A Indústria Cimenteira: Secil e a Fábrica de Outão

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Fotografia: Diego Delso / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
A fábrica Secil-Outão ao sopé da Serra da Arrábida funciona desde 1906, produzindo ~2 milhões de toneladas de cimento por ano e representando ~93% das exportações de cimento de Portugal. A sua história espelha a da própria nação: desde a monarquia passando pela nacionalização até à competição global e aos desafios ambientais do século XXI.
Origens: do cimento natural ao Portland
Em 1904, foi fundada a Companhia de Cimentos de Portugal e estabelecida uma pequena fábrica — Fábrica da Rasca — em Outão (Setúbal). Dois fornos verticais produziam 10.000 toneladas por ano de cimento natural. Em 1906, a fábrica começou a fabricar cimento Portland artificial sob as marcas “Tenaz” e “Audaz”.
A localização não foi acidental: os calcários e margas jurássicos da Serra da Arrábida forneciam matéria-prima ideal, e a proximidade do mar assegurava o transporte.
A 18 de junho de 1930, a fusão da Companhia Geral de Cal e Cimento e da Secil criou a Secil — Companhia Geral de Cal e Cimento, Lda. — a empresa que existe até hoje.
Nacionalização e privatização
- 15 de abril de 1975 — o quarto governo provisório após a Revolução dos Cravos nacionalizou o setor cimenteiro, incluindo a Secil
- 1994 — a holding Semapa ganhou o concurso de privatização, adquirindo 51% da Secil
- 2004 — a irlandesa CRH adquiriu 49% por EUR 329 milhões
- 2012 — a Semapa comprou a participação da CRH, tornando-se proprietária única (100%)
- Dezembro de 2025 — a espanhola Cementos Molins anunciou a aquisição de 100% da Secil por EUR 1,4 mil milhões; conclusão prevista para o 1.º trimestre de 2026
A Semapa está cotada na Euronext Lisboa e é controlada pela família Queiroz Pereira.
A fábrica Secil-Outão hoje
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Localização | Ao sopé da Serra da Arrábida, dentro do Parque Natural e zona Natura 2000 |
| Capacidade | ~2 milhões de toneladas de cimento/ano |
| Cimento branco | 120.000 t/ano — único produtor em Portugal |
| Área da pedreira | ~99 hectares |
| Exportações | ~1,5 milhões de toneladas para 20+ países através de cais próprio |
| Quota da carga do Porto de Setúbal | ~31% |
| Quota das exportações de cimento de Portugal | ~93% |
A fábrica produz cimento cinzento (CEM I 42.5R, CEM I 52.5R) e cimento branco (marcas LUMEN, ARCHITEK) — todos certificados pela EN 197-1.
A modernização de 2020–2023
O maior projeto de investimento, no valor de EUR 86 milhões (CCL — Clean Cement Line), foi executado pela thyssenkrupp Industrial Solutions (Polysius):
- Novo calcinador AS-MSC com sistema Prepol SC-S para combustíveis alternativos (substituição mínima de 85% de combustíveis fósseis)
- Arrefecedor de grelha Polytrack 7T/5-3R
- Primeiro clínquer na linha modernizada — abril de 2023
- Redução de CO₂ de 20%
Paralelamente, foi lançado um sistema de recuperação de calor residual (WHR/ORC) com a italiana CTP Team: uma turbina Turboden com capacidade de 7,2 MW, recuperando até 29 MW de calor, gerando ~50.000 MWh/ano — mais de 30% das necessidades de eletricidade da fábrica.
Desde julho de 2024, a capacidade de clínquer foi expandida em 10%, e a quota de combustíveis alternativos subiu para 40% (objetivo: 50% até 2030).
O Grupo Secil: presença internacional
Além de Outão, as fábricas portuguesas Maceira-Liz (Leiria, desde 1923) e Cibra-Pataias (Alcobaça, desde 1950) também se encontram em funcionamento.
| País | Empresa | Detalhes |
|---|---|---|
| Tunísia | Société des Ciments de Gabès | ~1,4 Mt/ano |
| Líbano | Ciments de Sibline | 50,5% (desde 2007) |
| Angola | Secil Lobito | 51% |
| Cabo Verde | Secil Cabo Verde | Desde 2005, todas as ilhas |
| Brasil | Supremo Secil Cimentos | 100% desde 2015; fábricas em Pomerode e Adrianópolis (1,8 Mt/ano) |
Capacidade total do grupo: 9,75 milhões de toneladas/ano em 8 fábricas em 8 países em 4 continentes.
Em Portugal, a Secil detém a Unibetão (30 centrais de betão pronto), a Secil Britas (12 pedreiras), a Secil Prebetão (betão pré-fabricado) e a Argibetão.
O conflito ambiental
A fábrica localiza-se dentro do Parque Natural da Arrábida e território Natura 2000 — uma situação única para uma cimenteira.
O problema da pedreira
A Secil solicitou a fusão das pedreiras Vale de Mós A e Vale de Mós B, expandindo em 18,5 hectares (para 117,2 ha). O Plano de Ordenamento do Parque proíbe explicitamente novas pedreiras e a expansão das existentes. A Câmara Municipal de Setúbal considerou a expansão “incompatível com os instrumentos de gestão territorial aplicáveis”. A ONG ZERO classificou-a como “impossível e inaceitável”.
A carta aberta de 2023
Em julho de 2023, sete das principais organizações ambientais de Portugal — LPN, ANP|WWF, FAPAS, GEOTA, Quercus, SPEA, ZERO — enviaram uma carta aberta exigindo:
- Um plano para a desativação das pedreiras na Arrábida
- O encerramento da fábrica de Outão com desmantelamento e renaturalização
Contexto: as reservas de calcário no Vale de Mós B são já insuficientes; a Secil passou a transportar matéria-prima de pedreiras em Sesimbra.
Reabilitação
Desde 1983, um programa de revegetação progressiva utiliza espécies mediterrânicas resistentes à seca: alfarrobeira (Ceratonia siliqua), zambujeiro (Olea europaea var. sylvestris) e aroeira (Pistacia lentiscus). Desde 2007, uma componente faunística foi integrada no plano de reabilitação (Universidade de Évora).
Cimpor: ausente do distrito
A Cimpor (segundo maior produtor de cimento de Portugal) não tem fábricas no distrito de Setúbal. As suas fábricas localizam-se em Alhandra (Lisboa), Souselas (Coimbra) e Loulé (Algarve). Desde 2024, a Cimpor é detida pela Taiwan Cement Corporation (TCC), que adquiriu 100% por ~EUR 480 milhões.
Cronologia
| Ano | Acontecimento |
|---|---|
| 1904 | Fundação da Companhia de Cimentos de Portugal; Fábrica da Rasca |
| 1906 | Início da produção de cimento Portland em Outão |
| 1930 | Fusão criando a Secil — Companhia Geral de Cal e Cimento |
| 1975 | Nacionalização do setor cimenteiro |
| 1994 | Privatização: Semapa adquire 51% |
| 2004 | CRH compra 49% por EUR 329 milhões |
| 2012 | Semapa torna-se proprietária a 100% |
| 2020–2023 | Modernização de EUR 86 milhões (Clean Cement Line) |
| 2023 | Carta aberta de ONG ambientais exigindo encerramento |
| 2025 | Cementos Molins anuncia aquisição da Secil por EUR 1,4 mil milhões |

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Fotografia: Diego Delso / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
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