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O Mosaico Migratório de Setúbal

O Mosaico Migratório de Setúbal

Verificado

Ao longo dos séculos, o território do atual distrito de Setúbal recebeu pessoas das mais diversas origens — desde mouros e judeus medievais até expatriados e refugiados dos dias de hoje. Atualmente, aproximadamente 9% da população da cidade são cidadãos estrangeiros, e o município é membro da Rede Portuguesa de Cidades Interculturais.

Vagas históricas de migração

Herança mourisca e judaica (séculos VIII–XV)

O território do distrito de Setúbal esteve sob domínio muçulmano desde 711 até à Reconquista (a reconquista definitiva de Alcácer do Sal em 1217). O legado mourisco sobrevive na toponímia, nas tradições agrícolas e nos elementos arquitetónicos.

A Setúbal medieval possuía uma judiaria, conforme atestam os registos fiscais — a comunidade pagava tributos comparáveis aos de Santarém, Leiria e Coimbra. Em 1496, D. Manuel I ordenou a expulsão de todos os judeus e muçulmanos; o batismo forçado seguiu-se em 1497, pondo fim ao sistema das judiarias. [NÃO VERIFICADO] A localização precisa e a dimensão da judiaria medieval de Setúbal carecem de investigação arquivística aprofundada.

Época dos Descobrimentos (séculos XVI–XVIII)

Setúbal, com o seu porto natural de águas profundas, serviu como porto importante na rede comercial atlântica. Segundo os registos paroquiais de batismo do século XVI, entre 6% e 9% dos batizados em aldeias próximas de Setúbal eram pessoas de origem africana. A sua presença deixou uma marca duradoura na língua, na música e nas tradições populares da região.

Migração interna no século XIX

Com o crescimento da indústria conserveira na segunda metade do século XIX, milhares de trabalhadores migraram para Setúbal vindos do Alentejo e de outras províncias rurais. Homens, mulheres e crianças trabalhavam nas fábricas. Esta migração interna alterou profundamente o tecido social da cidade, moldando a classe operária que viria mais tarde a definir a identidade política de Setúbal.

Retornados (1974–1979)

Após a Revolução dos Cravos e a descolonização, entre 500 000 e 1 000 000 de pessoas regressaram a Portugal provenientes das colónias africanas. Enquanto centro industrial com um forte movimento operário, Setúbal recebeu uma parte significativa dos retornados. Consulte-se o artigo dedicado para mais pormenores.

Imigração africana (décadas de 1980–1990)

Os cabo-verdianos tornaram-se uma das maiores comunidades imigrantes de Portugal. A migração a partir do arquipélago havia começado já na década de 1960 (fugindo à seca e à fome) e intensificou-se após a independência de Cabo Verde em 1975. Aproximadamente 150 000 cabo-verdianos vivem em Portugal — a segunda maior diáspora a nível mundial. A maioria provém da ilha de Santiago.

A comunidade angolana começou a formar-se no final da década de 1980, no contexto da Guerra Civil Angolana e do crescimento económico de Portugal. O período mais intenso de migração foi a década de 1990. Os migrantes angolanos concentraram-se na Área Metropolitana de Lisboa, incluindo o distrito de Setúbal.

A vaga brasileira (década de 2000)

Os brasileiros constituem a maior comunidade estrangeira em Portugal: mais de 484 000 pessoas (31,4% de todos os residentes estrangeiros, dados de 2023). Os distritos de Lisboa e Setúbal, em conjunto, acolhem cerca de 54 000 brasileiros; só em Almada (distrito de Setúbal), mais de 3 000. Os migrantes brasileiros trabalham predominantemente no comércio, nos serviços e no setor cultural.

Novas comunidades (décadas de 2010–2020)

Os europeus de Leste (ucranianos, romenos, moldavos) encontram-se entre as principais nacionalidades imigrantes no distrito. Muitos trabalham na construção civil, na indústria e na agricultura. O serviço municipal SEI presta assistência em russo, entre outras línguas.

Desde 2022, mais de 60 000 refugiados ucranianos chegaram a Portugal, tendo uma parte significativa sido acolhida no distrito de Setúbal. Os ucranianos tornaram-se a segunda maior comunidade estrangeira do país.

Os trabalhadores sul-asiáticos (da Índia, do Nepal e do Bangladesh) constituem um grupo em rápido crescimento na década de 2020, empregados sobretudo na agricultura em estufas, na construção civil e nos serviços.

Os expatriados da Europa Ocidental escolhem Setúbal pela acessibilidade do imobiliário, pela proximidade a Lisboa, pela beleza natural da Arrábida e pelas infraestruturas de saúde bem desenvolvidas.

Demografia

População estrangeira por município (2022)

Município % estrangeiros N.º absoluto
Montijo 11,6% 6 663
Almada ~10,8%
Seixal 8,9%
Setúbal 8,9% 10 975
Moita 8,1% 5 432
Palmela 5,3% 3 789

Fonte: O Setubalense (2022).

Principais nacionalidades em Setúbal

Segundo o serviço municipal SEI, as principais nacionalidades são: brasileira, cabo-verdiana, angolana, romena, ucraniana e moldava.

Contributos culturais

Música

As comunidades imigrantes enriqueceram a vida cultural do distrito com novos géneros musicais:

  • Morna e funaná — música cabo-verdiana: da morna lírica e melancólica ao funaná enérgico movido a acordeão
  • Kuduro — género eletrónico angolano popular nos subúrbios da área metropolitana
  • Kizomba — género musical e de dança angolano que se integrou na cultura noturna portuguesa

Gastronomia

As influências multiculturais refletem-se na gastronomia local: a cachupa cabo-verdiana (um guisado de milho, feijão, carne e legumes), os pratos brasileiros e a cozinha angolana podem encontrar-se nos restaurantes e mercados do distrito.

Festivais

  • Maio — Diálogo Intercultural (maio–junho) — programa municipal anual de concertos, sessões de cinema, oficinas e exposições. O desfile “Mundos ao Largo”, no Largo da Ribeira Velha, reúne mais de 80 participantes em trajes nacionais
  • Festival Sabura (Sesimbra) — festival multicultural; a palavra sabura significa “momento de alegria” em crioulo cabo-verdiano; 6 palcos, mais de 100 artistas
  • Festival Internacional de Música de Setúbal — reúne músicos portugueses e internacionais com grupos amadores, incluindo associações de imigrantes

A comunidade cigana

Os ciganos (Roma) estão presentes em Portugal desde o século XV. A área metropolitana (Lisboa + Setúbal) alberga quase um terço de todos os ciganos do país (de um total estimado de 40 000–60 000). As ocupações tradicionais incluem o comércio em feiras, a criação de cavalos e o artesanato.

Em 2013, o governo adotou uma Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, abordando quatro áreas: saúde, educação, habitação e emprego. Os municípios do distrito desenvolveram os seus próprios planos locais de integração.

Infraestrutura de integração

SEI — Setúbal, Etnias e Imigração

Serviço municipal em funcionamento desde 2004 — um dos primeiros do género no país. Presta assistência na regularização documental, segurança social, saúde, educação, nacionalidade e questões consulares. Os serviços são prestados em português, russo e crioulo.

Morada: Edifício Sado, Rua Acácio Barradas, 27, Setúbal.

CLAIM

Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes (mais de 150 a nível nacional). Os gabinetes CLAIM no distrito de Setúbal funcionam nos municípios de Setúbal, Barreiro, Moita e outros.

Programa “Nosso Bairro, Nossa Cidade”

No bairro da Bela Vista (5 769 residentes), o município desenvolve um programa de integração social: reabilitação habitacional, melhorias nos espaços públicos e iniciativas educativas. O investimento proveniente do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) ascende a aproximadamente 40 milhões de euros.

Plano municipal de integração

O projeto “Setúbal, Território Intercultural” (2018–2020) proporcionou ~120 000 € de investimento (75% cofinanciado pelo FAMI) e estabeleceu uma plataforma de monitorização de instituições e associações a trabalhar na área das migrações.

Desafios

  • Habitação: vulnerabilidade social em determinados bairros; necessidade de programas de reabilitação em larga escala
  • Emprego: os imigrantes concentram-se frequentemente em setores mal remunerados; as barreiras linguísticas criam vulnerabilidade adicional
  • Educação: melhorar o acesso para os filhos de migrantes e das comunidades ciganas
  • Equilíbrio entre acolhimento e recursos: o número crescente de migrantes exige a ampliação dos serviços municipais de apoio

Mercado do Livramento — ponto de encontro de culturas e gastronomias

📷 Crédito da imagem

Foto: Guilherme Guimas / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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