Slow J e a Cena Hip-Hop de Setúbal
Dos bairros operários de Setúbal, onde o charroco ainda soa e cheira a sardinha, emergiu um artista que se tornou a voz de uma nova geração portuguesa. Slow J — rapper, produtor e cantor, cujo álbum “Afro Fado” ligou raízes africanas com saudade portuguesa e mudou para sempre o panorama musical do país.
João Batista Coelho: Primeiros Anos
João Batista Coelho, mais conhecido pelo nome artístico Slow J, nasceu a 21 de setembro de 1992 em Setúbal. O seu pai é de origem angolana, a mãe portuguesa. Esta dupla herança — africana e europeia — tornar-se-ia definidora da sua música e identidade.
A infância e juventude de Slow J foram marcadas por mudanças frequentes pelos subúrbios de Setúbal e Lisboa: entre os 8 e os 20 anos, a família mudou-se repetidamente de residência. A música desde cedo tornou-se para ele um refúgio e uma forma de dar sentido ao mundo. Inicialmente interessado em rock, mudou para o hip-hop após descobrir o álbum do rapper português Valete (2006), que lhe mostrou as possibilidades criativas ilimitadas do género.
Londres: Engenharia Áudio e Independência
Em 2013, Slow J mudou-se para East London, onde se inscreveu no SAE Institute num curso de Engenharia Áudio. O período londrino foi decisivo para a sua formação como músico: não só ganhou uma base técnica para produção, como também mergulhou no ambiente musical multicultural da capital britânica, absorvendo influências de música eletrónica, grime, soul e R&B.
Foi em Londres que Slow J percebeu que a sua identidade musical reside na interseção de culturas — portuguesa, africana e anglo-americana. Esta compreensão determinou o seu caminho criativo posterior.
Discografia
“The Free Food Tape” (2015) — Estreia
Regressado a Portugal, Slow J lançou o seu EP de estreia “The Free Food Tape” em 2015. A obra foi gravada e produzida de forma independente (self-released), refletindo o seu princípio de independência criativa. O EP atraiu a atenção da cena hip-hop portuguesa pela sua abordagem não convencional: ao contrário do estilo “de rua” dominante na altura, Slow J oferecia rap introspetivo e melancólico com elementos melódicos.
“The Art of Slowing Down” (2017) — Avanço
O álbum de estreia completo “The Art of Slowing Down”, lançado em 2017, foi um avanço. O álbum inspirou-se no espetro mais amplo de influências: fado português, semba angolana, hip-hop americano, eletrónica britânica, soul. O próprio Slow J descreveu-o como uma tentativa de “abrandar” num mundo obcecado pela velocidade — encontrar beleza no silêncio, na pausa, na reflexão.
O álbum estabeleceu a reputação de Slow J como uma das vozes mais originais do novo hip-hop português — um artista que não copia modelos americanos mas cria o seu próprio som na interseção de culturas.
“Sente Isto” Label (2018)
Em 2018, Slow J juntamente com amigos de infância fundou a editora independente “Sente Isto” (literalmente — “Sente Isto”). A editora tornou-se não apenas uma estrutura de negócio, mas um manifesto de autonomia criativa: o controlo sobre produção, distribuição e identidade visual permaneceu nas mãos do próprio artista e do seu círculo mais próximo.
Através da “Sente Isto” foram lançados os singles “Sem Ti” e “CorDaPele”, e a editora também apoiou o trabalho de outros jovens músicos portugueses.
“You Are Forgiven” (2019)
O terceiro álbum “You Are Forgiven” foi lançado sem aviso prévio a 21 de setembro de 2019 — no aniversário do artista. O álbum de nove faixas explora temas de perdão, responsabilidade paternal e maturidade emocional. Esta é a obra mais pessoal e íntima de Slow J, marcada por produção minimalista e autobiografia aberta.
“Afro Fado” (2023) — Álbum Principal
O álbum “Afro Fado”, lançado em novembro de 2023, tornou-se o culminar do caminho criativo de Slow J e um evento cultural sem precedentes para a música portuguesa.
Conceito
O título “Afro Fado” é programático. Liga dois mundos: “Afro” — raízes africanas, herança angolana do pai, ritmos de semba e kizomba; “Fado” — tradição musical portuguesa, saudade, saudade do perdido. O álbum foi posicionado como “um ensaio sobre identidade portuguesa e sua mistura” — uma tentativa de compreender o que significa ser simultaneamente africano e português, residente de Setúbal e cidadão do mundo.
Alinhamento e Colaborações
O álbum contém 14 faixas, abrindo com a composição “Tata” — um discurso ao pai (em crioulo angolano “tata” significa “pai”). Entre outras faixas estão “Where U @”, “Nascidos & Criados” (com Teresa Salgueiro, lenda do grupo Madredeus), “Origami” (com Gson — outro rapper português em ascensão).
Sucesso Comercial
“Afro Fado” tornou-se o álbum português mais ouvido nas primeiras 24 horas após o lançamento e ocupou o oitavo lugar na tabela Spotify Global Debut. O sucesso do álbum permitiu a Slow J encher a Altice Arena em Lisboa duas vezes (7 e 8 de março de 2024) — o maior espaço de concertos de Portugal com capacidade de cerca de 20.000 pessoas.
Prémios
Na cerimónia dos Prémios Play 2024 (principal prémio musical de Portugal), Slow J recebeu prémios nas categorias:
- “Melhor Artista Masculino”
- “Melhor Álbum para a Crítica” por “Afro Fado”
Além disso, a redação da revista New in Setúbal (NiS) reconheceu Slow J como “Personalidade do Ano”, notando a sua contribuição para o prestígio cultural da sua cidade natal.
Slow J e Setúbal
Apesar do sucesso internacional e da vida entre Lisboa e outras cidades, Slow J sublinha invariavelmente a sua ligação com Setúbal. Numa entrevista ao jornal O Setubalense, disse: “Temos um tempo limitado nesta vida, e há coisas que só nós viemos cá fazer.”
Setúbal — uma cidade com profundas tradições do movimento operário, indústria conserveira e cultura marítima — moldou o caráter de Slow J: trabalho árduo, independência, sentido de justiça social. A sua música, apesar de todo o seu cosmopolitismo, está enraizada nos bairros operários nas margens do Sado.
Vaiapraia: Cena Experimental
Slow J não é o único talento musical de Setúbal. A cidade gerou projetos mais experimentais, entre os quais se destaca Vaiapraia — o projeto de Rodrigo Vaiapraia, um artista multidisciplinar autodidata nascido em Setúbal.
Vaiapraia começou a compor e gravar canções em 2013, lançando o seu EP de estreia na editora Experimentáculo Records em 2014. De 2014 a 2018, o projeto existiu como trio, e depois tornou-se predominantemente solo novamente, embora as atuações ao vivo ocorram com banda completa.
A música de Vaiapraia é uma interseção de indie rock, eletrónica experimental e pós-punk. Entre os lançamentos estão os EPs “Estrelas e Trovões” (2023) e “Culpa Trauma Vergonha” (2024). Atualmente, Rodrigo vive em Londres mas mantém laços criativos com Setúbal.
Vaiapraia representa outro lado da cena musical de Setúbal — underground, experimental, não orientada para o público de massa. Juntamente com Slow J, formam dois polos da música contemporânea da cidade: comercialmente bem-sucedida e artisticamente radical.
Bar Absurdo: Berço da Música ao Vivo
Nenhum relato da cena musical de Setúbal estaria completo sem mencionar o Bar Absurdo — um bar de culto a funcionar desde 1988. Localizado no centro da cidade, o Absurdo há mais de três décadas permanece o principal espaço de música ao vivo em Setúbal.
Bar Absurdo é:
- Concertos ao vivo — todas as últimas sextas-feiras do mês, com variedade de estilos: música portuguesa, rock, blues, covers e espetáculos tributo
- DJ sets — todas as sextas e sábados
- Bar de cocktails — com reputação de um dos melhores da cidade
O bar passou por várias gerações de residentes de Setúbal, permanecendo um espaço onde carreiras musicais nasceram e se desenvolveram. Muitos jovens músicos de Setúbal, incluindo participantes da cena indie e alternativa, ganharam a sua primeira experiência de atuação ao vivo no Absurdo.
Segundo a Lonely Planet, o Bar Absurdo é onde se reúne a juventude “ousada e bonita” de Setúbal, apreciando cocktails e música ao vivo. Inicialmente o bar estava localizado numa rua diferente e só mais tarde se mudou para a sua localização atual, mantendo o seu caráter e público.
Hip-Hop no Contexto da Tradição Musical de Setúbal
O surgimento de Slow J e da cena hip-hop em Setúbal não é uma rutura com a tradição musical da cidade, mas a sua continuação por novos meios. Setúbal é a cidade de José Afonso, o bardo revolucionário cuja “Grândola, Vila Morena” se tornou o sinal da Revolução dos Cravos. A cidade de Luísa Todi, a grande cantora de ópera do século XVIII. A cidade do fado, com a sua escola local diferente da de Lisboa.
O hip-hop de Slow J encaixa-se nesta linha: música como meio de afirmação social, como voz daqueles que não são ouvidos, como ponte entre culturas. Quando Slow J chama ao seu álbum “Afro Fado”, não nega a tradição — expande-a, incluindo nela a experiência africana que sempre foi parte da história portuguesa mas raramente recebeu expressão artística.
Setúbal como Ecossistema Musical
Setúbal com uma população de cerca de 120.000 pessoas tem uma infraestrutura musical desproporcionalmente rica:
- Fórum Luísa Todi — a principal sala de concertos da cidade (634 lugares), acolhendo desde performers clássicos a contemporâneos
- Auditório José Afonso — espaço para concertos de câmara e eventos culturais
- Bar Absurdo — espaço de clube para música ao vivo (desde 1988)
- A Gráfica — centro de criatividade artística com programa de artes performativas
- Festivais — a cidade acolhe vários festivais de música ao longo do ano
Esta infraestrutura cria um ambiente onde jovens músicos podem desenvolver-se e experimentar sem sair da cidade para Lisboa ou o estrangeiro. Slow J, Vaiapraia e outros são produtos deste ecossistema.
Significado
O sucesso de Slow J tem significado além da música. Mostrou que:
- A província pode ser um centro — o sucesso mundial é possível de uma cidade operária de 120.000 pessoas
- Identidade dual é força — ser simultaneamente africano e português, residente de Setúbal e cosmopolita — não é contradição mas recurso criativo
- Independência é possível — o modelo da editora “Sente Isto” provou que um artista português pode controlar a sua carreira sem grandes editoras internacionais
- Tradição está viva — fado, semba e hip-hop podem existir numa obra, enriquecendo-se mutuamente
Para Setúbal, Slow J é uma fonte de orgulho comparável em significado a Bocage na poesia ou Luísa Todi na ópera. É prova viva de que a cidade ainda é capaz de produzir talentos de escala mundial.
Ver Também
- Fado em Setúbal — tradição musical com a qual Slow J dialoga
- José Afonso — predecessor na tradição de música de protesto
- Luísa Todi — grande figura musical do passado de Setúbal
- Fórum Luísa Todi — o principal espaço de concertos da cidade
- Revolução dos Cravos — contexto histórico da tradição de protesto
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