Setúbal: O Elmano, O República, O Trabalho, A Mocidade, A Propaganda e O Correio do Sado.
Censura do Estado Novo (1927–1974)
A 5 de fevereiro de 1927, o jornal foi encerrado por 15 dias por publicar sem aprovação prévia dos censores. O seu editor, Luís Faria Trindade, foi preso e passou 5 meses na prisão sem acusação. Em agosto de 1927 o jornal regressou com o subtítulo “Diário Republicano da Noite”.
A censura sob o Estado Novo era de natureza preventiva: todas as publicações passavam por comissões de censura antes da impressão. Os censores usavam o notório “lápis azul” para riscar conteúdo proibido.
A Revolução dos Cravos (1974)
Após a revolução de 25 de abril de 1974, o jornal foi ocupado por parte da sua força de trabalho. Milhares de fotografias e coleções antigas desapareceram. Um grupo de trabalhadores começou a publicar um jornal chamado “Nova Vida”. A 25 de novembro de 1975, o jornal publicou o título “Armas ao povo, já”.
Crise e renascimento (2013–presente)
Em 1995 o jornal passou para o grupo Plurijornal. A 10 de maio de 2013, O Setubalense cessou publicação devido à falência da Plurijornal. A 22 de fevereiro de 2014, o jornal foi relançado sob João Abreu. Em agosto de 2018 fundiu-se com o Diário da Região.
Em 2020, a pandemia COVID-19 forçou a redação a lançar uma campanha de crowdfunding na plataforma PPL: custos mensais excediam 40.000 €, enquanto as receitas publicitárias tinham colapsado.
Em 2025, o Município de Setúbal declarou o jornal objeto de interesse público municipal no seu 170.º aniversário, reconhecendo o seu “lugar definidor na construção da identidade local e memória coletiva”.
Estado atual: o único jornal diário do distrito (segunda a sexta) e o título de jornal mais antigo do Portugal continental (segundo nacionalmente após Açoriano Oriental dos Açores, fundado 1835). Proprietário: Outra Margem.
Outros jornais
- Semmais — um semanário distribuído com o nacional Expresso no Distrito de Setúbal desde 2007
- O Sesimbrense (Sesimbra) — um dos poucos jornais locais sobreviventes
Segundo o jornalista Francisco Alves Rito (5.º Congresso dos Jornalistas Portugueses), há cerca de 30 anos o distrito tinha cerca de duas dúzias de jornais: Distrito de Setúbal, Notícias de Setúbal, Correio de Setúbal, Jornal do Barreiro, Voz do Barreiro, Jornal de Almada, Gazeta do Montijo e outros. Hoje, sobrevivem apenas 2–3.
Rádio
Rádio Azul (98.9 FM)
Começou a emitir a 1 de julho de 1985 como estação de rádio pirata nos 98.5 FM. Licenciada a 9 de maio de 1989 para emitir nos 98.9 FM (2.000 W). Cobre 100% do município de Setúbal e áreas vizinhas. Uma estação generalista com programação de notícias, música e análise.
Rádio Jornal de Setúbal (88.6 FM)
Em funcionamento há mais de 32 anos, emitindo 24 horas por dia. Programas incluem o matinal “Encontro Marcado”, notícias da cidade “Bom Dia Cidade” e blocos musicais.
A era das rádios piratas (década de 1980)
No início da década de 1980, Portugal tinha apenas 3 estações de rádio licenciadas (RDP, Renascença, Comercial). A partir de 1984, uma onda de “rádios piratas” varreu o país — estações a emitir de sótãos, garagens e instalações de associações comunitárias. A Lei da Rádio de 1989 legalizou muitas delas, incluindo a Rádio Azul em Setúbal.
Outras estações de rádio no distrito
| Estação | Frequência | Cidade |
|---|---|---|
| Popular FM | 90.9 FM | Montijo |
| Sesimbra FM | 103.9 FM | Sesimbra |
| RDS (Rádio Seixal) | 87.6 FM | Seixal |
| Rádio TDS | 93.9 FM | Setúbal / região |
Das aproximadamente 20 estações de rádio em funcionamento há 30 anos, restam cerca de 6.
O escândalo do monopólio (2003)
Em 2003, funcionários de estações de rádio locais apresentaram queixa sobre um monopólio controlado pelo empresário António Justo Tomás. Entre 1995 e 1996 tinha adquirido participações na Rádio Voz, Rádio Jornal e Rádio Azul, concentrando efetivamente o controlo sobre três das quatro estações da cidade. Jornalistas acusaram-no de censura e uso dos media para fins pessoais.
Televisão
Setúbal TV
O primeiro canal de televisão online da região, lançado em 2009. A web-TV produz programas originais, documentários e notícias da cidade. Foi descrito como “motor cultural da cidade”.
TDS — Televisão do Sul
Televisão web com transmissão contínua 24 horas (desde 2023). Gerida pela empresa Diálogo Hábil, que também opera uma rede de rádio regional em várias frequências pelos distritos de Setúbal, Lisboa, Évora e Portalegre.
Setúbal não tem canal de televisão terrestre próprio — a cidade está coberta por canais nacionais (RTP, SIC, TVI) via sistema TDT.
Media online
Meios digitais têm crescido desde os anos 2000:
- Diário do Distrito (desde 2006) — a publicação online mais antiga do distrito, parceira da plataforma SAPO
- Distrito Online — notícias regionais
- Setúbal Notícias — “o jornal do distrito mais feliz de Portugal”
- Rádio Web Setúbal Sado — rádio internet
A crise dos media locais
Nas palavras do jornalista Francisco Alves Rito, a imprensa local do distrito passou por “30 anos de morte lenta”:
- De ~24 jornais, restam apenas 2–3
- De ~20 estações de rádio, cerca de 6
- A pandemia COVID-19 (2020) deu um golpe adicional às receitas publicitárias
- A crise dos media locais ameaça o ecossistema de informação da região
Apesar das dificuldades, O Setubalense continua a publicar, e novas plataformas digitais estão a preencher o vazio de informação.
Significado cultural
Os media locais desempenharam um papel fundamental na documentação da vida da cidade:
- O movimento operário e greves na indústria conserveira
- Resistência à censura do Estado Novo
- A Revolução dos Cravos e suas consequências
- Eventos culturais e festivais
- A vida do clube de futebol Vitória de Setúbal
O Setubalense é mais do que um jornal — é uma crónica da cidade desde 1855: da monarquia através da república, ditadura e revolução até à democracia.
Ver também
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