Cooperativas e Pequeno Comércio
O movimento cooperativo em Setúbal não é apenas uma forma de organização económica — reflete uma profunda tradição social. A “Cidade Vermelha”, com o seu passado operário, municípios de esquerda e o legado da Revolução dos Cravos, criou uma das redes cooperativas mais densas de Portugal — desde adegas vitivinícolas a associações de habitação.

Cooperativas vitivinícolas
SIVIPA — Sociedade Vinícola de Palmela
A SIVIPA foi fundada em 1964 por um grupo de viticultores da Península de Setúbal para engarrafar e comercializar os seus próprios vinhos. Nos anos 90, a família Cardoso juntou-se à cooperativa com 400 hectares de vinhas, expandindo significativamente a sua base de produção.
Atualmente, a SIVIPA especializa-se em vinhos de Moscatel de Setúbal, incluindo Moscatel Roxo envelhecido de 10 anos, sendo uma das marcas reconhecidas da região vinícola.
Adega Cooperativa de Palmela
A maior cooperativa vinícola da região:
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Fundada | 1955 (como Adega Cooperativa da Região do Moscatel de Setúbal) |
| Início das operações | 1958 |
| Sócios iniciais | 50 sócios, 1,5 milhões de litros/ano |
| Atualmente | Mais de 200 sócios, mais de 8 milhões de litros/ano |
| Especialização | Maior produtor de vinhos Castelão |
A cooperativa desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento da DOC Palmela — uma região vinícola portuguesa onde os vinhos tintos de Castelão formam a base (mínimo 67% por lei). Os vinhos brancos são feitos de Fernão Pires e Moscatel de Setúbal.
A fama do Moscatel além de Portugal começou na segunda metade do século XIV, quando o rei Ricardo II de Inglaterra se tornou um frequente importador do vinho.
Cooperativas de pesca
Setúbal é um dos principais centros piscatórios de Portugal, com uma tradição secular (ver Cultura de Pesca). Durante o Estado Novo, o estado centralizou a organização da pesca, encorajou a formação de cooperativas e controlou os abastecimentos.
Após a Revolução dos Cravos, as cooperativas de pesca ganharam maior autonomia, mas enfrentaram novos desafios: declínio das reservas de sardinha, concorrência da pesca industrial e abandono da atividade pelos jovens.
[NÃO VERIFICADO] Nomes específicos e estado atual das cooperativas de pesca de Setúbal requerem verificação adicional a partir de fontes locais.
O movimento cooperativo após a Revolução dos Cravos
A Revolução de 1974 deu um impulso poderoso ao movimento cooperativo na região. O Partido Comunista Português, que conquistou mais de metade dos votos em Setúbal nas eleições pós-revolucionárias, organizou milhares de camponeses e trabalhadores em cooperativas.
Na zona de reforma agrária (ZIRA — Zona de Intervenção da Reforma Agrária), foram estabelecidas Unidades Coletivas de Produção (UCP). Em outubro de 1975, comissões de distrito, comissões de fábrica, comissões de soldados e cooperativas de camponeses em Setúbal uniram-se numa comissão central de coordenação.
Com o tempo, muitas UCPs foram dissolvidas, mas a cultura cooperativa enraizou-se profundamente na região. O distrito de Setúbal tem a maior diversidade de cooperativas de habitação de Portugal — facto confirmado por um estudo de 2006.
Cooperativas sociais
CERCI
O movimento CERCI (Cooperativas de Educação e Reabilitação de Cidadãos Inadaptados) surgiu em meados dos anos 70 como a primeira vaga de cooperativas sociais em Portugal. As CERCI centram-se na educação, reabilitação e inclusão social de pessoas com deficiência. Várias destas organizações operam no distrito de Setúbal.
Cooperativas de habitação
O distrito de Setúbal liderou historicamente Portugal na diversidade de cooperativas de habitação. O organismo nacional representativo é a FENACHE (fundada em 1980), agrupando 32 cooperativas.
Em 2023, o município de Setúbal anunciou um projeto-piloto de habitação cooperativa — construção de ~50 apartamentos a preços acessíveis, recorrendo a uma linha de financiamento nacional de 250 milhões de euros. O projeto reflete um interesse renovado no modelo cooperativo como resposta à crise habitacional.
Artesanato e oficinas
A região de Setúbal mantém tradições artesanais vivas:
- Cortiça — explorações familiares oferecem visitas à colheita e processamento de cortiça. Os produtos incluem malas, carteiras, sapatos e joias
- Cerâmica — uma tradição do sul de Portugal, incluindo azulejos pintados (azulejos)
- Têxteis — bordados e tecelagem em oficinas rurais
- Oficinas — muitos estúdios oferecem aulas para turistas: pintura de azulejos, cerâmica, trabalho em cortiça
Mercados e comércio
O Mercado do Livramento é o principal mercado alimentar da cidade, com 350 vendedores. Para além dele, o Mercado do Rio Azul é um mercado de peixe mais pequeno junto às docas.
A Feira de Santiago é o maior evento comercial a sul do Tejo, estabelecida por decreto real em 1582. Centenas de expositores de artesanato, associações locais e barracas gastronómicas. Originalmente uma feira puramente económica, adquiriu uma forte dimensão cultural ao longo dos séculos.
Pequeno comércio: desafios e perspetivas
As principais ruas comerciais de Setúbal são a Avenida Luísa Todi e a Rua 1.º de Maio (perto do Mercado do Livramento). O centro histórico mantém uma densa malha de comércio de proximidade: cafés, restaurantes, lojas especializadas.
Principais desafios para o pequeno comércio:
- Concorrência de grandes centros comerciais (Alegro Setúbal)
- Transferência de consumidores para compras online
- Subida das rendas no centro histórico
- Fluxos turísticos sazonais
O município apoia o pequeno comércio através de programas de digitalização e iniciativas criativas.
Ver também
- Moscatel de Setúbal
- Vinhos Regionais
- Cultura de Pesca
- A Revolução dos Cravos em Setúbal
- A “Cidade Vermelha”
- Feira de Santiago
- Mercado do Livramento
Fontes de imagens
- mercado-livramento-cooperatives.webp — Mercado do Livramento, Setúbal. Autor: GualdimG. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
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