Setúbal e a Época dos Descobrimentos
Nos séculos XV e XVI, Setúbal transformou-se de uma vila piscatória medieval num porto estratégico do Império Português. Do seu porto partiam expedições para África, a cidade serviu de residência real, e o seu sal abastecia as frotas pesqueiras de toda a Europa. O Mosteiro de Jesus — o primeiro edifício no estilo manuelino — tornou-se o símbolo arquitetónico da época.

Porto e Papel Naval
Uma Residência Real
Durante o reinado de D. João II (1481–1495), Setúbal serviu de residência real. Este facto atesta o considerável estatuto da cidade no final do século XV: não era apenas um porto piscatório, mas um dos centros políticos do reino.
Foi na corte em Setúbal que se tomaram decisões que moldaram o rumo das expedições ultramarinas portuguesas. A cidade ocupava uma posição conveniente — suficientemente próxima de Lisboa para manter contacto com a capital, mas dotada de um porto próprio e de uma baía abrigada na foz do rio Sado.
A Expedição de Afonso V a Marrocos (1458)
Um dos episódios mais notáveis da história naval de Setúbal foi a expedição de D. Afonso V para a conquista de Alcácer Ceguer, em Marrocos.
Data de partida: 1458, do porto de Setúbal.
Escala da expedição:
- 25 000–26 000 soldados (sem contar marinheiros e pessoal de apoio)
- Uma frota de 200–220 navios
Participantes:
- O Duque de Viseu, D. Fernando
- O Infante D. Henrique — o lendário organizador das expedições marítimas portuguesas, comandante da armada do Algarve
Após o sucesso da expedição, Afonso V adotou o título alargado de “Rei de Portugal e dos Algarves” (no plural, para incluir os novos territórios africanos).
O facto de uma frota de mais de duzentos navios ter podido ser reunida e despachada a partir do porto de Setúbal atesta a infraestrutura portuária bem desenvolvida da cidade.
A Missão de Vasco da Gama (1492)
Em 1492, D. João II enviou Vasco da Gama — o futuro descobridor da rota marítima para a Índia — ao porto de Setúbal e ao Algarve com ordens para apreender navios franceses. Tratava-se de uma medida de retaliação contra piratas e corsários franceses que vinham a atacar embarcações portuguesas em tempo de paz.
O episódio confirma a importância naval estratégica do porto de Setúbal e atesta indiretamente a sua integração no sistema defensivo da costa portuguesa.
O Comércio do Sal
O Ouro Branco de Setúbal
O sal de Setúbal foi uma das mais importantes mercadorias de exportação de Portugal nos séculos XV e XVI. As salinas nas margens do estuário do Sado eram exploradas por métodos artesanais, mas os mercadores controlavam o transporte e a distribuição, transformando o sal num empreendimento altamente lucrativo.
Destinos de Exportação
Os principais compradores do sal de Setúbal eram:
- Flandres e os Países Baixos — as suas frotas pesqueiras em rápida expansão necessitavam de mais sal para a cura do pescado do que as suas próprias salinas conseguiam produzir
- Inglaterra — a produção de sal inglesa tinha declinado no século XV devido à concorrência, aumentando a procura de importações
- O Norte da Europa em geral — o sal era reexportado juntamente com vinho, azeite e fruta
Sal e Peixe — Uma Parceria Eterna
O comércio do sal de Setúbal estava indissociavelmente ligado à pesca. A cidade ocupava uma posição singular: produzia simultaneamente sal e pescava, o que significava que podia curar e exportar produtos acabados. Esta dupla especialização — continuação de uma tradição que remonta à Cetóbriga romana — definiu a identidade económica de Setúbal até ao século XX.
O Mosteiro de Jesus — O Primeiro Edifício Manuelino
Fundação
O Mosteiro de Jesus (Convento de Jesus) é o principal monumento arquitetónico da Época dos Descobrimentos em Setúbal e um dos marcos fundadores da arquitetura portuguesa.
- Fundado: por volta de 1490
- Fundadora: a fidalga Justa Rodrigues Pereira, dama de companhia na corte
- Padroeiro: a partir de 1491, D. João II, que tomou a construção sob o seu patrocínio pessoal
- Arquiteto: Diogo de Boitaca, mestre construtor de provável origem francesa
- Período de construção: 1490–1510
Significado Arquitetónico
A igreja do Mosteiro de Jesus é o primeiro edifício conhecido a empregar elementos do estilo manuelino (Manuelino) — uma variante distintamente portuguesa do gótico tardio, nomeada em honra de D. Manuel I (1495–1521).
A característica mais marcante da igreja são as suas colunas torsas de brecha extraída das montanhas da Serra da Arrábida. Este motivo tornar-se-ia mais tarde numa marca do estilo manuelino, aparecendo em edifícios como a Sé da Guarda.
O estilo manuelino, no seu conjunto, captou o espírito da Época dos Descobrimentos: o seu vocabulário decorativo está saturado de simbologia marítima — cordas, âncoras, nós náuticos, ondas, plantas exóticas. O Mosteiro de Jesus em Setúbal foi o ponto de partida deste estilo singularmente português.
História Posterior
O mosteiro sofreu danos significativos no terramoto de 1755, mas foi cuidadosamente restaurado com máxima preservação dos seus detalhes manuelinos originais. Atualmente, o edifício alberga o Museu de Setúbal.
Crescimento e Prosperidade
O Florescimento do Século XVI
No século XVI, Setúbal viveu um período de crescimento vigoroso:
- A população aumentou à medida que mercadores e artesãos afluíam à cidade
- A infraestrutura portuária expandiu-se
- A cidade tornou-se um importante centro de comércio entre Portugal e o Norte da Europa
- A pesca e a produção de sal proporcionavam uma base económica estável
Não foram encontrados números precisos sobre a população de Setúbal no século XVI nas fontes disponíveis.
Viticultura
Durante este período, a viticultura começou a desenvolver-se na região de Setúbal, particularmente na zona de Azeitão, nas encostas da Serra da Arrábida. A tradição de produção do vinho Moscatel a partir da casta Moscatel data provavelmente do século XVI, embora já existissem vinhas na zona em épocas anteriores.
Forte de São Filipe
Construção

No final do século XVI, Setúbal adquiriu uma formidável fortificação que definiria a sua importância militar durante séculos:
- 1582 — lançamento da primeira pedra por ordem de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal), que assistiu pessoalmente à cerimónia
- Projeto: engenheiro militar italiano Giovan Giacomo Paleari Fratino (1583)
- Engenheiro-chefe: o italiano Filipe Terzi
- Construção: 1590–1600 (concluída por Leonardo Torreano após a morte de Terzi)
Arquitetura e Função
O Forte de São Filipe é uma fortaleza em estrela com seis baluartes, construída segundo os mais recentes princípios de engenharia de fortificação do século XVI. Controlava a foz do rio Sado e os acessos ao porto.
A sua construção serviu um duplo propósito:
- Defensivo — proteger um porto estratégico de inimigos externos
- Político — demonstrar a autoridade espanhola e controlar uma cidade cujos habitantes ofereciam considerável resistência ao domínio espanhol (durante a União Ibérica, 1580–1640)
No interior do forte encontra-se uma pequena capela barroca ornamentada com painéis de azulejo representando cenas da vida de São Filipe.
Bocage — O Poeta de Setúbal
Vida e Legado
Embora Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765–1805) tenha vivido após a Época dos Descobrimentos, a sua biografia é inseparável do património marítimo de Setúbal e merece menção no contexto da cidade enquanto porto de navegação.
- Nasceu em Setúbal a 15 de setembro de 1765
- Aos 14 anos, ingressou no 7.º Regimento de Infantaria, transferindo-se depois para a Marinha
- Viajou até ao Brasil e à Índia (Goa), e visitou Macau
- Escreveu sonetos satíricos sobre o “Declínio do Império Português na Ásia”
- É considerado o maior poeta neoclássico de Portugal
A memória de Bocage perdura em Setúbal: a sua estátua ergue-se na praça principal da cidade (inaugurada em 1871), e todos os anos, a 15 de setembro, celebram-se as Festas do Bocage — um festival em honra do poeta.
O Significado da Época para Setúbal
A Época dos Descobrimentos transformou Setúbal de um porto piscatório local numa cidade de importância imperial. Três pilares definiram o seu papel:
- O porto — ponto de partida de expedições, base naval, centro comercial
- O sal — a mercadoria de exportação que impulsionou a economia da cidade e a ligou ao Norte da Europa

- A cultura — o Mosteiro de Jesus como manifesto arquitetónico da época, o poeta Bocage como voz de uma nação marítima
A prosperidade não duraria para sempre: o terramoto de 1755 desferiu na cidade um golpe devastador, do qual demorou décadas a recuperar-se. Contudo, o modelo económico construído sobre o peixe e o sal revelou-se notavelmente resiliente, ressurgindo no século XIX sob a forma da indústria conserveira.
Datas-Chave
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1458 | Partida de Afonso V de Setúbal para a conquista de Marrocos |
| 1481–1495 | Setúbal serve de residência real de D. João II |
| ~1490 | Fundação do Mosteiro de Jesus |
| 1490–1510 | Construção da igreja do mosteiro (primeiro edifício manuelino) |
| 1492 | Missão de Vasco da Gama a Setúbal |
| 1514 | Segundo foral de Setúbal |
| 1582 | Lançamento da primeira pedra do Forte de São Filipe |
| 1590–1600 | Construção do Forte de São Filipe |
| 1765 | Nascimento do poeta Bocage em Setúbal |
Fontes das imagens
- discoveries-convento-jesus-exterior.webp — Mosteiro de Jesus — símbolo arquitetónico da Época dos Descobrimentos. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- discoveries-igreja-jesus-interior.webp — Interior do Mosteiro de Jesus com colunas torsas manuelinas. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- discoveries-igreja-jesus-altar.webp — Altar do Mosteiro de Jesus em estilo manuelino. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Ver também
- A Reconquista e o Período Medieval
- O Terramoto de 1755
- A Indústria Conserveira
- Mosteiro de Jesus
- Forte de São Filipe
- Parque Natural da Arrábida
- Moscatel de Setúbal
- Bocage — Poeta de Setúbal
- Festas do Bocage
- Cultura Piscatória
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