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A Reconquista e o Período Medieval

A Reconquista e o Período Medieval

Verificado

O período entre meados do século XII e meados do século XV assistiu ao nascimento de Setúbal como cidade cristã. A reconquista do Castelo de Palmela aos mouros (1147–1186), a tomada de Alcácer do Sal (1217) e a concessão de um foral pela Ordem de Santiago (1249) — estes acontecimentos moldaram o destino da cidade nos séculos vindouros.

Castelo de Palmela — uma fortaleza-chave da era da Reconquista

O Início da Reconquista na Região

Contexto: O Nascimento de Portugal

A Reconquista portuguesa — a reconquista do território aos mouros — desenrolou-se a par da formação do próprio Estado português. Em 1139, Afonso Henriques proclamou-se Rei de Portugal e, em 1143, o seu título foi reconhecido por Castela. O Papa Alexandre III confirmou o seu estatuto real com a bula Manifestis Probatum em 1179.

1147 — O Ponto de Viragem

O ano de 1147 revelou-se decisivo para toda a região a sul do Tejo. Nesse ano deu-se a reconquista de:

  • Santarém — uma cidade estrategicamente vital no Tejo
  • Lisboa — após o célebre cerco com o auxílio de cruzados
  • Sintra e Almada — nas proximidades de Lisboa
  • Palmela — a principal fortaleza mourisca na região de Setúbal

O primeiro rei de Portugal, Afonso Henriques, tomou o Castelo de Palmela neste ano de grandes vitórias. Contudo, o triunfo revelar-se-ia efémero.

A Luta por Palmela

Um Vaivém de Guerra (1147–1186)

Após a primeira conquista em 1147, o Castelo de Palmela mudou de mãos repetidamente:

  • 1147 — primeira conquista por Afonso Henriques
  • 1148–1165 — os mouros reconquistaram a fortaleza em várias ocasiões; o território permaneceu disputado
  • 1165 — início de um período mais estável de domínio cristão, embora as incursões mouriscas continuassem
  • 1186 — o Rei Sancho I assegurou definitivamente a autoridade cristã sobre Palmela

Duas décadas de conquistas e contra-ataques alternados explicam-se pela posição geográfica da fortaleza: situava-se no limite extremo do território cristão, com vastas terras controladas pelos Almóadas a estenderem-se para sul.

Importância Estratégica

Palmela ocupava uma posição de colina dominante entre os rios Tejo e Sado. O seu controlo significava o domínio sobre toda a Península de Setúbal — a rota marítima para o estuário do Sado, as salinas e os pesqueiros.

O Cerco de Alcácer do Sal (1217)

Antecedentes

Muralhas medievais do Castelo de Palmela

Alcácer do Sal (nome árabe: Qasr Abi Danis) era uma poderosa fortaleza no rio Sado, situada a aproximadamente 60 km a sudeste de Setúbal. Mesmo após a perda de Palmela, os mouros mantiveram Alcácer, transformando-a numa base para incursões regulares em território cristão.

A Diocese de Lisboa sofria particularmente com estas incursões. O seu bispo, Soeiro II, tornou-se um dos principais defensores de uma campanha militar contra Alcácer.

As Forças Sitiantes

O cerco de Alcácer do Sal constitui um exemplo de uma empresa militar internacional de grande envergadura:

Forças portuguesas:

  • O exército do Rei Afonso II
  • Cavaleiros da Ordem de Santiago sob o comando de Martim Pais Barregão
  • Cavaleiros Templários
  • Hospitalários

Cruzados estrangeiros:

  • Renanos e frísios da frota da Quinta Cruzada
  • Uma frota de cerca de 300 navios sob o comando do Conde Guilherme I da Holanda
  • A frota partira de Vlaardingen (Países Baixos) a 29 de maio de 1217

Os cruzados dirigiam-se à Terra Santa, mas — tal como os seus predecessores sob as muralhas de Lisboa em 1147 — concordaram em auxiliar o rei português pelo caminho.

O Desenrolar do Cerco

30 de julho de 1217 — teve início o cerco de Alcácer do Sal.

Os sitiantes empregaram todo o arsenal da guerra de cerco medieval:

  • Minas — túneis escavados sob as muralhas da fortaleza
  • Aríetes — para arrombar portões e muralhas
  • Trabucos — catapultas de bombardeamento
  • Torres de cerco — para escalar as muralhas

A Batalha de Ribeira de Sitimus

11 de setembro de 1217 — o momento decisivo do cerco.

O Califado Almóada reuniu um exército de socorro a partir das guarnições de Jaén, Córdova, Sevilha e Badajoz. A força muçulmana avançou sobre Alcácer para levantar o cerco.

Na Batalha de Ribeira de Sitimus, as forças cristãs combinadas derrotaram o exército de socorro. Segundo fontes árabes, os soldados almóadas debandaram — uma das razões apontadas foi a memória desmoralizadora da sua derrota catastrófica em Las Navas de Tolosa (1212), infligida por uma coligação de reinos cristãos ibéricos.

A Queda da Fortaleza

18 de outubro de 1217 — a cidade rendeu-se após um cerco de quase três meses.

O governador de Alcácer, Abdallah ibn Wazir, aceitou o batismo — um ato simbólico de capitulação. A cidade e a fortaleza foram entregues à Ordem de Santiago.

A conquista de Alcácer do Sal tornou-se o único ganho territorial permanente da Quinta Cruzada — uma ironia do destino, dado que o objetivo da Cruzada era a Terra Santa e não a Península Ibérica.

A Ordem de Santiago e Setúbal

A Ordem em Portugal

A Ordem de Santiago (Ordem Militar de Santiago da Espada), uma ordem militar-religiosa, estabeleceu-se em Portugal por volta de 1172, sob o reinado de Afonso I. Originalmente parte do ramo castelhano, a Ordem adquiriu gradualmente uma autonomia considerável em Portugal.

Em 1186, sob Sancho I, a Ordem foi incumbida dos castelos de:

  • Alcácer do Sal
  • Almada
  • Palmela

Sede em Palmela

Por volta de 1210–1212, a Ordem de Santiago estabeleceu a sua sede em Palmela. Esta decisão moldou o carácter e o destino de toda a região:

  • 1443 — o Rei D. João I ordenou a construção de um convento (mosteiro) em Palmela, que se tornou a sede oficial da Ordem
  • 1483 — a Igreja de Santiago foi construída no interior do Castelo de Palmela, em estilo gótico tardio
  • A Ordem governou a região até à extinção das ordens religiosas em 1834

A memória da Ordem de Santiago perdura na Feira de Santiago, realizada anualmente em Setúbal desde o século XVIII.

O Foral de Setúbal

1249 — a Ordem de Santiago concedeu a Setúbal o seu foral — uma carta municipal — durante o reinado do Rei Afonso III. O foral estabelecia:

  • Os direitos e as obrigações dos habitantes
  • O regime fiscal
  • Os privilégios da cidade
  • As bases da autogovernação

Este acontecimento pode considerar-se o nascimento formal de Setúbal como cidade. Antes do foral, Setúbal era um povoado piscatório sem estatuto jurídico; depois, era um município autónomo com direitos próprios.

1514 — Setúbal recebeu um segundo foral, concedido diretamente pela Coroa (sob o reinado de D. Manuel I), refletindo a crescente importância da cidade.

A Economia Medieval

Pesca

A atividade piscatória manteve-se como a base económica da região, dando continuidade a uma tradição que remontava à Cetobriga romana. As águas do estuário do Sado e da costa atlântica proporcionavam capturas abundantes de sardinha e outros peixes.

Produção de Sal

O sal era extraído das margens do rio Sado por métodos artesanais em salinas. As marinhas de sal, que existiam aqui desde a época romana, adquiriram especial importância no período medieval como fonte de receita para a Ordem de Santiago e para a Coroa.

Os Primórdios da Fortificação Costeira

No século XIV, iniciou-se a construção de defesas costeiras para proteção contra piratas e frotas hostis:

  • Forte de Santiago do Outão (Forte de Santiago do Outão) — uma fortificação ao nível do mar na foz do estuário do Sado, a controlar o acesso ao rio e ao porto de Setúbal
  • Torres de vigia costeiras

O Legado da Reconquista

A Reconquista e o período medieval lançaram os alicerces sobre os quais Setúbal se tornou uma cidade de relevo:

  1. Posição geopolítica — de posto avançado fronteiriço a porto seguro na retaguarda
  2. Enquadramento institucional — o foral de 1249, a autogovernação municipal

Alcácer do Sal — a fortaleza mourisca conquistada em 1217

  1. Patrocínio militar-monástico — a Ordem de Santiago assegurou a segurança e o desenvolvimento
  2. Base económica — pesca, sal, comércio

Foi sobre esta base que Setúbal floresceu durante a Época dos Descobrimentos, quando o seu porto se tornou um dos pontos de partida para expedições até aos confins do mundo conhecido.

Datas-Chave

Data Acontecimento
1147 Primeira conquista de Palmela por Afonso Henriques
1165 Estabelecimento de um domínio cristão relativamente estável
1172 Estabelecimento da Ordem de Santiago em Portugal
1186 Consolidação definitiva de Palmela (Sancho I)
1210–1212 Palmela torna-se a sede da Ordem de Santiago
1217 Cerco e conquista de Alcácer do Sal
1249 Foral de Setúbal concedido pela Ordem de Santiago
1443 Construção do convento da Ordem em Palmela
1483 Construção da Igreja de Santiago no Castelo de Palmela
1514 Segundo foral de Setúbal, concedido pela Coroa
Fontes das imagens
  • reconquista-palmela-castle.webp — Castelo de Palmela — uma fortaleza-chave da era da Reconquista. Autor: GualdimG. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
  • reconquista-palmela-medieval-walls.webp — Muralhas medievais do Castelo de Palmela. Autor: GualdimG. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
  • reconquista-alcacer-do-sal.webp — Alcácer do Sal — a fortaleza mourisca conquistada em 1217. Autor: Vitor Oliveira. Licença: CC BY-SA 2.0. Fonte

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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