O Terramoto de 1755
Na manhã de 1 de novembro de 1755 — Dia de Todos os Santos, com os fiéis a encher as igrejas — um terramoto catastrófico atingiu o sudoeste de Portugal. Setúbal, situada a apenas 30 km a sul de Lisboa, sofreu perdas proporcionalmente mais pesadas do que a capital: aproximadamente 2.000 mortos, ou cerca de 17% da população da cidade.

Dimensão do Desastre
Dados Gerais
- Data: 1 de novembro de 1755, aproximadamente às 9h40 da manhã
- Dia: Dia de Todos os Santos — um dos dias santos mais importantes do calendário católico
- Magnitude: estimada em 8,5–9,0 na escala de Richter (avaliações modernas)
- Epicentro: o Oceano Atlântico, aproximadamente 200 km a sudoeste do Cabo de São Vicente
- Duração: vários abalos fortes ao longo de 6 a 10 minutos
Este terramoto continua a ser um dos mais poderosos da história europeia e o primeiro grande desastre natural a receber documentação científica detalhada.
Um Triplo Golpe
A catástrofe atingiu em três vagas:
- Terramoto — tremores devastadores danificaram edifícios e infraestruturas
- Tsunami — ondas poderosas desencadeadas pelo sismo submarino atingiram a costa
- Incêndios — em Lisboa, velas derrubadas em igrejas e habitações provocaram uma conflagração que durou vários dias
Impacto em Setúbal
Vítimas Mortais
- Aproximadamente 2.000 pessoas pereceram em Setúbal
- Este número representava cerca de 17% da população da cidade
[DISPUTADO] A título de comparação: Lisboa perdeu entre 10.000 e 30.000 pessoas (as estimativas variam), o que correspondia a 4–9% da população da capital. Assim, Setúbal sofreu proporcionalmente muito mais do que Lisboa. Contudo, os números exatos para ambas as cidades continuam a ser debatidos entre historiadores; as fontes primárias do século XVIII nem sempre são fiáveis a este respeito.
O Tsunami — O Principal Agente de Destruição
Ao contrário de Lisboa, onde o incêndio foi a principal causa de morte, em Setúbal o principal agente de destruição foi o tsunami.
Setúbal situa-se na margem norte do estuário do rio Sado, e a larga foz do rio funcionou como um funil, canalizando a energia do tsunami diretamente para a cidade. As ondas penetraram terra adentro, inundando os bairros ribeirinhos.
Segundo relatos contemporâneos, a água atingiu o primeiro andar dos edifícios na cidade. Para os bairros costeiros de baixa altitude de Setúbal, isto significou submersão total.
Ao longo da costa ocidental exposta de Portugal, as ondas do tsunami atingiram alturas de até 30 metros em alguns locais. No interior do estuário abrigado do Sado, as ondas foram mais baixas, mas a sua força destrutiva permaneceu enorme.
Destruição de Edifícios
Forte de São Filipe:
A formidável fortaleza, construída entre 1590 e 1600 segundo projetos de engenheiros italianos, sofreu danos significativos. Os seus bastiões em forma de estrela, concebidos para resistir a bombardeamentos de artilharia, revelaram-se vulneráveis a abalos sísmicos.
Mosteiro de Jesus:
O Mosteiro de Jesus — o primeiro exemplo do estilo Manuelino — sofreu danos graves. No entanto, foi posteriormente cuidadosamente restaurado com preservação máxima das suas características arquitetónicas originais, incluindo as célebres colunas espiraladas em brecha da Arrábida.
Igrejas:
O Dia de Todos os Santos era um dos dias festivos mais importantes do calendário litúrgico, e as igrejas de Setúbal encontravam-se repletas de fiéis no momento do primeiro tremor. O colapso dos edifícios religiosos foi quase certamente responsável por uma grande parte das vítimas mortais. As abóbadas e colunas de pedra, dimensionadas para cargas estáticas, não conseguiram resistir às forças horizontais do terramoto.
Não foi encontrado um inventário detalhado das igrejas e edifícios públicos destruídos em Setúbal nas fontes disponíveis.
Impacto no Estuário do Sado
O tsunami afetou toda a extensão do estuário do Sado, incluindo:
- Povoações costeiras em ambas as margens do rio
- Salinas situadas em terrenos de baixa altitude
- Embarcações de pesca e infraestruturas portuárias
- A Península de Troia, que se encontra defronte da cidade
[NÃO VERIFICADO] Tem sido sugerido que o tsunami de 1755 infligiu danos adicionais às ruínas romanas na Península de Troia, enterrando-as parcialmente sob areia e sedimentos. As ruínas, contudo, já se encontravam abandonadas há mais de mil anos nessa altura.
Diferenças em Relação a Lisboa
Setúbal e Lisboa sofreram o mesmo terramoto, mas a natureza da destruição diferiu de forma marcada:

| Fator | Lisboa | Setúbal |
|---|---|---|
| População | ~250.000 | ~12.000 |
| Vítimas mortais | 10.000–30.000 | ~2.000 |
| Proporção de mortos | 4–9% | ~17% |
| Principal causa de morte | Incêndios | Tsunami |
| Reconstrução | Reconstrução sistemática (Pombal) | Menos organizada |
Incêndio vs Tsunami
Em Lisboa, milhares de velas acesas nas igrejas no Dia de Todos os Santos foram derrubadas pelos tremores, desencadeando um incêndio que ardeu durante cinco ou seis dias e consumiu grande parte da cidade. As estreitas ruas medievais tornaram-se armadilhas mortais.
Em Setúbal, o incêndio não foi o principal fator de destruição. Em vez disso, a cidade — situada na margem de um amplo estuário — ficou indefesa perante o tsunami, que penetrou profundamente nos bairros ribeirinhos.
Reconstrução
Lisboa foi metodicamente reconstruída sob a direção do Marquês Sebastião José de Carvalho e Melo (Marquês de Pombal) — o ministro principal do rei D. José I. Pombal concebeu o célebre plano de reconstrução da Baixa Pombalina, caracterizado por:
- Uma malha ortogonal de ruas
- Edifícios no estilo pombalino — com uma estrutura em gaiola de madeira (gaiola pombalina) que conferia resistência sísmica
- Paredes corta-fogo entre edifícios
- Fachadas padronizadas
Não foi encontrado nas fontes disponíveis um plano de reconstrução sistemática comparável para Setúbal. A cidade parece ter recuperado de forma menos organizada e mais gradual. Isto explica em parte por que razão o traçado histórico de Setúbal mantém um carácter mais orgânico e irregular, em comparação com a malha geométrica da Lisboa pombalina.
Consequências a Longo Prazo
Impacto Económico
O terramoto desferiu um golpe pesado na economia de Setúbal:
- Infraestruturas portuárias foram danificadas, comprometendo temporariamente o comércio
- Salinas nas margens baixas do Sado foram devastadas pelo tsunami
- A frota pesqueira sofreu perdas
- Uma parte significativa da população comerciante e artesã pereceu
Choque Demográfico
A perda de 17% da população numa única manhã é uma catástrofe da qual uma cidade demora décadas a recuperar-se. O impacto sobre a população em idade ativa foi particularmente severo: muitos morreram nas igrejas, onde se haviam reunido para os ofícios do dia festivo.
Impacto Psicológico
O terramoto de 1755 não foi apenas uma catástrofe física, mas também intelectual para toda a Europa. Pôs em causa a filosofia otimista de Leibniz (“o melhor de todos os mundos possíveis”) e inspirou a célebre sátira Cândido, de Voltaire. Para os habitantes de Setúbal, que tinham perdido um em cada seis vizinhos, os debates filosóficos eram uma preocupação distante — estavam a reconstruir as suas casas, igrejas e meios de subsistência.
Memória do Desastre
Contextualização Histórica
O terramoto de 1755 ocupa um lugar singular na história de Setúbal. A cidade, que se encontrava em ascensão desde a Época dos Descobrimentos, foi atirada décadas atrás. Foi necessário quase um século para que Setúbal recuperasse o ímpeto económico — desta vez graças à indústria conserveira que surgiu na segunda metade do século XIX.

Risco Sísmico
A região de Setúbal permanece numa zona de atividade sísmica. A sua proximidade à fronteira entre as placas tectónicas africana e euro-asiática — a mesma força geológica que criou a serra da Arrábida — significa que o risco de terramotos poderosos persiste. Isto reflete-se nos códigos de construção modernos e no planeamento de proteção civil.
Vestígios no Tecido Urbano
[NÃO VERIFICADO] Alguns edifícios no centro histórico de Setúbal apresentam marcas de reconstrução do século XVIII — fachadas simplificadas, paredes reforçadas — típicas da arquitetura pós-terramoto. Contudo, ao contrário da Lisboa pombalina, estes vestígios não são tão sistemáticos nem tão facilmente identificáveis.
Factos Essenciais
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Data | 1 de novembro de 1755 |
| Magnitude | 8,5–9,0 |
| Vítimas mortais em Setúbal | ~2.000 |
| Proporção da população | ~17% |
| Principal fator de destruição | Tsunami |
| Monumentos danificados | Forte de São Filipe, Mosteiro de Jesus |
Fontes das imagens
- earthquake-1755-lisbon-engraving.webp — Gravura das consequências do terramoto de Lisboa de 1755. Autor: Desconhecido (século XVIII). Licença: Domínio público. Fonte
- earthquake-setubal-1669-before.webp — Panorama de Setúbal em 1669 — a cidade antes do terramoto. Autor: Desconhecido (século XVII). Licença: Domínio público. Fonte
- earthquake-1755-ruins-engraving.webp — Ruínas após o terramoto de 1755. Autor: Desconhecido (século XVIII). Licença: Domínio público. Fonte
Ver também
- Setúbal e a Época dos Descobrimentos
- A Indústria Conserveira
- Mosteiro de Jesus
- Forte de São Filipe
- Estuário do Sado
- Península de Troia
- Parque Natural da Arrábida
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