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O Terramoto de 1858

O Terramoto de 1858

Verificado

11 de novembro de 1858. A terra tremeu e, em poucos segundos, o bairro piscatório de Troino transformou-se em montes de pedra. Por toda a Setúbal, paredes desabaram e igrejas fissuraram. Mas desta catástrofe a cidade emergiu com casas novas — e em cada uma delas preservou-se um azulejo com inscrição que ainda hoje se pode ler: “Beneficência 11 de novembro de 1858.”

Setúbal por volta de 1860 — vista da cidade após a reconstrução

Enquadramento: Contexto Sísmico

Setúbal em Zona de Risco

Setúbal situa-se numa região sismicamente ativa — na junção das placas tectónicas Africana e Eurasiática. A proximidade à zona de falha que atravessa o Atlântico a sul de Portugal torna a cidade vulnerável a terramotos.

O mais destrutivo na história de Setúbal foi o terramoto de 1755 — catástrofe que destruiu Lisboa e infligiu danos severos ao sul de Portugal. Contudo, um século mais tarde, a cidade aguardava uma nova catástrofe, menos conhecida mas não menos significativa para a sua história.

Novembro — Mês Perigoso

É de notar que os dois maiores terramotos na história de Setúbal ocorreram em novembro: 1 de novembro de 1755 e 11 de novembro de 1858. Esta coincidência é, naturalmente, fortuita, mas ficou fixada na memória popular, conferindo a novembro uma reputação ominosa no folclore setubalense [FOLKLORE].

Terramoto de 11 de Novembro de 1858

Parâmetros

  • Data: 11 de novembro de 1858
  • Magnitude estimada: cerca de 7,1 na escala de Richter (segundo reavaliações modernas — M ~ 7)
  • Epicentro: no oceano Atlântico, aproximadamente 30 quilómetros a sul de Setúbal
  • Intensidade em Setúbal: VIII-IX na escala de Mercalli (de danos severos a catastróficos)
  • Sentido: em todo o Portugal e numa parte significativa da Península Ibérica

O estudo académico de 2021 (Pure and Applied Geophysics) procedeu a uma reavaliação dos parâmetros do terramoto, confirmando a sua magnitude significativa e o epicentro costeiro.

Escala da Destruição

O terramoto infligiu danos severos a Setúbal — registou-se destruição em praticamente todas as ruas da cidade:

  • Bairro de Troino — antigo bairro piscatório constituído por casas térreas degradadas, foi quase completamente destruído. Troino, já de si um bairro pobre, revelou-se o mais vulnerável devido aos solos fracos (depósitos aluviais junto ao estuário) e à baixa qualidade construtiva
  • Largo da Fonte Nova — a praça e os edifícios adjacentes sofreram danos graves
  • Igreja de São Julião — uma das igrejas mais antigas da cidade — ficou danificada: as paredes fissuraram e a estrutura enfraqueceu
  • Numerosos edifícios residenciais — por toda a cidade desabaram paredes, telhados e pavimentos

Vítimas

O número de mortos foi de pelo menos 6 pessoas (segundo algumas fontes — até 8). Tendo em conta a escala da destruição, este número pode parecer relativamente baixo. Possivelmente, tal explica-se pelo facto de muitos residentes se encontrarem ao ar livre no momento do tremor — em barcos de pesca, no porto, no mercado — e também por os tremores não terem sido instantâneos, dando às pessoas tempo para abandonar os edifícios.

Anomalias no Estuário do Sado

Os registos históricos documentam atividade anómala na foz do rio Sado após o terramoto. Foram notadas perturbações invulgares na água, semelhantes a tsunami, que conduziram ao alagamento de várias embarcações. O estudo académico de 2021 considera estas evidências como possível confirmação de um tsunami local causado por deslizamento submarino ou deslocamento tectónico.

Consequências para a População

Após o terramoto, uma parte significativa da população de Setúbal ficou sem abrigo. As pessoas cujas casas foram destruídas acamparam na praia, montando tendas. Foram também relatadas tentativas de pilhagem nos edifícios destruídos, que tiveram de ser reprimidas.

Reconstrução

Escala dos Trabalhos

A reconstrução de Setúbal após o terramoto de 1858 demorou mais de dois anos. Durante este período foram restaurados ou construídos de raiz 181 edifícios residenciais — uma parte significativa do parque habitacional da cidade.

Materiais do Convento de Palmela

[UNVERIFIED] Segundo a tradição local, para a reconstrução dos edifícios destruídos foram utilizados materiais de construção — pedra, tijolo, telhas — provenientes das estruturas semiarruinadas do Convento de Palmela (Convento de Palmela), antiga residência da Ordem de Santiago. O convento, danificado pelo terramoto de 1755, encontrava-se em meados do século XIX em estado de semiabandono. A utilização dos seus materiais para a restauração de Setúbal foi uma decisão pragmática: porquê extrair pedra nova quando nas proximidades se erguem ruínas repletas de material adequado?

Azulejo “Beneficência 11 de novembro de 1858”

O pormenor mais notável da reconstrução são os azulejos com a inscrição “Beneficência 11 de novembro de 1858” (Beneficência 11 de novembro de 1858), instalados em cada casa restaurada.

Estes azulejos tinham duplo significado:

  1. Marca de beneficência — a inscrição indicava que a casa fora restaurada com fundos de caridade, não com meios pessoais do proprietário. Era um testemunho de solidariedade pública — a ajuda que a cidade prestou às vítimas
  2. Memória histórica — os azulejos fixaram a data da catástrofe nas fachadas das casas, transformando cada edifício restaurado num memorial

Alguns destes azulejos sobrevivem nas fachadas de edifícios de Setúbal até aos dias de hoje e fazem parte da imagem histórica da cidade. São provas materiais da catástrofe e da restauração, legíveis pelos transeuntes mais de um século e meio depois.

Significado Científico

Reavaliação de 2021

O terramoto de 1858 permaneceu durante muito tempo pouco estudado, ofuscado pelo catastrófico terramoto de 1755. Contudo, em 2021, um grupo de cientistas publicou na revista Pure and Applied Geophysics o estudo “Reevaluation of the 11 November 1858 Earthquake and Tsunami in Setúbal: A Contribution to the Seismic and Tsunami Hazard Assessment in Southwest Iberia.”

O estudo:

  • Reavaliou a magnitude do terramoto utilizando métodos modernos
  • Analisou as evidências de tsunami na foz do Sado
  • Avaliou o risco sísmico para a região tendo em conta os dados sobre este evento
  • Demonstrou que o terramoto de 1858 é importante para a previsão de atividade sísmica futura

Estudos Sísmicos dos Solos

Investigações modernas (ScienceDirect, 2021) estudaram os efeitos de sítio sísmico na área de Setúbal utilizando o método ReMi (Refraction Microtremor). Os resultados confirmaram que certas zonas da cidade — especialmente aquelas com solos aluviais junto ao estuário (incluindo Troino) — amplificam as vibrações sísmicas, o que explica a destruição desproporcionadamente severa de 1858.

Comparação com o Terramoto de 1755

Característica 1755 1858
Magnitude ~8,5-9,0 ~7,0-7,1
Epicentro Atlântico, ao largo ~30 km de Setúbal
Escala Catastrófica (todo o Portugal) Regional (área de Setúbal)
Tsunami Destrutivo Local, no estuário
Vítimas em Setúbal Significativas 6-8 pessoas
Reconstrução Reconstrução pombalina Local, com beneficência

Paradoxalmente, para a própria Setúbal, o terramoto de 1858, apesar da menor magnitude, foi um desastre mais “pessoal”: o epicentro estava mais próximo, a destruição mais concentrada, e a restauração ficou inteiramente nas mãos da cidade e dos seus habitantes.

Legado

Paisagem Urbana

O terramoto de 1858 deixou um vestígio notável na paisagem urbana de Setúbal. Muitos edifícios no bairro de Troino e no centro da cidade datam da década de 1860 — são estruturas da reconstrução erguidas no local das destruídas. Os azulejos “Beneficência” nas fachadas — testemunhas silenciosas da catástrofe tecidas na aparência quotidiana da cidade.

Vulnerabilidade Sísmica

O terramoto de 1858 é um lembrete da vulnerabilidade sísmica de Setúbal. A cidade situa-se numa zona onde terramotos destrutivos ocorreram repetidamente (1755, 1858, tremores menos significativos no século XX), e a questão “quando será o próximo” permanece pertinente. Os estudos modernos de risco sísmico indicam diretamente a necessidade de considerar a experiência de 1858 no planeamento do desenvolvimento urbano e na preparação para emergências.

Memória Cultural

Na memória coletiva de Setúbal, o terramoto de 1858 ocupa um lugar especial — menos dramático do que a catástrofe de 1755, mas mais “próprio,” mais próximo. É um evento recordado não pelos manuais de história, mas pelas paredes das casas diante das quais os habitantes passam diariamente.

Fontes das imagens
  • setubal-1860.webp — Vista de Setúbal por volta de 1860, pouco após a reconstrução. Fonte: Wikimedia Commons.

Ver Também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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