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O Foral de 1249 e a Ordem de Santiago

O Foral de 1249 e a Ordem de Santiago

Verificado
  1. O mestre da Ordem de Santiago, D. Paio Peres Correia, apõe o seu selo num pergaminho que mudará para sempre o destino de um pequeno povoado na margem do estuário do Sado. O foral — documento que concede direitos e privilégios urbanos — transforma uma aldeia de pescadores e salineiros numa entidade municipal de pleno direito, dando início à contagem dos mais de sete séculos de história municipal de Setúbal.

Cavaleiro da Ordem de Santiago

Contexto: Reconquista e a Ordem de Santiago

A Ordem de Santiago na Península Ibérica

A Ordem de Santiago (Ordem de Santiago da Espada) é uma ordem militar-monástica fundada em 1170 no Reino de Leão para combater os mouros na Península Ibérica. Em Portugal, a ordem recebeu vastas propriedades fundiárias como recompensa pela sua participação na Reconquista — a reconquista da Península Ibérica aos governantes muçulmanos.

Após a tomada do Castelo de Palmela aos mouros, a Ordem de Santiago passou a controlar extensos territórios a sul de Lisboa, incluindo a zona do estuário do Sado. Palmela tornou-se a sede da ordem em Portugal, e Setúbal — um dos povoados mais importantes na sua esfera de influência.

D. Paio Peres Correia

D. Paio Peres Correia (c. 1205-1275) foi um dos maiores comandantes militares da Reconquista, mestre da Ordem de Santiago a partir de 1242. Sob o seu comando, a ordem alcançou vitórias decisivas no Algarve e no Alentejo, completando a reconquista de parte significativa do sul de Portugal.

Foi D. Paio Peres Correia o autor do foral de 1249 que dotou Setúbal de direitos municipais. Este ato inscrevia-se na estratégia mais ampla da ordem de povoamento e desenvolvimento económico dos territórios reconquistados: o foral atraía colonos ao proporcionar-lhes garantias jurídicas e benefícios fiscais.

O Foral de 1249

Conteúdo e Significado

O foral de 1249 é o primeiro documento conhecido que estabelece juridicamente Setúbal como entidade municipal autónoma. O foral foi assinado pelo mestre D. Paio Peres Correia e pelo comendador de Mértola Gonçalo Peres.

O documento estabelecia:

  • Direitos e obrigações dos moradores — deveres fiscais, privilégios judiciais, condições de serviço militar
  • Limites territoriais do município
  • Condições económicas — direitos de pesca, produção de sal, comércio
  • Subordinação à Ordem de Santiago — Setúbal permanecia formalmente posse da ordem, não da coroa

Base Económica

Já no século XIII, a economia de Setúbal assentava em dois pilares que determinariam o seu desenvolvimento durante séculos:

  • Sal — as salinas nas margens do estuário do Sado existiam desde os tempos de Cetóbriga e proporcionavam à cidade uma receita estável. O sal de Setúbal era exportado para toda a Europa
  • Peixe — os abundantes cardumes de sardinha no estuário e nas águas atlânticas constituíam a base da economia alimentar. A salga e o comércio de peixe ligavam Setúbal aos mercados europeus

O foral de 1249 documentava esta realidade económica, regulando os direitos de extração e venda de sal e peixe.

Início da Vida Municipal

A concessão do foral significava o reconhecimento de que Setúbal possuía população e atividade económica suficientes para formar governo municipal. Antes de 1249, o povoado existia mas carecia de estatuto jurídico — os seus habitantes eram súbditos da ordem, sem autogoverno municipal próprio.

Após o foral, Setúbal obteve:

  • Governo municipal próprio — conselho
  • Autonomia judicial — direito a tribunal local
  • Certeza fiscal — obrigações fixas perante a ordem

Clarificação de Fronteiras de 1343

Em 1343, quase um século após o primeiro foral, surgiu a necessidade de clarificar os limites territoriais do município. O comendador D. Garcia Peres, agindo em nome do rei D. Afonso IV, procedeu à demarcação das fronteiras de Setúbal. Esta clarificação refletia o crescimento populacional e a atividade económica — à medida que a cidade se desenvolvia, os seus limites reais ultrapassavam os estabelecidos pelo foral de 1249.

Foral Novo de 1514

Contexto da Reforma

No início do século XVI, o rei D. Manuel I (1469-1521) realizou uma reforma em larga escala do sistema de forais de Portugal. Os antigos forais medievais, redigidos em condições e com formulações distintas, foram substituídos por “forais novos” (forais novos) uniformizados, trazidos a um padrão único e refletindo as realidades económicas alteradas.

Setúbal recebeu o seu Foral Novo em 1514. Este documento não é uma mera atualização técnica: regista o crescimento radical da importância da cidade ao longo de dois séculos e meio desde o primeiro foral.

Economia do Sal e da Sardinha

O Foral Novo de 1514 dedica especial atenção à economia do sal e da sardinha salgada — as duas mercadorias que asseguravam a prosperidade da cidade. O documento regula:

  • Ordem de extração e venda de sal — incluindo regras de exportação
  • Salga e comércio de peixe — especialmente a sardinha
  • Direitos portuários — impostos sobre a importação e exportação de mercadorias pelo porto de Setúbal
  • Direitos e obrigações dos comerciantes — regulação da atividade comercial

Merece destaque um registo de 1511 (três anos antes do novo foral): o rei D. Manuel I emitiu um decreto proibindo que os navios que chegavam a Setúbal para carregar sardinhas e peixe trouxessem o seu próprio sal para salga. Esta proibição protecionista sublinha a importância do sal local para a economia da cidade — o sal importado prejudicava o monopólio dos salineiros setubalenses.

Economia Portuária

No século XV, Setúbal tornou-se um dos portos mais importantes de Portugal. As receitas provenientes dos direitos portuários (direitos cobrados pela entrada no porto) eram consideráveis. Pelo porto de Setúbal exportavam-se sal, peixe salgado, vinho e outros produtos, enquanto se importavam cereais, tecidos e artigos de luxo.

O Foral Novo de 1514 reflete esta economia portuária, regulando detalhadamente as operações comerciais e as obrigações fiscais relacionadas com o comércio marítimo.

Caminho para o Estatuto de Cidade

Crescimento e Desenvolvimento (séculos XVI-XVIII)

Após o Foral Novo, Setúbal continuou a desenvolver-se apesar do catastrófico terramoto de 1755 e de outras calamidades. A cidade consolidou a sua posição como porto importante e centro da indústria salineira. Em meados do século XIX, a sua importância económica e demográfica ultrapassava há muito o estatuto formal de “vila”.

Estatuto de Cidade: 1860

Em junho de 1858, a Câmara Municipal de Setúbal submeteu uma representação ao rei D. Pedro V solicitando a elevação do estatuto do povoado. O pedido fundamentava-se na importância económica da cidade, na sua população e nos seus méritos históricos.

A 19 de abril de 1860, foi emitido o Decreto-Lei n.º 91, pelo qual o rei D. Pedro V elevou Setúbal à categoria de cidade. A execução do decreto foi confiada ao ministro António Maria de Fontes Pereira de Melo. O dia 19 de abril é celebrado como aniversário da cidade.

Assim, desde o primeiro foral de 1249 até à obtenção do estatuto de cidade, decorreram 611 anos — período durante o qual um pequeno povoado piscatório sob o domínio de uma ordem militar-monástica se transformou numa das cidades mais significativas de Portugal.

Incêndio do Arquivo de 1910

Um detalhe trágico na história dos forais de Setúbal é o incêndio do arquivo municipal na noite de 4 para 5 de outubro de 1910, coincidindo com a proclamação da República Portuguesa. Nessa noite, em que por todo o país ocorriam confrontos entre apoiantes da república e da monarquia, o edifício dos Paços do Concelho em Setúbal foi devorado pelas chamas.

O incêndio destruiu o arquivo municipal — o acervo documental acumulado desde 1249. A perda foi irreparável: forais medievais originais, atas de reuniões, registos fiscais, autos judiciais e muitos outros documentos que constituíam a memória institucional e histórica da cidade ao longo de seis séculos e meio pereceram.

A dimensão total da perda nunca foi avaliada: sobreviveram apenas apontamentos e excertos de investigadores que haviam trabalhado com o arquivo antes de 1910. Após o incêndio, o arquivo transferiu-se temporariamente para o Liceu Bocage, regressando à Praça do Bocage em 1938. As novas instalações do Arquivo Municipal de Setúbal foram inauguradas em 2021.

Legado

Significado Simbólico

O foral de 1249 é o ponto de partida da história municipal de Setúbal. Simboliza o momento em que um povoado sem nome na margem do Sado adquiriu personalidade jurídica, direitos e obrigações — tornou-se sujeito da história. Cada documento subsequente — a clarificação de fronteiras de 1343, o Foral Novo de 1514, o decreto de 1860 sobre o estatuto de cidade — foi uma superestrutura erguida sobre este alicerce.

Investigação Académica

Os forais de Setúbal são objeto de investigação académica ativa. Em 2015, a Câmara Municipal de Setúbal publicou a edição fundamental “Os Forais de Setúbal. 1249|1514”, reunindo transcrições de ambos os forais com comentário científico. A Universidade Nova de Lisboa (NOVA) realizou a investigação “Setúbal, um Pólo de Poder da Ordem Militar de Santiago no final da Idade Média”, analisando o papel de Setúbal como centro de poder da Ordem de Santiago.

Ligação à Atualidade

A Ordem de Santiago, que concedeu o primeiro foral, permanece presente no simbolismo de Setúbal. O Castelo de Palmela — antiga sede da ordem — continua a ser uma das principais atrações da região. A cruz da Ordem de Santiago — uma cruz vermelha em forma de espada — pode encontrar-se na heráldica municipal e em edifícios históricos.

Fontes das imagens
  • ordem-santiago-cavaleiro.webp — Cavaleiro da Ordem de Santiago. Fonte: Wikimedia Commons.

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