Santos Populares em Setúbal
Foto: Beria Lima de Rodriguez, CC BY-SA 3.0. Wikimedia Commons.
Em junho, Setúbal cheira a carvão e sardinhas, ressoa com acordeões e o rugido de milhares de vozes fundidas no ritmo unificado das marchas — a festa dos Santos Populares transforma a cidade num vasto palco ao ar livre onde a história do porto piscatório ganha vida em danças, desfiles e celebrações noite adentro até à madrugada.
Os Três Santos de Junho
A festa dos Santos Populares é uma das tradições populares mais importantes de Portugal, estendendo-se por todo o mês de junho com três datas-chave:
- Santo António — 13 de junho, santo padroeiro de Lisboa e um dos santos mais venerados no país
- São João — 24 de junho, especialmente celebrado no Porto e norte de Portugal
- São Pedro — 29 de junho, santo padroeiro dos pescadores, com significado especial para Setúbal
Enquanto Lisboa está tradicionalmente associada a Santo António e o Porto a São João, Setúbal — cidade cuja identidade está inseparavelmente ligada ao mar e à pesca — dá lugar de honra a São Pedro, padroeiro dos pescadores. Isto não é coincidência, mas reflexo da ligação profunda da cidade com o Rio Sado e o Oceano Atlântico, que durante séculos definiram o modo de vida da população local.
No entanto, os três santos são celebrados em Setúbal com grande pompa: as festividades de junho estendem-se por várias semanas, transformando a cidade num carnaval contínuo de cultura popular.
Marchas na Avenida Luísa Todi
O Principal Desfile
O acontecimento central da celebração dos Santos Populares em Setúbal é as Marchas Populares — desfile cerimonial ao longo da Avenida Luísa Todi, o principal passeio marítimo da cidade. Tradicionalmente, a primeira saída das marchas acontece a 14 de junho, num sábado à noite, quando a coluna de participantes desfila pela avenida em formato de apresentação.
Em 2025, 14 coletividades participaram nas marchas — nove competitivas e cinco não competitivas. Os participantes incluíram sociedades desportivas e culturais de vários bairros: Grupo Desportivo Setubalense “Os 13”, Associação ACTS — Companhia de Teatro de Setúbal, Grupo Desportivo Independente, União Desportiva e Recreativa das Pontes, Núcleo de Bicross de Setúbal, entre outros. Cada coletividade representa o seu bairro e prepara coreografia, trajes e acompanhamento musical únicos.
Programa Competitivo
Após o desfile de apresentação na avenida, as marchas atuam em formato competitivo no Pavilhão das Manteigadas — geralmente na sexta-feira e sábado da semana seguinte, a partir das 21:00. Um júri avalia coreografia, trajes, música e impressão geral. Em 2025, a vencedora foi a marcha “Setúbal das Salinas”, dedicada às salinas da cidade — página importante mas frequentemente esquecida da história local.
Marchas Infantis e Inclusivas
Para lá das coletividades adultas, o desfile inclui marchas infantis, bem como a Marcha de Honra da APPACDM — associação de apoio a pessoas com deficiência. Isto confere à festa carácter inclusivo: os Santos Populares são celebração para todos os residentes da cidade, independentemente da idade ou capacidade física.
A Noite de Santo António
Arraiais e Festividades Populares
Na noite de 13 de junho, Setúbal, como todo o Portugal, celebra o dia de Santo António. No Largo de Santo António e ruas circundantes, realizam-se arraiais — festividades populares com música, dança, comida de rua e decorações. As praças e vielas da cidade velha são decoradas com grinaldas, lanternas coloridas e bandeiras de papel.
Elementos tradicionais dos arraiais incluem:
- Sardinhas assadas no carvão — o cheiro das sardinhas grelhadas sobre brasas torna-se o aroma definidor de junho
- Bifanas — sandes de porco quentes com mostarda, companheira sempre presente das festas populares
- Caldo verde — sopa tradicional de couve
- Música e dança popular — bandas ao vivo tocam fado, marchas e música pop contemporânea
- Vasos de manjerico (manjericos) — símbolo dos Santos Populares, pequenos vasos de manjericão decorados com flores de papel e quadras
As celebrações continuam até à madrugada. Para muitos setubalenses, esta é uma das noites mais aguardadas do ano — momento em que a cidade inteira sai à rua.
Procissões Religiosas
Para lá das festividades seculares, realizam-se procissões religiosas em honra de Santo António. Uma procissão com a imagem do santo passa pelas ruas paroquiais, acompanhada por orações e cânticos. Em alguns anos, a procissão começa na Igreja de Santo António e passa pelos bairros centrais, embora o percurso exato possa variar.
São Pedro — Padroeiro dos Pescadores
Significado Especial para Setúbal
A festa de São Pedro (29 de junho) tem significado especial para Setúbal, indo para lá de feriado religioso comum. São Pedro é o santo padroeiro dos pescadores, e Setúbal permaneceu durante séculos um dos portos de pesca mais importantes de Portugal. A indústria piscatória — desde a captura de sardinha até às fábricas de conserva — definiu a economia e cultura da cidade desde o final do século XIX.
A veneração de São Pedro em Setúbal não é tradição religiosa abstrata, mas ligação viva com o mar. As famílias piscatórias, cujas muitas gerações navegaram para o estuário do Sado e o oceano aberto, recorriam ao santo para proteção contra tempestades e para captura abundante.
Tradições Festivas
As celebrações de São Pedro incluem:
- Missa pelos pescadores nas igrejas das freguesias costeiras
- Procissão marítima — algumas fontes mencionam tradição de procissão fluvial em honra de São Pedro, embora nos últimos anos a principal procissão aquática de Setúbal tenha estado associada a Nossa Senhora do Rosário de Tróia em agosto
- Festividades populares nas praças e ao longo da marginal
- Acontecimentos gastronómicos com ênfase em pratos de peixe
Assim, se Santo António abre as festividades de junho, São Pedro coroa-as — e para Setúbal, esta coroação carrega peso simbólico especial.
Gastronomia dos Santos Populares
A Sardinha — Rainha da Festa
É impossível imaginar os Santos Populares sem sardinhas assadas no carvão (sardinhas assadas). Junho é a época alta das sardinhas do Atlântico, e é precisamente quando o peixe atinge o seu teor máximo de gordura e sabor. Em Setúbal, cidade com séculos de tradição piscatória, a sardinha ocupa lugar de honra na mesa festiva.
O método de preparação tradicional é simples e permaneceu inalterado durante séculos: sardinhas frescas são polvilhadas com sal grosso e grelhadas sobre brasas quentes, viradas numa grelha dupla. São servidas numa fatia de pão (pão de broa), que absorve os sucos aromáticos. Esta mesma receita — Sardinha Assada — foi reconhecida como uma das “7 Maravilhas da Gastronomia Portuguesa” em 2011, com Lisboa e Setúbal destacadas como regiões particularmente associadas ao prato.
Outros Pratos Festivos
Para lá das sardinhas, os arraiais oferecem:
- Bifanas — porco marinado em alho e vinho branco, servido em pão estaladiço
- Farturas — rosquinhas espirais longas polvilhadas com açúcar e canela
- Febras — bifes de porco grelhados
- Tripas — crepes finos com recheio (não confundir com o prato de miúdos)
- Ginjinha — licor de ginja, servido em copinhos de chocolate
- Vinho popular (vinho) — vinho de mesa tinto e branco, frequentemente da região de Palmela
Significado Cultural
Identidade Através da Celebração
Os Santos Populares em Setúbal são mais do que acontecimento de entretenimento. As marchas populares encarnam o espírito da comunidade de bairro: cada quarteirão prepara-se durante meses, ensaiando coreografia e cosendo trajes. Os temas das marchas recorrem frequentemente à história local — pesca, salinas, fábricas de conserva, comércio marítimo. Assim a festa torna-se forma de memória coletiva, transmitindo de geração em geração o conhecimento do que a cidade viveu e continua a viver.
Função Social
Para muitos setubalenses, a preparação das marchas é oportunidade de socialização: reunir-se com vizinhos, criatividade coletiva e fortalecimento de laços no bairro. Numa era em que as formas tradicionais de interação de bairro estão a erodir-se, os Santos Populares preservam e cultivam estas ligações.
[FOLCLORE] Existe crença de que raparigas solteiras que deixem vaso de manjerico na janela na noite de Santo António e façam pedido encontrarão marido antes do final do ano. Esta tradição, embora não específica de Setúbal, é ativamente mantida na cidade.
Informação Prática
- Datas: Todo o mês de junho; datas-chave — 13, 24 e 29 de junho; desfile das marchas geralmente a 14 de junho
- Principais locais: Avenida Luísa Todi (desfile), Pavilhão das Manteigadas (competição), Largo de Santo António (arraiais), marginal e praças do centro histórico
- Entrada: Gratuita para todos os acontecimentos de rua
- Recomendações: Chegar à noite; trazer dinheiro para comida de rua; vestir roupa leve — as noites de junho em Setúbal são quentes
- Transporte: O centro da cidade é compacto; a maioria dos acontecimentos encontra-se a curta distância das praças centrais
Notas
[NÃO VERIFICADO] A data exata em que começou a tradição das marchas populares em Setúbal requer clarificação. Algumas fontes relacionam-na com iniciativas do Estado Novo para institucionalizar festas populares nos anos 1930–1940, embora desfiles espontâneos de rua em honra dos Santos Populares provavelmente existissem antes.
[DISPUTADO] Alguns autores notam que o formato moderno dos Santos Populares — com organização centralizada, programa competitivo e apoio municipal — difere significativamente das celebrações populares espontâneas originais, e que a institucionalização levou a certa padronização que afeta a espontaneidade da tradição. Outros investigadores, pelo contrário, acreditam que o apoio municipal assegurou a sobrevivência e desenvolvimento da tradição nas condições modernas.
Ver Também
- Cultura Piscatória de Setúbal
- Festas Religiosas de Setúbal
- Fado em Setúbal
- Sardinha: Rainha da Mesa de Setúbal
- Semana Gastronómica da Sardinha
- Luísa Todi – A Grande Cantora
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