O Declínio da Indústria Piscatória
Durante mais de um século, Setúbal foi sinónimo de sardinhas. No seu auge nos anos 1920, a cidade albergava 130 fábricas de conservas e milhares de pescadores faziam-se ao mar todas as manhãs. Hoje, mal restam uma dúzia de embarcações cooperativas, tripuladas por homens envelhecidos que recordam um mundo que já não existe. O declínio da indústria piscatória não é apenas uma história económica — é o desmantelamento da identidade de uma comunidade.
A escala do colapso
Os números contam uma história implacável. Em meados dos anos 1980, o stock ibérico de sardinha — partilhado entre Portugal e Espanha — sustentava uma biomassa estimada em 1,3 milhões de toneladas (1984). As capturas ibéricas combinadas excediam rotineiramente 200.000 toneladas por ano. A sardinha era o motor da economia piscatória portuguesa, e Setúbal era o seu coração pulsante.
Nos anos 2010, o panorama mudou irreconhecivelmente. A biomassa despencou para um mínimo histórico de aproximadamente 113.000 toneladas em 2015 — menos de um décimo do seu nível de 1984. As capturas portuguesas colapsaram em paralelo: em 2018, a captura nacional total de sardinha caiu para apenas 9.624 toneladas, um valor que teria sido impensável uma geração antes.
| Indicador | Pico | Mínimo | Variação |
|---|---|---|---|
| Biomassa ibérica | ~1.300.000 t (1984) | ~113.000 t (2015) | -91% |
| Captura ibérica | ~200.000 t/ano (anos 1980) | ~9.624 t (2018, apenas PT) | -95% |
| Embarcações cooperativas de Setúbal | centenas (meados séc. XX) | ~12 (2021) | — |
| Pescadores ativos, Setúbal | milhares | ~250 (2021) | — |
Causas do declínio
Nenhum fator isolado explica o colapso. Em vez disso, uma combinação de sobrepesca, alterações ambientais e falhas institucionais conduziu o stock ao limite.
Sobrepesca
Durante décadas, as frotas portuguesa e espanhola exploraram o stock da sardinha com pouca coordenação. Cada país estabelecia as suas próprias quotas, e a fiscalização era fraca. Os cerqueiros industriais — muito mais eficientes que as tradicionais redes arte xávega de arrasto na praia — podiam capturar quantidades enormes numa única noite. Quando a União Europeia impôs quotas ibéricas conjuntas no início dos anos 2000, o dano já estava avançado.
Alterações climáticas e aquecimento oceânico
As sardinhas são altamente sensíveis à temperatura da água. O aquecimento das águas atlânticas perturbou os ciclos de desova e aumentou a mortalidade larvar. Os padrões de afloramento costeiro ao largo da costa portuguesa — as correntes frias ricas em nutrientes que alimentam as florações de plâncton — tornaram-se menos previsíveis. Para uma espécie que depende de condições ambientais precisas para se reproduzir, mesmo pequenas alterações podem desencadear colapsos populacionais.
Competição marroquina
À medida que os stocks ibéricos caíam, Marrocos emergiu como o principal produtor mundial de sardinha, com capturas superiores a um milhão de toneladas por ano. As sardinhas marroquinas, processadas a custo inferior, inundaram os mercados europeus e prejudicaram os produtores portugueses. Os pescadores de Setúbal encontraram-se prensados entre a redução dos stocks locais e as importações baratas.
Falhas regulatórias
Portugal e Espanha falharam durante anos em estabelecer um plano de gestão unificado para o stock ibérico partilhado. Mesmo após intervenção da UE, as negociações de quotas foram contenciosas. Os períodos de defeso — tipicamente de fevereiro a maio — foram necessários mas impopulares, pois deixaram os pescadores sem rendimento durante os meses difíceis.
Impacto em Setúbal
Uma força de trabalho em desaparecimento
Em 2021, a cooperativa de pesca de Setúbal operava aproximadamente 12 embarcações com cerca de 250 pescadores ativos. Desses, estima-se que 70% tinham mais de 50 anos. Os jovens abandonaram massivamente a profissão: salários baixos, horas extenuantes, perigo físico e a incerteza de rendimento dependente de quotas oferecem pouco apelo comparado aos empregos no setor dos serviços em Lisboa, a escassos sessenta minutos de distância.
A perda da comunidade
O declínio esvaziou os bairros piscatórios tradicionais de Setúbal. O Bairro dos Pescadores e as Fontainhas, outrora comunidades coesas onde famílias inteiras estavam ligadas ao mar, perderam grande parte do seu carácter distinto. Casas que pertenceram a famílias piscatórias durante gerações são vendidas ou arrendadas a forasteiros. Os rituais sociais do ofício — remendar redes no cais, as partidas antes do amanhecer, os leilões de peixe à noite na lota — desvaneceram-se da vida quotidiana.
A cultura piscatória de Setúbal sobrevive mais como património do que como economia viva. Os festivais celebram o que foi, em vez do que é.
Vozes do cais
Leonel Russo é pescador desde os 10 anos. Aos 75, ainda remenda redes no porto, embora raramente vá ao mar. “Quando comecei, podia ver-se as sardinhas prateadas na água desde o cais”, recorda. “Agora os jovens nem sequer sabem como é uma sardinha viva.”
Fernando Mendes, que começou a pescar em 1965, ecoa o sentimento: “A pesca já não é o que era.” Lembra-se quando a frota de Setúbal contava às centenas e as fábricas de conservas trabalhavam em três turnos. “Alimentámos Portugal”, diz. “Agora Portugal importa peixe de Marrocos.”
Ambos os homens representam uma geração para quem o mar não foi uma escolha de carreira, mas uma herança. Quando se reformarem, muito do conhecimento prático que transportam — ler as correntes, saber onde se reúnem os cardumes, compreender os humores do estuário do Sado — reformar-se-á com eles.
A indústria conserveira: ascensão e queda
O destino da frota pesqueira é inseparável do destino da indústria conserveira. Durante 140 anos, mais de 400 fábricas de conservas operaram em Setúbal e arredores. A indústria atingiu o auge nos anos 1920, quando aproximadamente 130 fábricas empregavam milhares de trabalhadores — predominantemente mulheres — que limpavam, embalavam e selavam sardinhas à mão.
O declínio foi lento no início, depois súbito. À medida que os stocks caíam e os custos subiam, as fábricas fechavam uma a uma. As últimas duas conserveiras de sardinha em Setúbal encerraram em 1995. Hoje, as sardinhas capturadas ao largo da costa de Setúbal devem viajar aproximadamente 400 km para norte até às conserveiras em Matosinhos, perto do Porto, para processamento — uma ironia que não passa despercebida aos pescadores locais.
As próprias fábricas de conservas foram reconvertidas ou demolidas. Algumas, como o antigo complexo Feu Hermanos, tornaram-se espaços culturais. Outras são simplesmente terrenos vazios. O cheiro característico de peixe e azeite que outrora definia ruas inteiras do centro da cidade desapareceu.
Apoio governamental e financiamento da UE
O governo português e a União Europeia tentaram amortecer o golpe através de uma série de programas financeiros.
MAR 2020 e MAR 2030
O programa MAR 2020 (2014–2020) e o seu sucessor MAR 2030 (2021–2027) canalizam fundos estruturais da UE para o setor piscatório português. As prioridades incluem modernização da frota, infraestrutura portuária, desenvolvimento da aquicultura e apoio a comunidades piscatórias em transição.
Subsídios diretos
Os pescadores recebem subsídios de combustível limitados a um máximo de EUR 758.000 por beneficiário para compensar custos crescentes de gasóleo. Durante períodos de defeso obrigatório, pagamentos de compensação estão disponíveis para proprietários de embarcações e tripulantes que não podem pescar.
Limitações
Os críticos argumentam que os subsídios tratam sintomas em vez de causas. O problema fundamental — um stock esgotado e uma força de trabalho envelhecida — não pode ser resolvido com vales de combustível. Além disso, o peso administrativo de candidatar-se a fundos da UE é frequentemente proibitivo para pescadores de pequena escala com literacia limitada e sem pessoal de escritório.
Sinais de recuperação
Apesar da trajetória sombria, há razões para otimismo cauteloso.
Recuperação da biomassa
Após anos de quotas rigorosas e períodos de defeso, a biomassa da sardinha ibérica começou a recuperar. Em 2021, as estimativas colocavam o stock em aproximadamente 451.000 toneladas — ainda muito abaixo do pico de 1984, mas mais do triplo do mínimo de 2015. Os cientistas atribuem a recuperação a uma combinação de pressão de pesca reduzida e várias épocas de desova favoráveis.
Certificação MSC recuperada
Em julho de 2025, a pescaria de sardinha ibérica recuperou a sua certificação Marine Stewardship Council (MSC) — um marco que tinha sido perdido anos antes quando o stock colapsou. A certificação abrange 317 embarcações em Portugal e Espanha e sinaliza aos mercados internacionais que a pescaria cumpre padrões rigorosos de sustentabilidade.
Quotas em subida
A quota de 2025 para a sardinha ibérica foi fixada em 34.406 toneladas — um aumento significativo face às alocações próximas de zero dos piores anos. Embora ainda modesta pelos padrões históricos, a quota crescente reflete confiança científica na trajetória do stock.
Iniciativas sustentáveis
Várias iniciativas locais e nacionais visam construir um futuro mais resiliente para o setor pesqueiro de Setúbal.
“O que vem à rede”
A campanha “O que vem à rede” incentiva os consumidores a diversificar o seu consumo de peixe além das sardinhas e do bacalhau. Ao promover espécies menos conhecidas — carapau, boga, salmonete — a iniciativa reduz a pressão sobre os stocks de sardinha enquanto apoia os rendimentos dos pescadores.
Semana do Mar e do Pescador
A anual Semana do Mar e do Pescador em Setúbal celebra o património marítimo da cidade e sensibiliza para os desafios que a comunidade piscatória enfrenta. Os eventos incluem passeios de barco, demonstrações culinárias, exposições e debates sobre o futuro da pesca sustentável.
Associações de pesca artesanal
As associações locais defendem os direitos dos pescadores de pequena escala e promovem métodos artesanais como ecologicamente sensatos e culturalmente valiosos. Apesar da dominância do cerco industrial — que representa aproximadamente 98% da captura de sardinha — estima-se que 84,4% das licenças de pesca portuguesas ainda sejam classificadas como pequena pesca (pequena pesca).
Pesca tradicional versus industrial
A tensão entre métodos de pesca tradicionais e industriais espelha um conflito mais amplo ao longo da costa portuguesa.
Arte xávega
A arte xávega — a rede de arrasto na praia puxada por equipas de pescadores (e historicamente por bois) — está agora quase extinta. Representa escassos 2% da captura total e sobrevive principalmente como demonstração cultural em vez de prática comercial. Em Setúbal, as últimas operações de arte xávega são atrações turísticas em vez de empresas piscatórias sérias.
Cerco
Os cerqueiros industriais (cerco) dominam a pesca da sardinha. Estas embarcações, tipicamente com 20–30 metros de comprimento, usam sonar para localizar cardumes e cercá-los com redes maciças. Um único lance pode capturar dezenas de toneladas. A eficiência é incomparável, mas também o é o potencial para sobrepesca quando as quotas são mal fiscalizadas.
O paradoxo
O paradoxo da pesca portuguesa é estatístico: a grande maioria das licenças é de pequena escala, mas a grande maioria do peixe é capturado por embarcações industriais. Isto significa que decisões políticas — alocações de quotas, períodos de defeso, subsídios — afetam desproporcionalmente os pescadores de pequena escala que estão menos capacitados para absorver choques económicos.
Olhando para o futuro
O futuro da indústria piscatória de Setúbal depende de fatores largamente fora do controlo dos pescadores locais. As alterações climáticas continuarão a remodelar os ecossistemas atlânticos. As negociações de quotas da UE determinarão quanto pode ser capturado e quando. As preferências dos consumidores influenciarão se as sardinhas portuguesas podem exigir um prémio sobre importações mais baratas.
O que é certo é que a indústria nunca regressará à sua escala do século XX. As centenas de barcos, os milhares de pescadores, as 130 fábricas de conservas — estes pertencem à história. A questão não é se Setúbal pode reconstruir o que foi perdido, mas se pode preservar o que resta: uma frota mais pequena e sustentável, uma ligação viva ao mar, e o conhecimento de homens como Leonel Russo e Fernando Mendes antes de desaparecer para sempre.
Cronologia
| Ano | Acontecimento |
|---|---|
| Anos 1880 | Primeiras fábricas de conservas de sardinha abrem em Setúbal |
| Anos 1920 | Auge: ~130 conserveiras operando simultaneamente |
| 1984 | Biomassa da sardinha ibérica atinge o pico em ~1,3 milhões de toneladas |
| 1995 | Últimas duas fábricas de conservas em Setúbal encerram |
| Anos 2000 | UE impõe quotas conjuntas para a sardinha ibérica |
| 2015 | Biomassa atinge mínimo histórico (~113.000 toneladas) |
| 2018 | Captura portuguesa de sardinha cai para 9.624 toneladas |
| 2021 | Biomassa recupera para ~451.000 toneladas; ~12 embarcações cooperativas restam |
| Julho de 2025 | Certificação MSC recuperada para sardinha ibérica (317 embarcações) |
| 2025 | Quota anual fixada em 34.406 toneladas |
Ver também
- Cultura Piscatória de Setúbal
- Sardinhas: O Símbolo de Setúbal
- A Indústria Conserveira
- Operários Portuários de Setúbal
- O Porto Moderno de Setúbal
- Cooperativas e Pequeno Comércio
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