Saltar para o conteúdo
Cetobriga — Uma Cidade Romana

Cetobriga — Uma Cidade Romana

Verificado

Cetobriga (latim: Cetobriga, também Caetobriga) foi um povoado romano nas margens do estuário do rio Sado, ativo entre os séculos I e VI d.C. Albergou o maior complexo conhecido de salga de peixe e produção de garum em todo o Império Romano. As ruínas encontram-se na Península de Tróia, diretamente em frente à atual cidade de Setúbal.

Ruínas do complexo romano de Cetobriga na Península de Tróia

Nome e Origens

O nome Cetobriga tem raízes protocélticas, derivando de *Caetobrix. O povoado foi originalmente fundado pelos Turdetanos — um povo que habitava o sudoeste da Península Ibérica — e passou posteriormente a estar sob controlo romano como parte da província da Lusitânia.

[DISPUTED] A relação precisa entre Cetobriga e as ruínas na Península de Tróia continua a ser objeto de debate académico. Alguns investigadores consideram que Cetobriga propriamente dita se situava no local da atual Setúbal, servindo o complexo de Tróia como seu anexo industrial. Outros identificam Cetobriga diretamente com o povoado em Tróia. Os humanistas quinhentistas Gaspar Barreiros e André de Resende, que primeiro descreveram as ruínas, poderão ter equiparado incorretamente todo o complexo a Cetobriga.

O nome moderno da cidade — Setúbal — deriva de Cetobriga através da forma árabe intermédia Shatubar (árabe andaluz: شَطُوبَر).

Cronologia

  • Século I d.C. — início da atividade industrial na Península de Tróia
  • Séculos II–III — período de produção máxima
  • Século IV — início do declínio
  • 412 d.C. — terramoto e tsunami presumivelmente devastadores
  • Séculos V–VI — abandono definitivo do complexo

Enquadramento Geográfico

O complexo arqueológico situa-se na margem esquerda do rio Sado, no lado noroeste da Península de Tróia, frente à atual Setúbal. Um local de produção adicional foi descoberto no Creiro, no Parque Natural da Arrábida, na margem direita do estuário.

A presença de instalações em ambas as margens do Sado constituiu uma escolha estratégica: o estuário proporcionava abundantes recursos piscícolas, enquanto os depósitos de sal ao longo das suas margens forneciam a matéria-prima para a salga.

Paisagem das ruínas de Cetobriga

O Complexo de Salga de Peixe

Escala de Produção

As ruínas de Tróia constituem o maior complexo conhecido de salga de peixe e produção de molhos de peixe do Império Romano. No auge da sua atividade, a produção estimada atingia 1,4 milhões de litros de produto por ano.

Cetariae — Tanques de Salga

Os arqueólogos puseram a descoberto 25 oficinas contendo um total de 182 tanques quadrangulares (cetariae). As oficinas variavam consideravelmente em dimensão:

  • A maior oficina cobria mais de 1 000 m² e continha 19 tanques
  • A menor abrangia 135 m² com 9 tanques

No local de produção do Creiro, foram encontrados 9 tanques, com larguras entre 1 e 2,6 m e profundidades entre 0,5 e 1 m. Todos os tanques eram revestidos com opus signinum — uma argamassa impermeável composta por gravilha, cal hidráulica e areia.

Garum e Outros Produtos

O garum era um molho de peixe fermentado e um dos condimentos mais apreciados na cozinha romana. Para além do garum, o complexo de Cetobriga produzia também outras variedades: liquamen, muria e hallec (ou allec) — cada uma distinta pela sua receita e pelas espécies de peixe utilizadas.

A principal matéria-prima era a sardinha europeia. Entre outras espécies processadas contavam-se o arenque, o esturjão, o besugo e a cavala-do-atlântico.

Ligações Comerciais

Ânforas com as marcas dos produtores de garum de Tróia foram encontradas nos confins mais distantes do império:

  • Na Muralha de Adriano, na Britânia
  • Na fronteira do Danúbio, na Áustria
  • Na cidade de Volubilis, em Marrocos

Cerca de 20 centros oleiros que produziam ânforas de transporte localizavam-se na margem oposta do rio. A identificação de ânforas lusitanas em naufrágios no Mediterrâneo confirma a plena integração desta região, aparentemente periférica, nas redes comerciais do império.

A produção de garum liga a Cetobriga romana à posterior indústria conserveira de Setúbal e à sua cultura piscatória — durante dois milénios, o rio Sado tem sustentado aqueles que vivem nas suas margens.

Outras Estruturas e Achados

Termas

Os arqueólogos puseram a descoberto um complexo termal com aproximadamente 450 m², que incluía:

  • Apodyterium (vestiário)
  • Frigidarium (sala de água fria)
  • Tepidarium (sala de água tépida)
  • Caldarium com sistema de aquecimento subterrâneo (hipocausto)
  • Piscinas de banho
  • Uma sala de exercícios

As termas demonstram que Cetobriga não era um mero local industrial, mas sim um povoado plenamente desenvolvido, dotado de infraestrutura urbana.

Edifícios Residenciais

Foram encontradas villae no interior do complexo — residências tanto para proprietários das fábricas como para trabalhadores. Os espaços habitacionais situavam-se junto às oficinas, uma disposição característica dos povoados industriais romanos.

Necrópoles e Mausoléu

Foram identificadas quatro zonas funerárias (necrópoles). Entre elas destaca-se um mausoléu com columbário — nichos nas paredes destinados a albergar as urnas dos cremados. A existência de múltiplas necrópoles confirma uma ocupação prolongada e contínua do local.

Estruturas Religiosas

O complexo revelou vestígios de diversas tradições religiosas:

  • Um relevo mitraico em mármore — encontrado no interior da basílica, atestando o culto pré-cristão de Mitra entre os trabalhadores e comerciantes do complexo
  • Uma basílica paleocristã — construída sobre uma oficina de salga abandonada, ilustrando de forma vívida a transição entre épocas
  • Sepulturas cristãs — datadas da segunda metade do século V

Foi igualmente descoberta uma rota aquaria — uma roda hidráulica utilizada para o abastecimento de água.

A Queda de Cetobriga

[DISPUTED] As circunstâncias do desaparecimento do povoado continuam a ser objeto de debate.

Segundo uma versão, a cidade portuária romana foi engolida pelo mar na sequência de um devastador terramoto e tsunami em 412 d.C.. Esta data surge em diversas fontes, embora nem todos os académicos a aceitem.

Segundo outra interpretação, o povoado entrou em declínio gradual em resultado das invasões de tribos germânicas (Suevos, Vândalos, Visigodos), que transformaram a paisagem política e económica da região nos séculos V e VI.

Com toda a probabilidade, ambos os fatores desempenharam um papel: a catástrofe de 412 causou danos severos ao povoado principal, mas a atividade continuou em escala reduzida durante mais um ou dois séculos, antes de cessar por completo no contexto do colapso mais amplo do sistema provincial romano.

O complexo de produção do Creiro foi abandonado um pouco mais cedo — entre o final do século IV e o início do século V.

O Que Sobrevive Hoje

O Parque Arqueológico de Tróia

As ruínas estão abertas a visitantes na Península de Tróia sob a designação Ruínas Romanas de Tróia. Figuram entre as principais atrações históricas e arqueológicas da região de Setúbal.

História das Escavações

  • Século XVI — primeiras descrições das ruínas pelos humanistas Gaspar Barreiros e André de Resende
  • 1948–1967 — primeiras escavações sistemáticas de grande envergadura
  • A partir de 2006 — retoma dos trabalhos arqueológicos (escavação e conservação)

As Ruínas do Creiro

Os tanques de salga de peixe do Creiro são acessíveis no interior do Parque Natural da Arrábida.

Cetariae — tanques de salga nas ruínas de Cetobriga

Significado

Cetobriga ocupa um lugar especial na história da região de Setúbal. Demonstra que uma economia fundada na pesca e na transformação de recursos marinhos se enraizou aqui muito antes dos períodos medieval e moderno. A produção de garum nas margens do Sado entre os séculos I e VI foi, em essência, a precursora da indústria conserveira de Setúbal nos séculos XIX e XX: o mesmo rio, o mesmo peixe, o mesmo sal — separados por um milénio e meio.

A dimensão do complexo — 182 tanques, 25 oficinas, 1,4 milhões de litros de produção anual — torna-o o maior centro de processamento de peixe conhecido do mundo antigo e um local fundamental para a compreensão da economia do Império Romano.

Fontes das imagens
  • cetobriga-ruins-troia.webp — Ruínas do complexo romano na Península de Tróia. Autor: Sanjorgepinho. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
  • cetobriga-ruins-landscape.webp — Paisagem das ruínas de Cetobriga. Autor: Roundtheworld. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
  • cetobriga-cetarias-salting.webp — Cetariae (tanques de salga) de Cetobriga. Autor: CorreiaPM. Licença: Domínio público. Fonte

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

Se este artigo foi útil — ajude-nos a escrever o próximo.

☕ Apoiar no Ko-fi