Festival Círculo de Jazz

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Fotografia: utilizador do Flickr / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0
Em fevereiro, quando Setúbal invernal se envolve em névoa suave do Atlântico, sons de saxofone, contrabaixo e piano irrompem das portas de igrejas antigas, salas de teatro e sociedades musicais — o Círculo de Jazz fecha-se mais uma vez, transformando a cidade durante dez dias num palco vivo de jazz, onde cada sala de concertos se torna um ponto no mapa da improvisação.
Sobre o Festival
O festival Círculo de Jazz é um festival anual de jazz realizado em Setúbal na primeira quinzena de fevereiro. Em 2026, a 15.ª edição de aniversário decorreu de 5 a 14 de fevereiro. O programa incluiu mais de dez concertos em diversos espaços culturais por toda a cidade.
O festival é organizado pela Câmara Municipal de Setúbal em parceria com a Sociedade Musical Capricho Setubalense — uma das mais antigas instituições culturais da cidade. Esta parceria é simbólica: autoridades municipais e sociedade civil criam conjuntamente um espaço para o jazz — música que, por sua natureza, procura o diálogo e a improvisação.
Nome e Conceito
O Princípio do “Círculo”
O nome Círculo de Jazz reflete o conceito central do festival: os concertos realizam-se em diversos locais por toda a cidade, formando uma espécie de “círculo” — um percurso pelo qual os visitantes se movem de uma sala para outra. Cada espaço tem acústica e atmosfera únicas, e a mesma música soa diferente numa igreja barroca, num cinema modernista e numa sociedade musical histórica.
Este princípio transforma toda a cidade num único espaço de concerto e encoraja o público a descobrir lugares que talvez nunca entrasse fora do contexto do festival.
Jazz e Música Improvisada
O programa do Círculo de Jazz não se limita ao jazz em sentido estrito. O festival posiciona-se como plataforma para jazz e música improvisada em sentido lato — desde swing clássico e bebop até jazz de vanguarda, fusão, world music e projetos experimentais na interseção de géneros.
Espaços
Fórum Municipal Luísa Todi
O Fórum Municipal Luísa Todi é a principal sala de concertos de Setúbal, com o nome da grande cantora do século XVIII nascida na cidade. É um espaço moderno com excelente acústica, capaz de acomodar várias centenas de espetadores. O palco do Fórum acolhe os concertos principais do festival — atuações de estrelas de envergadura nacional e internacional.
Cinema Charlot — Auditório Municipal
O Cinema Charlot é um cinema-auditório municipal cujo nome remete para Charlie Chaplin. A atmosfera intimista do cinema cria uma intimidade especial, ideal para atuações a solo e em duo. Aqui realiza-se a abertura do festival e concertos de convidados internacionais.
Igreja do Convento de Jesus
A Igreja do Convento de Jesus é uma das salas de concerto mais invulgares não só de Setúbal mas de todo Portugal. Construída no final do século XV, esta igreja gótico-manuelina possui acústica única: abóbadas de pedra e colunas estilizadas como cordas criam reverberação natural, conferindo profundidade e volume ao som. Jazz entre as paredes de uma igreja com cinco séculos é uma experiência que não pode ser reproduzida em nenhuma sala moderna.
Casa da Cultura
A Casa da Cultura é um espaço municipal para eventos culturais. Aqui realizam-se masterclasses, palestras, encontros com músicos e venda de bilhetes (passes).
Capricho Setubalense
O Capricho Setubalense é uma sociedade musical histórica, um dos parceiros organizadores do festival. Este espaço intimista evoca os clubes de jazz: o palco está próximo do público, iluminação calorosa, sensação de pertença a um círculo restrito de conhecedores. É aqui que se realizam as Sessões Noturnas às 23h00 — para quem quer continuar a noite de jazz após o concerto principal.
Programa da 15.ª Edição de Aniversário (2026)
Abertura: Jon Gomm
O festival abriu a 5 de fevereiro às 21h30 no Cinema Charlot com uma atuação de Jon Gomm — guitarrista acústico, cantor e compositor britânico conhecido pela sua abordagem única à guitarra acústica. Gomm utiliza técnicas percussivas no corpo do instrumento, criando a ilusão de múltiplos instrumentos a soar simultaneamente.
Trio de Francisco Andrade
No dia 6 de fevereiro, Francisco Andrade atuou com o seu trio no Capricho Setubalense — saxofonista e compositor chamado “um dos nomes centrais do jazz na Ilha da Madeira”.
Orquestra de Jazz de Setúbal
No dia 13 de fevereiro, a Orquestra de Jazz de Setúbal subiu ao palco sob direção musical de Carlos Azevedo. O pianista, compositor e arranjador Luís Figueiredo juntou-se à orquestra para interpretar composições originais do álbum “Se Por Acaso”. Nessa mesma noite, às 23h00, o Miguel Ângelo Trio atuou no Capricho Setubalense com apresentação do álbum “Distopia”.
Encerramento: Maria João e Mário Laginha
O festival encerrou a 14 de fevereiro — Dia de São Valentim — com dois concertos:
- 21h00, Fórum Municipal Luísa Todi — Maria João e Mário Laginha, dois titãs do jazz português a celebrar mais de duas décadas de colaboração criativa. Maria João é uma das mais brilhantes vocalistas de jazz da Europa, conhecida pelo seu estilo expressivo de atuação e experiências arrojadas. Mário Laginha é um pianista notável e vencedor de numerosos prémios.
- 23h00, Capricho Setubalense — André Fernandes com o projeto “Motor II”.
Exposições de Aniversário
Para assinalar o 15.º aniversário do festival, foram organizadas duas exposições fotográficas coletivas dedicadas à história do Círculo de Jazz — desde os primeiros concertos modestos até ao moderno festival de dez dias. As fotografias documentaram atuações, momentos de bastidores e a atmosfera de diferentes anos.
Bilhetes
A política de preços do festival visa garantir acessibilidade:
| Espaço | Preço |
|---|---|
| Fórum Municipal Luísa Todi | 10 euros |
| Cinema Charlot | 5 euros |
| Igreja do Convento de Jesus | 5 euros |
| Capricho Setubalense | 5 euros |
| Passe (passe geral) | 35 euros |
O passe para todos os concertos era vendido até 31 de janeiro na Casa da Cultura e representava uma poupança significativa para quem planeava assistir a múltiplos eventos.
Jazz de Verão — Contrapartida de Verão
Além do Círculo de Jazz de inverno, Setúbal acolhe a sua contrapartida de verão — Jazz de Verão. Em 2025, a 2.ª edição do festival decorreu de 25 a 27 de julho. O organizador é a Escola de Jazz de Setúbal com apoio da Câmara Municipal e da estação de rádio Antena 2.
O programa de 2025 incluiu:
- 25 de julho — PianoBatuque (pianista Pablo Lapidusas e baterista Joel Silva)
- 26 de julho — Sofia Vitória com apresentação do álbum “By Love’s Soul”
- 27 de julho — Cinema & Dintorni Trio (Massimo Cavalli, Ricardo Pinheiro, Jorge Moniz) — programa de temas de compositores cinematográficos italianos
O Jazz de Verão complementa o festival de inverno, criando dois polos de jazz no calendário cultural anual de Setúbal: inverno — intimista e de grande escala, e verão — mais descontraído e aberto.
Jazz no Contexto da Cultura Musical de Setúbal
Cidade como Palco Musical
Setúbal é uma cidade com ricas tradições musicais. Deu ao mundo Luísa Todi — a grande cantora de ópera do século XVIII, que dá nome à principal sala de concertos. Setúbal é um dos centros de fado fora de Lisboa, com a sua própria tradição e escola. José Afonso (Zeca Afonso) — autor de “Grândola, Vila Morena”, hino da Revolução dos Cravos — está ligado a Setúbal.
Neste contexto, o Círculo de Jazz insere-se na tradição da cidade como lugar onde a música nasce e é executada. O festival não introduz um elemento estranho mas enriquece o tecido existente da vida musical com outra dimensão.
Papel do Capricho Setubalense
A Sociedade Musical Capricho Setubalense merece menção especial. Esta é uma das mais antigas sociedades musicais da cidade, cujas atividades se estendem muito além do festival de jazz. A sociedade organiza concertos, masterclasses e programas educativos ao longo do ano, servindo como guardiã da cultura musical de Setúbal.
Orquestra de Jazz de Setúbal
A Orquestra de Jazz de Setúbal é um ensemble que existe com apoio municipal e representa um conjunto permanente, não um projeto único. Sob direção de Carlos Azevedo, a orquestra atua ao longo do ano, mas a sua aparição no Círculo de Jazz é um evento especial: é o momento em que a escola local de jazz demonstra o seu nível ao lado de estrelas convidadas de escala nacional e internacional.
A existência de uma orquestra permanente de jazz numa cidade de cerca de 120.000 habitantes não é trivial. Testemunha que o jazz em Setúbal não é um produto importado mas uma tradição enraizada com a sua própria infraestrutura.
Dimensão Educativa
O festival não se limita a concertos. Em várias edições realizaram-se encontros de escolas de jazz onde jovens músicos de diversas instituições educativas tiveram oportunidade de atuar, trocar experiências e interagir com profissionais. A Escola de Jazz de Setúbal, organizadora do Jazz de Verão de verão, também está ativa no festival de inverno.
Este componente educativo garante continuidade: o festival não só apresenta jazz ao público mas também forma uma nova geração de músicos para quem Setúbal não é um ponto de trânsito mas um lugar de desenvolvimento profissional.
Porquê Fevereiro?
Estratégia “Fora de Época”
A escolha de fevereiro para um festival de jazz não é acidental. Os meses de inverno são a época baixa turística em Setúbal, e eventos culturais neste período visam animar a vida urbana e atrair visitantes durante a “época morta”. O Círculo de Jazz cumpre precisamente esta função: torna-se motivo para vir a Setúbal no inverno, quando a cidade aparece sob luz diferente — mais calma, mais intimista, adequada para lazer contemplativo e música.
Atmosfera da Cidade Invernal
Setúbal invernal tem um encanto especial: luz suave do Atlântico, frentes de rio desertas, cafés quentes com vista para o Sado. O jazz enquadra-se perfeitamente nesta atmosfera — concertos noturnos em espaços históricos, jantar num restaurante de peixe, passeio pela cidade velha. O festival não compete com eventos de massa de verão mas oferece um formato fundamentalmente diferente — intimista, pensado, dirigido a conhecedores.
Informação Prática
- Datas: Primeira quinzena de fevereiro (em 2026 — 5 a 14 de fevereiro)
- Espaços: Fórum Municipal Luísa Todi, Cinema Charlot, Igreja do Convento de Jesus, Casa da Cultura, Capricho Setubalense
- Bilhetes: 5-10 euros por concerto ou 35 euros passe
- Recomendações: Adquirir passe antecipadamente; não falhar concertos noturnos no Capricho Setubalense — têm atmosfera intimista; ao assistir a concerto na Igreja do Convento de Jesus — atentar na arquitetura da igreja (colunas retorcidas em forma de corda são obra-prima do estilo manuelino)
- Bom saber: Fevereiro em Setúbal é ameno (10-15 graus) mas pode ser chuvoso; guarda-chuva não fará mal
Notas
[NÃO VERIFICADO] O ano exato de fundação do festival — presumivelmente 2011 ou 2012 — requer clarificação. A 15.ª edição em 2026, considerando possível pausa pandémica, pode indicar várias datas para a primeira edição.

📷 Crédito da imagem
Fotografia: Diego Delso / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
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