O Estado Novo e Setúbal
Quarenta e um anos. De 1933 a 1974, Setúbal — cidade de pescadores, salineiros e operárias de fábrica — viveu sob a opressão de um regime que proclamava “Deus, Pátria e Família”, mas que na prática significava polícia secreta, censura, pobreza e silêncio. O Estado Novo não quebrou a cidade, mas deixou-lhe cicatrizes que não sararam até hoje.

Estado Novo: Contexto Geral
Estabelecimento do Regime
O Estado Novo foi o regime autoritário estabelecido em Portugal após o golpe militar de 1926 e constitucionalizado em 1933. O regime foi chefiado por António de Oliveira Salazar, que ocupou o cargo de Presidente do Conselho de Ministros de 1932 a 1968. Após o acidente vascular cerebral de Salazar em 1968, o poder passou para Marcelo Caetano, que deu continuidade às políticas do predecessor até à Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974.
Ideologia
O Estado Novo assentava na tríade “Deus, Pátria, Família” — uma ideologia conservadora-nacionalista que combinava elementos de corporativismo católico, nacionalismo português e gestão autoritária do Estado. O regime rejeitava tanto a democracia liberal como o comunismo e o socialismo, posicionando-se como uma “terceira via”.
Instrumentos de Controlo
O regime mantinha-se através de várias instituições-chave:
- PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) — polícia secreta responsável pelas repressões políticas, vigilância, detenções e tortura
- Censura — todos os meios de comunicação social eram submetidos a censura prévia
- Sindicatos Nacionais — “sindicatos” estatais que substituíam as organizações livres dos trabalhadores
- Legião Portuguesa — organização paramilitar de apoio ao regime
- PIDE-DGS — após 1969, a PIDE foi formalmente renomeada DGS (Direção-Geral de Segurança), mas a essência manteve-se inalterada
Setúbal sob o Estado Novo
A Importância Especial da Cidade para o Regime
Para o Estado Novo, Setúbal representava um duplo desafio:
- Económico — cidade com uma vasta base industrial (fábricas conserveiras, porto, estaleiros) e uma significativa classe operária, potencialmente inclinada a greves e agitação
- Político — cidade com uma longa tradição política de esquerda, onde os comunistas tinham raízes profundas desde a década de 1920
Estes dois fatores fizeram de Setúbal um objeto de atenção redobrada da PIDE e de um controlo particularmente severo.
A PIDE em Setúbal
A polícia secreta conduzia um trabalho sistemático em Setúbal para identificar e suprimir qualquer atividade oposicionista. Os métodos da PIDE incluíam:
- Vigilância de pessoas suspeitas — ativistas operários, intelectuais, antigos dirigentes sindicais
- Infiltração de informadores — nas fábricas, no porto, nos bairros piscatórios, nas tabernas
- Detenções e interrogatórios — frequentemente acompanhados de tortura (privação de sono, “estátua” — permanecer de pé durante horas, espancamentos)
- Detenções preventivas — prisão de pessoas suspeitas antes de feriados, eleições e aniversários do regime
[UNVERIFIED] Segundo veteranos do movimento operário, em Setúbal existia uma atmosfera de medo constante: qualquer vizinho, colega ou conhecido podia ser um informador da PIDE. A denúncia era encorajada e recompensada, destruindo os laços sociais e a confiança.
Movimento Operário sob a Ditadura
A Greve de 1934
O episódio mais dramático da resistência operária em Setúbal sob o Estado Novo foi a greve revolucionária de 18 de janeiro de 1934 — uma tentativa de greve geral contra o regime fascista.
Em Setúbal, a preparação da greve foi de grande envergadura: os organizadores planeavam paralisar as fábricas conserveiras, o porto e os transportes. No entanto, a PIDE descobriu a conspiração: no dia 15 de janeiro, foram encontradas 60 bombas artesanais na cidade e, na noite de 17 de janeiro — véspera do início — toda a organização citadina dos grevistas foi detida.
Apesar deste golpe, algumas ações de protesto em Setúbal chegaram a ter lugar, embora significativamente enfraquecidas em relação ao plano original.
As repressões após a greve foram severas:
- 696 detenções em todo o país
- Mais de 400 pessoas julgadas por tribunais militares especiais
- Penas de prisão pesadas e exílio para as colónias (nomeadamente a ilha do Tarrafal, em Cabo Verde)
- Despedimentos em massa de trabalhadores que participaram ou foram suspeitos de participação
Greves nas Conserveiras
Ao longo de todo o período do Estado Novo, as fábricas conserveiras de Setúbal permaneceram como foco de conflito laboral. As operárias conserveiras — mulheres que constituíam a esmagadora maioria da mão de obra — trabalhavam nas condições mais duras:
- Pagamento à peça — o salário dependia da quantidade de peixe processado
- Ausência de garantias sociais — sem férias pagas, baixa médica ou pensões
- Condições insalubres — trabalho com peixe em instalações mal ventiladas
- Sazonalidade — o trabalho dependia da captura; na época “morta”, as famílias passavam fome
Apesar da proibição de greves e do controlo estatal através dos sindicatos nacionais, protestos espontâneos eclodiam periodicamente nas fábricas — desde abrandamentos do ritmo de trabalho a paragens breves. Cada um destes protestos acarretava o risco de detenção e despedimento.
Importa recordar também uma tragédia anterior: em 1911, ainda sob a Primeira República, a Guarda Republicana matou duas operárias na Avenida Luísa Todi durante uma greve das conserveiras. Este episódio tornou-se parte da memória coletiva da classe operária setubalense e foi transmitido de geração em geração como recordação do preço da luta pelos direitos.
Consequências Sociais
Crise Habitacional: As Barracas
Uma das consequências sociais mais graves do Estado Novo em Setúbal foi a crise habitacional. O regime, que proclamava ideais de ordem e prosperidade, não conseguiu (ou não quis) proporcionar habitação digna à população trabalhadora das cidades industriais.
No momento da Revolução dos Cravos, em 1974, mais de 11 000 pessoas em Setúbal viviam em barracas — construções improvisadas de tábuas, lata e cartão, sem saneamento, abastecimento de água nem eletricidade. Eram verdadeiros bairros de lata — prova do fracasso do regime em resolver os problemas sociais mais elementares.
As barracas situavam-se nos arredores da cidade, em zonas impróprias para habitação normal: em encostas, em zonas inundáveis, junto a instalações industriais. Os seus habitantes — pescadores, operários fabris, migrantes de zonas rurais — eram invisíveis para a propaganda oficial, que retratava o Estado Novo como um “Estado de bem-estar”.
Pobreza e Desigualdade
Setúbal sob o Estado Novo era uma cidade de extrema desigualdade social:
- Os donos das fábricas e os comerciantes viviam com conforto, tirando partido da mão de obra barata e da ausência de legislação laboral
- Os operários sobreviviam no limiar da pobreza, privados do direito à greve, a sindicatos livres e a representação política
- Os filhos dos operários começavam frequentemente a trabalhar entre os 10 e os 12 anos, não completando a escolaridade
O regime sustentava este sistema de desigualdade com a ideologia corporativista: cada um devia “conhecer o seu lugar” na hierarquia social, e as tentativas de alterar a ordem eram classificadas como “atividade subversiva”.
Controlo Ideológico
Renomeação de Ruas
O Estado Novo utilizava a toponímia como instrumento de controlo ideológico. As ruas de Setúbal foram renomeadas de acordo com os valores do regime:
- Os nomes ligados à tradição republicana ou operária foram substituídos por nomes de “heróis” do regime, santos católicos ou designações neutras
- Praças e avenidas receberam nomes de figuras do Estado Novo e de “momentos gloriosos” da história portuguesa, na sua interpretação pelo regime
[UNVERIFIED] Após a Revolução dos Cravos, muitas ruas recuperaram os nomes anteriores ou receberam novos nomes que refletiam valores democráticos — nomes de lutadores contra a ditadura, datas de libertação e símbolos de liberdade.
Censura e Controlo da Informação
Toda a imprensa setubalense era submetida a censura prévia. Os jornais não podiam noticiar greves, detenções, condições de trabalho nas fábricas, pobreza ou quaisquer factos que ensombrassem o regime. As reuniões públicas exigiam autorização, e qualquer atividade não sancionada — desde a distribuição de panfletos a reuniões informais — podia ser classificada como crime.
Atividade Clandestina
Apesar das repressões, a atividade clandestina em Setúbal nunca cessou. O Partido Comunista Português (PCP) mantinha células ilegais nas fábricas, no porto e nos bairros piscatórios. O jornal clandestino “Avante!” era impresso em tipografias conspirativas e distribuído através de uma rede de estafetas.
O trabalho clandestino exigia uma disciplina extraordinária: as “casas clandestinas” mudavam regularmente, os contactos entre células eram mínimos e cada participante conhecia apenas a sua parte da rede. Ainda assim, a PIDE conseguia periodicamente desmantelar grupos clandestinos, desencadeando vagas de detenções.
A Setúbal Industrial no Estado Novo Tardio
A Setnave e a Industrialização dos Anos 1960-1970
Na última década do Estado Novo (anos 1960-1970), Setúbal conheceu uma nova vaga de industrialização. Na cidade foram construídos os estaleiros navais da Setnave — um grande empreendimento de construção naval — bem como as fábricas automóveis da Ford e da British Leyland. Estas empresas atraíram milhares de novos trabalhadores, reforçando o carácter industrial da cidade.
Contudo, a nova industrialização não resolveu os problemas sociais — antes os agravou: o crescimento populacional sem construção habitacional correspondente aumentou o número de barracas, e a concentração de trabalhadores em grandes empresas criou uma nova base para o movimento operário organizado.
Prenúncios da Revolução
No início da década de 1970, a tensão em Setúbal atingiu o limite. A guerra colonial em África (1961-1974), que esgotava o país, intensificou o descontentamento. Os jovens operários, menos intimidados do que os seus pais, estavam prontos para uma resistência mais ativa. Os estaleiros da Setnave e as fábricas automóveis tornaram-se centros de atividade sindical ilegal.
Quando, a 25 de abril de 1974, “Grândola, Vila Morena”, de José Afonso, soou na rádio — sinal para o início da Revolução dos Cravos — Setúbal estava pronta. Os trabalhadores saíram à rua, as comissões de luta assumiram o controlo das fábricas e 41 anos de silêncio e medo terminaram num só dia.
O Legado do Estado Novo em Setúbal
Legado Físico
- Barracas — embora a maioria dos bairros de lata tenha sido demolida após 1974, o problema habitacional levou décadas a resolver-se
- Edifícios industriais — fábricas, estaleiros e armazéns construídos sob o regime foram reconvertidos em espaços culturais e públicos (Museu do Trabalho, A Gráfica)
- Toponímia — parte das ruas conservou os nomes do período do Estado Novo, enquanto outras foram renomeadas
Legado Psicológico
[UNVERIFIED] Investigadores assinalam que o legado psicológico do Estado Novo em Setúbal se manifesta até aos dias de hoje: uma desconfiança profunda nas instituições do Estado, uma tendência para a auto-organização e uma atitude cautelosa perante quaisquer formas de poder autoritário. A memória coletiva das repressões, detenções e denúncias foi transmitida ao longo das gerações e molda a cultura política da cidade.
Memória e Compreensão
Setúbal trabalha ativamente na preservação da memória do período do Estado Novo:
- Museu do Trabalho Michel Giacometti — exposição dedicada às condições de trabalho sob a ditadura
- Decisões toponímicas — ruas com nomes de lutadores contra a ditadura
- Festival do 25 de Abril — celebração anual de grande escala do aniversário da Revolução dos Cravos
- História oral — gravações de memórias de veteranos do movimento operário e de presos políticos
Fontes das imagens
- estado-novo-salazar-1940.webp — António de Oliveira Salazar, cerca de 1940. Fonte: Wikimedia Commons.
Ver Também
- “Cidade Vermelha”: História Política de Setúbal — resistência clandestina e tradição política
- Revolução dos Cravos — fim do Estado Novo e início da democracia
- Indústria Conserveira — base económica sobre a qual se construiu o conflito social
- Governação Municipal de Setúbal — sistema político antes e depois da ditadura
- Museu do Trabalho Michel Giacometti — espaço de memória sobre a história operária
Todo o nosso conhecimento é gratuito. Criá-lo não é.
☕ Apoiar no Ko-fi