Saltar para o conteúdo
"Cidade Vermelha": História Política de Setúbal

"Cidade Vermelha": História Política de Setúbal

Verificado

Quando em todo o Portugal a cor vermelha era associada a perigo, detenção e prisão, em Setúbal significava outra coisa — solidariedade, resistência e esperança. “Cidade vermelha” — assim chamavam Setúbal amigos e inimigos, e este título não oficial a cidade carregou ao longo de um século de ditadura, revolução e democracia.

Manifestação do PCP após a Revolução dos Cravos, 25 de Abril

Raízes: Cidade Operária

Base Industrial

A história política de Setúbal é inseparável da sua história económica: tratava-se de uma cidade operária — cidade de fábricas conserveiras, salinas, trabalhadores portuários e pescadores. No início do século XX, centenas de fábricas setubalenses empregavam milhares de trabalhadores — predominantemente mulheres (conserveiras) — a receberem salários miseráveis em condições desprovidas de qualquer proteção legal.

Esta concentração de proletariado industrial criou terreno fértil para o movimento operário, a organização sindical e a política de esquerda. Setúbal era uma das poucas cidades portuguesas onde a luta de classes tinha fundamento material — não ideias abstratas, mas a experiência quotidiana da exploração.

Primeiras Organizações Operárias

Ainda antes do surgimento do Partido Comunista Português (PCP), organizações operárias anarco-sindicalistas já operavam em Setúbal. Os sindicatos de pescadores, conserveiras e trabalhadores portuários estavam entre os mais ativos do país. Em 1911, a Guarda Republicana matou duas operárias na Avenida Luísa Todi durante uma greve das conserveiras — este episódio tornou-se num dos primeiros exemplos de confronto entre o movimento operário e o Estado em Setúbal.

Os Primeiros Comunistas (1920-1921)

O Grupo Comunista em Setúbal

Em maio de 1920, foi formado em Setúbal um Grupo Comunista — um dos primeiros em Portugal. O grupo organizou uma homenagem ao operário Bruno Palhares, incluindo uma palestra sobre questões sociais e uma representação teatral baseada na obra de Máximo Gorki.

Este evento precedeu a fundação formal do Partido Comunista Português: em novembro de 1920, começaram a realizar-se reuniões em sedes sindicais para criar a vanguarda revolucionária da classe operária e, em dezembro, foi formada uma Comissão Organizadora. A 6 de março de 1921, o PCP foi oficialmente fundado.

José Carlos Rates — De Conserveiro a Secretário-Geral

A contribuição mais significativa de Setúbal para a história inicial do PCP foi José Carlos Rates — operário numa fábrica conserveira setubalense, eleito Secretário-Geral do PCP em 1923.

Rates é uma figura ambígua. Enquanto líder do PCP, prosseguiu uma linha de aproximação com os sociais-democratas e outras forças de esquerda, o que provocou oposição da ala radical do partido. Em 1926, foi afastado da liderança pela sua “política de alianças” não aceite pela direção partidária.

[DISPUTED] O destino posterior de Rates tornou-se ainda mais controverso: em 1935, começou a publicar artigos na imprensa setubalense afirmando que o socialismo tinha fracassado e que a alternativa ao capitalismo não era o comunismo, mas o corporativismo de Salazar. Rates transitou efetivamente para posições do Estado Novo — uma traição que o PCP jamais perdoou nem esqueceu.

Anos de Ditadura (1926-1974)

Ditadura Militar e Estado Novo

Após o golpe militar de 1926 e a instauração do regime do Estado Novo (formalmente a partir de 1933), todas as formas de atividade legal de esquerda foram proibidas. O PCP passou à clandestinidade e os sindicatos foram substituídos por “sindicatos nacionais” controlados pelo regime.

Para Setúbal — cidade com a mais forte tradição operária e sindical — isto não significou o desaparecimento da política de esquerda, mas a sua passagem à sombra. A atividade clandestina em Setúbal foi das mais intensas do país.

Greve Revolucionária de 18 de Janeiro de 1934

A 18 de janeiro de 1934, foi organizada em Portugal uma greve geral revolucionária contra a ditadura fascista — a última tentativa massiva de resistência aberta ao regime até 1974.

Em Setúbal, a preparação da greve foi especialmente ativa, mas o regime não estava a dormir: a 15 de janeiro, três dias antes da ação planeada, foram descobertas 60 bombas na cidade e, na noite de 17 de janeiro, toda a organização local foi detida. Apesar disso, a greve em Setúbal realizou-se, ainda que de forma enfraquecida.

A repressão foi dura: 696 detenções em todo o país, mais de 400 julgados por tribunais militares, muitos condenados a prisão e exílio.

Imprensa Clandestina “Avante!”

O jornal “Avante!” — órgão central do PCP — começou a ser publicado em fevereiro de 1931, substituindo o seu antecessor “O Comunista” (1921). Durante todo o período da ditadura, o “Avante!” foi publicado na clandestinidade — em tipografias improvisadas, em “casas clandestinas”, com risco constante de detenção.

[UNVERIFIED] Segundo alguns relatos, Setúbal foi um dos centros de impressão clandestina do “Avante!” — a geografia das tipografias conspirativas do PCP continua a ser objeto de investigação histórica, dado que o partido guardava cuidadosamente os seus segredos.

A PIDE e a Vigilância

A polícia secreta do regime — a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) — desenvolvia trabalho constante em Setúbal para identificar e suprimir a atividade comunista clandestina. A cidade, com a sua base operária, porto e empresas industriais, era considerada uma zona de atenção reforçada.

A vigilância abrangia fábricas, porto e bairros piscatórios. Informadores da PIDE estavam infiltrados nos coletivos de trabalhadores, e qualquer manifestação de descontentamento — desde uma greve até uma conversa “suspeita” — podia conduzir a detenção, interrogatório e prisão.

Revolução dos Cravos e Autogestão Operária

25 de Abril de 1974

A Revolução dos Cravos de 25 de Abril de 1974 pôs fim a 48 anos de ditadura. Em Setúbal, a notícia da revolução foi recebida com júbilo: os trabalhadores saíram às ruas, os presos políticos foram libertados e os sindicatos emergiram da clandestinidade.

Comité de Luta

O período revolucionário de 1974-1975 em Setúbal distinguiu-se por um radicalismo extraordinário. O exemplo mais impressionante de autogestão operária foi o Comité de Luta — órgão de democracia direta que incluía representantes dos moradores dos bairros e delegados de dois quartéis locais.

O Comité coordenava ações em várias frentes:

  • Autogestão operária nas fábricas — ocupação e relançamento de empresas abandonadas pelos proprietários
  • Política habitacional — ocupação de edifícios devolutos para realojar famílias dos bairros de lata
  • Abastecimento — organização da distribuição alimentar
  • Ordem pública — coordenação com os militares

Esta experiência de democracia direta, ainda que breve, permaneceu na memória coletiva de Setúbal como o momento em que os trabalhadores efetivamente governaram a cidade.

Era Democrática: A CDU no Poder

Domínio Eleitoral

Desde as primeiras eleições autárquicas livres após 1974, a CDU (Coligação Democrática Unitária — coligação do PCP e do Partido Ecologista “Os Verdes”) venceu consistentemente em Setúbal. A cidade tornou-se num dos principais “bastiões vermelhos” de Portugal — a par de Évora, Beja, Almada e Palmela.

A CDU obtinha mais de metade dos votos nas eleições autárquicas, assegurando o controlo absoluto da Câmara Municipal e da Assembleia Municipal. Este padrão eleitoral persistiu durante décadas, transformando Setúbal numa espécie de “montra socialista” — uma cidade onde a política de esquerda se concretizava na prática.

A Política Concreta da CDU

A governação municipal da CDU em Setúbal caracterizou-se por:

  • Orientação social — prioridade a programas habitacionais, apoio social e eventos culturais acessíveis
  • Proteção dos direitos laborais — apoio aos trabalhadores municipais e sindicatos
  • Política cultural — investimentos no Fórum Luísa Todi, na A Gráfica, no TAUS e no Museu do Trabalho
  • Preservação da memória históricatoponímia, monumentos e eventos comemorativos

Transformação Gradual

Enfraquecimento da “Fortaleza Vermelha”

A partir da década de 1990, após o colapso da União Soviética e a queda do bloco socialista, as posições eleitorais do PCP em Portugal enfraqueceram-se. Setúbal, embora continuando “vermelha,” começou a apresentar um panorama político mais complexo:

  • Declínio da participação eleitoral
  • Crescimento dos votos no PS (Partido Socialista) e noutras forças
  • Surgimento de novos atores políticos — BE (Bloco de Esquerda)
  • Alteração da composição demográfica — afluxo de população de fora do “cinturão vermelho”

Não obstante, a CDU manteve o controlo do município até às eleições recentes, testemunhando a profundidade e estabilidade da cultura política de esquerda na cidade.

A Identidade “Vermelha” no Século XXI

Hoje, a identidade “vermelha” de Setúbal constitui menos um programa político do que uma característica cultural. Manifesta-se em:

  • Nomes de ruas — a toponímia de Setúbal preserva a memória do movimento operário, das greves e dos revolucionários
  • Festividades — o festival do 25 de Abril (aniversário da Revolução dos Cravos) é celebrado com especial dimensão
  • Museus — o Museu do Trabalho Michel Giacometti preserva a memória da história operária
  • Cultura quotidiana — respeito pelo trabalho, solidariedade, ceticismo perante a riqueza

Esta matriz cultural determina o carácter da cidade independentemente do partido que esteja no poder.

Significado Histórico

Setúbal ocupa um lugar singular na história política de Portugal. Trata-se de uma cidade onde:

  • Foi criado um dos primeiros círculos comunistas de Portugal, ainda antes da fundação do PCP (1920)
  • Um operário conserveiro se tornou secretário-geral do partido comunista (1923)
  • A resistência clandestina à ditadura não cessou durante 48 anos (1926-1974)
  • A autogestão operária durante o período do PREC (1974-1975) atingiu uma das formas mais radicais do país
  • As forças de esquerda venceram consistentemente as eleições durante meio século de democracia

Esta história não é apenas local: reflete o destino do movimento operário europeu nos séculos XX-XXI, as suas ascensões e crises, esperanças e desilusões.

Fontes das imagens
  • pcp-25-abril.webp — Manifestação do Partido Comunista Português após a Revolução dos Cravos, 25 de Abril. Fonte: Wikimedia Commons.

Ver Também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

Se este artigo foi útil — ajude-nos a escrever o próximo.

☕ Apoiar no Ko-fi