Governação Municipal de Setúbal
Da carta de foral medieval concedida pelos cavaleiros da Ordem de Santiago à moderna câmara democrática — a governação municipal de Setúbal percorreu um caminho de sete séculos e meio. Esta história reflete o destino do próprio Portugal: poder feudal, monarquia absoluta, república, ditadura, revolução e, finalmente, democracia.

Do Foral à Câmara Municipal
Autogoverno Medieval
A história municipal de Setúbal tem início com o foral de 1249, concedido pelo Mestre da Ordem de Santiago D. Paio Peres Correia. O foral estabeleceu formas primárias de autogoverno local — um conselho, dotado de poderes judiciais e administrativos dentro dos limites determinados pela ordem.
A governação municipal medieval em Portugal era oligárquica: o poder real pertencia a um círculo restrito de “homens-bons” — grandes proprietários de terras, mercadores e representantes da ordem. Os pescadores e salineiros comuns de Setúbal eram súbditos, não participantes na governação.
Época Moderna
Com o Foral Novo de 1514 e a crescente centralização do poder régio, a governação municipal de Setúbal foi-se integrando progressivamente no sistema nacional. A Câmara funcionava sob controlo da coroa, e posteriormente sob a supervisão de corregedores nomeados pelo governo central.
Nos séculos XVIII-XIX, a governação municipal portuguesa passou por uma série de reformas, expandindo gradualmente a representação e limitando o poder aristocrático. A elevação de Setúbal a cidade em 1860, sob o reinado de D. Pedro V, aumentou o peso administrativo do município.
Estrutura da Governação Moderna
Câmara Municipal
A Câmara Municipal de Setúbal é o órgão executivo da governação municipal. A Câmara é composta por um presidente (presidente da câmara, equivalente a um autarca) e vereadores. O presidente é eleito por voto direto dos residentes do município para um mandato de quatro anos.
As competências da Câmara Municipal incluem:
- Ordenamento do território — uso do solo, construção, transportes
- Serviços municipais — abastecimento de água, saneamento, recolha de resíduos
- Educação e cultura — escolas, bibliotecas, programas culturais
- Política social — programas de habitação, apoio a populações carenciadas
- Economia local — apoio a empresas, turismo, mercados
Assembleia Municipal
A Assembleia Municipal é o órgão deliberativo (legislativo) da governação municipal. A Assembleia aprova o orçamento, adota atos regulamentares e fiscaliza a atividade da Câmara Municipal. Os membros da Assembleia são igualmente eleitos por voto direto.
Juntas de Freguesia
Abaixo do nível municipal funcionam as freguesias — as unidades administrativas mínimas de Portugal, correspondendo aproximadamente a paróquias ou bairros. Cada freguesia possui a sua própria junta de freguesia, com competências limitadas em matéria de melhoramento local, registo civil e prestação de serviços primários à população.
Reforma Administrativa de 2013
Contexto
Em 2012-2013, Portugal realizou uma reforma administrativa das freguesias em larga escala, com o objetivo de otimizar a governação do Estado e reduzir despesas. A reforma foi formalizada pela Lei n.º 22/2012 (de 30 de maio) e pela Lei n.º 11-A/2013 (de 28 de janeiro).
Transformações em Setúbal
Antes da reforma, o município de Setúbal incluía 8 freguesias:
- São Julião
- Nossa Senhora da Anunciada
- Santa Maria da Graça
- São Lourenço
- São Simão
- São Sebastião
- Sado (Gâmbia)
- Gâmbia-Pontes-Alto da Guerra
Após a reforma, o número de freguesias diminuiu para 5:
- União das Freguesias de Setúbal (São Julião, Nossa Senhora da Anunciada e Santa Maria da Graça) — fusão de três freguesias centrais, com efeito após as eleições autárquicas de 29 de setembro de 2013. Trata-se da maior e mais populosa unidade, abrangendo o centro histórico da cidade
- Freguesia de Azeitão (fusão de São Lourenço e São Simão) — zona conhecida pela produção de queijo e vinho
- Freguesia de São Sebastião — mantida sem alterações
- Freguesia do Sado — mantida sem alterações
- Freguesia de Gâmbia-Pontes-Alto da Guerra — mantida sem alterações
Consequências da Reforma
A reforma provocou reações mistas. Os defensores apontavam a poupança de custos e o aumento da eficiência de gestão. Os críticos, incluindo uma parte significativa do espetro político local, assinalaram a perda de identidade histórica das freguesias individuais e o enfraquecimento da ligação entre os residentes e as autoridades locais.
No centro de Setúbal, a fusão de três freguesias antigas — cada uma com a sua própria história e identidade — foi especialmente dolorosa. A freguesia de São Julião, por exemplo, incluía historicamente o bairro de Troino e o bairro piscatório, Nossa Senhora da Anunciada — a zona comercial e de mercado, Santa Maria da Graça — a cidade alta com a igreja de Santa Maria da Graça.
Presidentes da Câmara Municipal
Era Democrática (após 1974)
Após a Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, a democracia foi restaurada em Portugal e as eleições autárquicas passaram a ser livres. Setúbal, desde as primeiras eleições, demonstrou a sua identidade política “vermelha”: a CDU (Coligação Democrática Unitária — coligação do Partido Comunista Português e do Partido Ecologista “Os Verdes”) venceu consistentemente as eleições autárquicas durante décadas.
Carlos Sousa (2001-2006)
[NÃO VERIFICADO] Carlos Sousa exerceu o cargo de presidente da Câmara Municipal de Setúbal de 2001 a 2006. O seu período de liderança coincidiu com a preparação e o início da reconstrução em larga escala da infraestrutura da cidade.
Maria das Dores Meira (2006-2021)
Maria das Dores Meira tornou-se presidente da Câmara Municipal em 2006 e ocupou este cargo até 2021 — durante 15 anos e vários ciclos eleitorais. Meira, representando a CDU, tornou-se uma das presidentes com maior longevidade na história do município.
O seu período de liderança ficou marcado por:
- Reconstrução do Fórum Luísa Todi (2009-2012) — o maior projeto cultural
- Desenvolvimento de programas de arte urbana — incluindo o lançamento do TAUS
- Melhoramento urbano — requalificação da frente ribeirinha, parques, espaços públicos
- Política social — programas de habitação, apoio a grupos vulneráveis
André Martins (desde 2021)
André Martins — sociólogo e político, atual presidente da Câmara Municipal de Setúbal desde 2021. Martins trabalhou longamente na estrutura municipal: de 2001 a 2017 exerceu o cargo de vereador — incluindo sob a presidência de Maria das Dores Meira (2007-2017).
A sua eleição em 2021 deu continuidade à tradição de esquerda na governação de Setúbal, embora o panorama político da cidade se tenha vindo a tornar gradualmente mais diversificado.
Cultura Política de Setúbal
CDU e Identidade “Vermelha”
A governação municipal de Setúbal não pode ser compreendida sem considerar a história política da cidade. Setúbal é um dos bastiões fundamentais da CDU (PCP + PEV) em Portugal. Os comunistas e os seus aliados controlaram o município durante a maior parte da era democrática.
Esta orientação política tem raízes profundas: o movimento operário na indústria conserveira, a tradição sindical, a atividade clandestina do PCP durante o Estado Novo — tudo isto formou uma cultura política em que os valores de esquerda — justiça social, direitos dos trabalhadores, propriedade pública — são percecionados como naturais e evidentes.
Participação Cidadã
A governação municipal de Setúbal distingue-se por um nível relativamente elevado de participação cívica. A Assembleia Municipal realiza regularmente sessões abertas, e o município apoia mecanismos de diálogo direto com os residentes — desde audiências públicas à participação em projetos culturais (como no caso do TAUS).
Desafios do Século XXI
A governação municipal moderna de Setúbal enfrenta uma série de desafios:
- Pressão demográfica — crescimento populacional nas zonas suburbanas com estagnação ou declínio no centro histórico
- Transformação económica — transição de uma economia industrial para uma economia de serviços, desenvolvimento do turismo
- Crise habitacional — aumento dos preços do imobiliário, intensificado pela proximidade a Lisboa
- Questões ambientais — proteção do estuário do Sado e da Serra da Arrábida face à pressão antropogénica
- Descentralização — transferência de competências do governo central para os municípios, exigindo novos recursos e capacidades
Estes desafios requerem adaptação e inovação na governação municipal, preservando simultaneamente as tradições de orientação social e participação cívica características de Setúbal.
Fontes das imagens
- camara-municipal-setubal.webp — Edifício da Câmara Municipal de Setúbal. Fonte: Wikimedia Commons.
Ver Também
- Foral de 1249 e a Ordem de Santiago — origens da governação municipal
- “Cidade Vermelha”: História Política de Setúbal — contexto político do poder municipal
- Revolução dos Cravos — início da era democrática
- Setúbal Moderna — contexto geral de desenvolvimento
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