O Período Mouro
O período mouro na história da região de Setúbal estende-se por mais de cinco séculos — desde a invasão árabe e berbere da Península Ibérica em 711 até à reconquista cristã definitiva do território no início do século XIII. A informação concreta sobre a própria cidade de Setúbal durante esta época é extremamente escassa; a maioria dos dados disponíveis diz respeito à fortaleza de Palmela e à região no seu conjunto.

Nota sobre a fiabilidade: Este artigo tem o estatuto de verified e um nível de confiança medium. Os factos gerais sobre o período mouro e o Castelo de Palmela foram confirmados através de múltiplas fontes. No entanto, a informação concreta sobre a própria cidade de Setúbal durante esta época permanece escassa. Sempre que possível, a incerteza é indicada por marcadores.
A Conquista
A Invasão de 711
Em 711, um exército de árabes omíadas e berberes sob o comando de Táriq ibn Ziyad atravessou o Estreito de Gibraltar e, no espaço de poucos anos, subjugou praticamente toda a Península Ibérica. Em 720, o território do Portugal atual encontrava-se totalmente ocupado. A região de Setúbal passou a integrar o al-Andalus — o vasto estado islâmico que abrangia a maior parte da Ibéria.
O Nome Árabe
Setúbal recebeu o nome árabe Shatubar (árabe andaluz: شَطُوبَر) — derivado do nome pré-romano mais antigo Caetobriga, transformado através de uma forma latina tardia. Este constituiu o elo intermediário entre a Cetobriga romana e o nome português moderno Setúbal.
A Fortaleza de Palmela
Uma Posição-Chave
A fortaleza de Palmela (Castelo de Palmela) foi a principal posição defensiva mourisca na região de Setúbal. Implantada num cume estratégico entre os rios Tejo e Sado, dominava toda a Península de Setúbal e os acessos ao estuário.
- Nome árabe: Balmala (ou Bal-mali)
- Tipo de fortificação: hisn — uma fortaleza de topo de colina, forma de fortificação característica da arquitetura militar mourisca
- Período de construção: as primeiras fortificações foram erguidas pelos mouros nos séculos VIII–IX
- A fortaleza permaneceu sob controlo mouro durante mais de 400 anos — até 1147
Vestígios Arquitetónicos
Elementos do período islâmico podem ainda distinguir-se nas muralhas e na planta do Castelo de Palmela:
- Arcos em ferradura — marca distintiva da arquitetura mourisca
- Uma planta de fortificação adaptada aos contornos da colina, seguindo os princípios da construção militar islâmica
- Fragmentos de muralhas em taipa — técnica construtiva típica das edificações mouriscas
[NÃO VERIFICADO] A extensão exata da alvenaria mourisca que subsiste nas atuais muralhas do Castelo de Palmela é difícil de determinar, uma vez que a fortaleza foi reconstruída várias vezes após a Reconquista, em particular pelos cavaleiros da Ordem de Santiago.
Estrutura Administrativa
A Região no al-Andalus
[NÃO VERIFICADO] Durante o período mouro, a região de Setúbal integrava uma cura (província administrativa) centrada presumivelmente em Lisboa (Al-Ushbuna). Todavia, a afiliação administrativa precisa do território alterou-se repetidamente ao longo de cinco séculos:
- Nos séculos VIII–X, a região pertencia ao Califado de Córdova
- Após o colapso do califado em 1031 — à taifa (reino islâmico menor) de Badajoz ou de Lisboa
- No século XII — sob o domínio dos Almorávidas, depois dos Almóadas
Sobre a Vila de Setúbal
[NÃO VERIFICADO] Praticamente nada se sabe sobre o povoado no local da atual Setúbal durante o período mouro. Permanece incerto se existia aqui um centro urbano significativo ou se a área era predominantemente rural, com aglomerados dispersos, aldeias piscatórias e salinas. A única certeza é que o nome Shatubar perdurou, o que atesta alguma forma de ocupação permanente.
Legado Cultural
Agricultura e Irrigação
Os mouros trouxeram tecnologias avançadas de irrigação para a Península Ibérica, incluindo:
- Sistemas de aquedutos e canais
- Noras (rodas de elevação de água)
- A prática de agricultura em socalcos nas encostas
Na região de Setúbal, as tradições agrícolas mouriscas manifestaram-se no cultivo de:
- Oliveiras — os olivais da Arrábida remontam provavelmente a este período
- Citrinos — laranjas e limões introduzidos pelos árabes
- Amêndoas — amplamente cultivadas no sul de Portugal
- Figos e romãs
[FOLCLORE] Segundo a tradição local, os célebres vinhedos da região — dos quais se viria mais tarde a produzir o vinho Moscatel — foram igualmente plantados pelos mouros, embora não exista evidência fiável que sustente esta afirmação.
Influência Linguística
O domínio mouro deixou uma marca profunda na língua portuguesa. Mais de 19 000 palavras e expressões portuguesas são de origem árabe. Entre as mais correntemente utilizadas:
Vocabulário quotidiano:
- alcachofra (alcachofra) — de al-kharshof
- alecrim (alecrim) — de al-iklil
- almofada (almofada) — de al-mukhadda
- azulejo (azulejo) — de az-zulayj
Topónimos:
- O prefixo al- (artigo definido) em nomes como: Alfarim, Almada, Alcácer
- O prefixo azeit- (de az-zayt, «azeite»): Azeitão — uma zona afamada pelo seu azeite e pelo seu queijo
Expressões correntes:
- «Oxalá» (queira Deus) — do árabe «inshallah»
Influência Arquitetónica
O legado arquitetónico mouro na região de Setúbal manifesta-se em:
- Padrões de mosaico em pavimentos e paredes
- Calçada — a tradição de ruas pavimentadas a pedra, que evoluiu a partir de precedentes mouriscos
- Traçado de ruas estreitas nos bairros antigos
- A utilização de azulejos (ladrilhos cerâmicos) — técnica introduzida pelos mouros que se tornou marca artística de Portugal
As Salinas
[NÃO VERIFICADO] A produção de sal nas margens do estuário do Sado, iniciada no período romano, continuou com toda a probabilidade sob o domínio mouro. A cultura árabe atribuía grande valor ao sal, tanto para fins culinários como de conservação. Contudo, não foi encontrada evidência concreta quanto à escala da produção de sal na Setúbal mourisca.
A Pesca
A pesca no estuário do Sado e nas águas costeiras prosseguiu indubitavelmente durante o período mouro. A tradição culinária árabe fazia uso extensivo de produtos do mar. Todavia, a informação sobre a escala e a organização da pesca durante esta época é extremamente limitada.

O Crepúsculo do Domínio Mouro
Os Primeiros Golpes da Reconquista
O enfraquecimento do controlo mouro sobre a região de Setúbal teve início em meados do século XII:
- 1147 — primeira tomada do Castelo de Palmela pelo rei D. Afonso Henriques (no mesmo ano da reconquista de Lisboa)
- 1147–1191 — o território mudou de mãos repetidamente; em 1186, D. Sancho I concedeu Palmela à Ordem de Santiago, mas em 1191 os Almóadas reconquistaram a fortaleza
- 1201 — D. Sancho I recuperou Palmela em definitivo; em 1205, o capítulo da Ordem de Santiago foi restabelecido no castelo
Para um relato pormenorizado destes acontecimentos, consultar A Reconquista e o Período Medieval.
O Último Bastião Mouro
Mesmo após a perda de Palmela, a presença mourisca na região persistiu. A fortaleza de Alcácer do Sal — uma importante praça-forte almóada a sul de Setúbal — permaneceu em mãos muçulmanas até 1217 e serviu de base para incursões regulares em território cristão. A sua queda é descrita no artigo A Reconquista e o Período Medieval.
O Que Sobrevive Hoje
Os vestígios materiais do período mouro na própria cidade de Setúbal são praticamente inexistentes. As principais evidências que subsistem incluem:
- Castelo de Palmela — elementos parcialmente preservados de alvenaria mourisca nas suas muralhas
- Topónimos de origem árabe na região (Azeitão, Alcácer, Almada)
- Herança linguística — milhares de palavras árabes no português quotidiano
- Tradições agrícolas — olivais, pomares de citrinos, sistemas de irrigação
Os cinco séculos de domínio mouro constituem o período mais longo e, simultaneamente, o menos documentado da história da região de Setúbal. Não se trata de uma página em branco, mas antes de um palimpsesto: os vestígios da presença mourisca transparecem na língua, na gastronomia, na arquitetura e na agricultura, mas os acontecimentos e as pessoas concretas permanecem quase inteiramente desconhecidos.
Fontes das imagens
Ver também
- Cetobriga — Uma Cidade Romana
- A Reconquista e o Período Medieval
- Queijo de Azeitão
- Moscatel de Setúbal
- Feira de Santiago
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