A Indústria Conserveira
Durante mais de um século — de meados do século XIX ao final do século XX — a indústria conserveira definiu a vida em Setúbal. Cerca de 400 fábricas, dezenas de milhares de trabalhadores, sirenes fabris que ditavam o ritmo da cidade — e a esmagadora maioria desses trabalhadores eram mulheres. A ascensão e o declínio da indústria conserveira da sardinha é uma história não apenas económica, mas também de direitos laborais, desigualdade de género e identidade urbana.

Origens
As Primeiras Fábricas
[DISPUTED] A data exata em que a produção conserveira teve início em Setúbal é matéria de debate:
- 1854 — esta data é citada pelo estudo académico “A Industria conserveira e a evolucao urbana de Setubal, 1854–1914” como o início da produção conserveira documentada na cidade
- 1880 — segundo outras fontes, a primeira fábrica conserveira propriamente dita foi fundada para compensar a escassez de peixe na costa da Bretanha, em França
A discrepância deve-se provavelmente à distinção entre a salga artesanal e a conserva industrial em recipientes de folha-de-flandres. A tradição de preparação de peixe em Setúbal remonta a dois milénios, à Cetobriga romana e às suas 182 cubas de salga. A conserva industrial — recorrendo a folha-de-flandres, ferros de soldar e autoclaves — teve efetivamente início na segunda metade do século XIX.
Para contextualizar: a mais antiga empresa conserveira portuguesa, a Ramirez, foi fundada logo em 1853, embora não em Setúbal, mas em Vila Nova de Gaia, no norte de Portugal.
Porquê Setúbal?
A cidade revelou-se um cenário ideal para a produção conserveira graças à convergência de vários fatores:
- Peixe — abundantes reservas de sardinha nas águas do estuário do Sado e na costa atlântica
- Sal — salinas centenárias nas margens do Sado
- Porto — infraestrutura portuária bem desenvolvida para a exportação de produtos acabados
- Mão de obra — uma população com laços profundos à pesca e à transformação do pescado
- Tradição histórica — mil anos de processamento de peixe, do garum ao peixe salgado
A Idade de Ouro
O Boom do Início do Século XX
O crescimento da indústria conserveira em Setúbal foi rápido:
- 1912 — Portugal tornou-se o maior produtor e exportador mundial de conservas de peixe
- Década de 1920 — um boom na produção de sardinha, com novas fábricas a surgir por toda a cidade
- 1925 — Portugal contava com aproximadamente 400 fábricas de conservas
- 1930 — Portugal ultrapassou a França, tornando-se o maior produtor mundial de sardinha em conserva
As Guerras Mundiais como Motor de Crescimento
A indústria atingiu o seu auge durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Os exércitos necessitavam de provisões compactas, calóricas e duradouras — e as sardinhas em azeite satisfaziam todos os requisitos.
Durante os anos de guerra, a indústria conserveira tornou-se o segundo maior setor da economia nacional portuguesa. O estatuto de neutralidade do país em ambos os conflitos permitiu-lhe abastecer os dois lados.
Setúbal — A Capital da Sardinha
Ao longo de pouco mais de um século, operaram em Setúbal aproximadamente 400 unidades de transformação de pescado — uma concentração sem precedentes para uma cidade da sua dimensão. As fábricas alinhavam-se ao longo da frente ribeirinha, criando uma paisagem industrial que definia a fisionomia da cidade.
A indústria conserveira era a maior fonte de emprego para a população local. Toda a vida económica e social de Setúbal girava em torno da sardinha.
Trabalho e Pessoas
A Divisão por Género
A indústria conserveira de Setúbal era marcada por uma rígida divisão do trabalho segundo o género:
Homens:
- Pesca — saída para o mar para a captura de sardinhas
- Soldadura e estanhagem das latas — uma operação tecnicamente exigente
Mulheres:
- Constituíam a esmagadora maioria das trabalhadoras fabris
- Embalamento manual do peixe nas latas — a operação central, que exigia destreza e rapidez
- Limpeza e preparação do peixe
- Embalagem do produto final
Crianças também trabalhavam nas fábricas, desempenhando tarefas auxiliares.
A Jornada de Trabalho: “De Sol a Sol”
Durante aproximadamente 70 anos, a jornada de trabalho nas fábricas de sardinha obedecia à fórmula “De Sol a Sol” — do nascer ao pôr do sol. A duração da jornada dependia da estação do ano e podia atingir 14 a 16 horas.
As pausas eram mínimas: dois períodos de descanso que totalizavam apenas 2 horas por dia.
O Sistema de Sirenes
Cada fábrica possuía a sua sirene personalizada, com um som distinto. Quando os barcos de pesca entregavam a captura, a fábrica fazia soar a sua sirene, e as operárias, ao reconhecerem “a sua”, corriam para os seus postos — fossem 3, 4 ou 5 horas da manhã.
As mulheres viviam num estado de permanente prontidão. O seu horário não era ditado pelo relógio, mas pelo peixe: quando as sardinhas chegavam, era hora da fábrica, independentemente da hora. Este sistema transformava as trabalhadoras num elemento totalmente dependente da fábrica — uma espécie de linha de montagem viva, ativada por um sinal sonoro.
Condições de Trabalho
O trabalho nas fábricas de conservas era extenuante:
- Trabalho em pé durante todo o turno
- O cheiro — um odor constante a peixe, azeite e suor
- Frio no inverno e calor no verão — oficinas sem aquecimento nem ventilação
- Salários baixos — especialmente para mulheres e crianças
- Ausência de proteções sociais — sem licença por doença, sem pensões, sem férias
À medida que o número de fábricas crescia, as condições não melhoravam — se algo mudava, era para pior: a concorrência entre empresas empurrava os custos para baixo, e as poupanças faziam-se à custa dos trabalhadores.
O Movimento Operário
Sindicatos
Com o desenvolvimento da indústria, os trabalhadores começaram a organizar-se em sindicatos. Setúbal, com a sua enorme concentração de operários industriais, tornou-se um dos centros do movimento operário em Portugal.
Os sindicatos lutavam por:
- Redução do horário de trabalho
- Melhoria das condições fabris
- Restrições ao trabalho infantil
- Aumento dos salários
- Direito ao descanso e a licença por doença
Greves
A agitação social do início do século XX irrompeu repetidamente em greves:
- 1934 — greves e manifestações em Setúbal no âmbito da greve geral portuguesa. A greve foi brutalmente reprimida pelo regime de Salazar.
- Confrontos recorrentes entre trabalhadores e a Guarda Nacional Republicana (GNR)
- Casos documentados de jovens trabalhadores mortos durante a dispersão de protestos
A instabilidade sociopolítica do início do século XX, manifestada em greves frequentes, enfraqueceu paradoxalmente a posição de Setúbal como centro industrial: alguns empresários preferiam instalar as suas operações em cidades menos “turbulentas”.
A Ligação à Revolução dos Cravos
As tradições laborais de Setúbal — a luta pelos direitos, a atividade sindical, a experiência de confronto com um regime autoritário — prepararam o terreno para a participação ativa da cidade na Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974. A classe operária de Setúbal, temperada por décadas de greves e repressão, estava entre as mais organizadas e mobilizadas do país.
Declínio
Cronologia da Crise

- 1938 — aproximadamente 152 fábricas de conservas em Portugal (início da consolidação)
- Década de 1970 — início de uma crise grave no setor
- 1983 — 152 fábricas em todo o país, a produzir cerca de 34 000 toneladas por ano
- Final da década de 1980 – década de 1990 — declínio catastrófico, encerramentos em massa
- Final da década de 1990 — o número de fábricas caiu de 152 para apenas 20 em todo o Portugal
Causas do Declínio
Vários fatores minaram simultaneamente a indústria:
-
Diminuição das reservas de sardinha — décadas de sobrepesca esgotaram as populações. As reservas de sardinha atlântica, outrora consideradas inesgotáveis, diminuíram para níveis críticos.
-
Concorrência — produtores de Marrocos, Tailândia e Peru entraram no mercado mundial com custos mais baixos.
-
Mudança nas preferências dos consumidores — as gerações do pós-guerra favoreciam produtos frescos e alimentos congelados pré-preparados.
-
Equipamento obsoleto — muitas fábricas operavam com maquinaria do início do século XX e não conseguiam competir com operações modernizadas.
-
Fuga de mão de obra — a melhoria do nível de vida e o alargamento das oportunidades de emprego fizeram com que a geração mais jovem não desejasse trabalhar “de Sol a Sol” em fábricas de peixe.
-
Adesão de Portugal à UE (1986) — a abertura do mercado intensificou a pressão concorrencial.
Consequências para Setúbal
O encerramento de centenas de fábricas constituiu uma catástrofe económica e social para a cidade:
- Desemprego em massa
- Empobrecimento de bairros inteiros
- Edifícios industriais abandonados ao longo da frente ribeirinha
- Perda da identidade profissional de gerações inteiras
O Que Sobrevive Hoje
O Museu do Trabalho Michel Giacometti
O Museu do Trabalho Michel Giacometti é o principal repositório da memória da era conserveira de Setúbal.
- Edifício: uma antiga fábrica de conservas, a fábrica Perienes (final do século XIX–1971)
- Homenageia: Michel Giacometti (1929–1990) — etnógrafo nascido na Córsega que dedicou a sua vida a documentar a cultura popular portuguesa
Exposição permanente: “A Indústria Conserveira — Da Lota à Lata” apresenta:
- Uma reconstituição do processo produtivo — da captura à embalagem
- Equipamento fabril autêntico
- Documentos sobre a luta pelos direitos laborais
- Materiais sobre a desigualdade de género na produção
- Peças dedicadas a jovens trabalhadores mortos pela GNR (Guarda Nacional Republicana) durante protestos
Em 1998, o museu recebeu o Prémio do Museu do Conselho da Europa — a mais alta distinção da comunidade museológica europeia.
Mercado do Livramento
O Mercado do Livramento — o mercado de peixe de Setúbal, considerado um dos melhores de Portugal — perpetua a tradição piscatória da cidade. Embora as fábricas tenham encerrado, o peixe continua a fazer parte da identidade de Setúbal.
O Renascimento das Conservas de Peixe
No século XXI, as conservas de peixe portuguesas conheceram um renascimento inesperado — já não como produto de consumo massificado, mas como produto de nicho de luxo. Latas com design de autor, produção artesanal, lojas para turistas (conserveiras) em Lisboa e no Porto — tudo isto representa a reinvenção de um património cujo centro foi outrora Setúbal.
Se subsistem operações de conserva ativas na própria Setúbal à data de redação deste artigo, tal não foi possível confirmar.
Perspetiva Histórica
A indústria conserveira de Setúbal é um elo de uma cadeia que se estende ao longo de dois milénios:
- Séculos I–VI — Cetobriga romana: 182 cubas, garum, ânforas que chegaram à Muralha de Adriano
- Idade Média — peixe salgado, comércio de sal com o norte da Europa

- Séculos XV–XVI — sal e peixe como base das exportações na Era dos Descobrimentos
- 1854–década de 1990 — a indústria conserveira: 400 fábricas, operárias, greves
- Século XXI — conservas artesanais, museus, mercado do peixe
O mesmo rio, o mesmo peixe, o mesmo sal. As tecnologias mudam — da cuba de salga à lata de conserva — mas a essência perdura: Setúbal é uma cidade que vive do que o Sado oferece.
Datas-Chave
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1854 | Primeiros registos documentados de produção conserveira |
| 1880 | Fundação da primeira fábrica conserveira de grande escala (segundo outras fontes) |
| 1912 | Portugal torna-se o maior produtor mundial de conservas de peixe |
| Década de 1920 | O boom da produção de sardinha |
| 1925 | ~400 fábricas de conservas em Portugal |
| 1930 | Portugal ultrapassa a França na produção de sardinha |
| 1934 | Greves em Setúbal durante a greve geral nacional |
| Década de 1970 | Início da crise da indústria |
| Década de 1990 | Declínio catastrófico, encerramento em massa de fábricas |
| 1998 | O Museu do Trabalho recebe o Prémio do Museu do Conselho da Europa |
Fontes das imagens
- canning-sardine-collection.webp — Coleção de latas de sardinha — um símbolo da indústria conserveira. Autor: Wikimedia Commons. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- canning-sardines-by-year.webp — Sardinhas por ano de colheita. Autor: PortoBay Hotels & Resorts. Licença: CC BY 2.0. Fonte
- canning-comur-conservatoria.webp — Comur Conservatória — uma fábrica de conservas histórica. Autor: Comur. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Ver também
- Cetobriga — Uma Cidade Romana
- Cultura Piscatória
- Estuário do Sado
- Setúbal e a Era dos Descobrimentos
- O Terramoto de 1755
- A Revolução dos Cravos
- Mercado do Livramento
- Choco Frito
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