A Guerra da Restauração e Setúbal (1640)
A 1 de dezembro de 1640, um grupo de conspiradores portugueses assaltou o palácio real em Lisboa e derrubou o vice-reinado espanhol, pondo fim a sessenta anos de União Ibérica. Em Setúbal, o episódio marcante destes acontecimentos foi o cerco ao Forte de São Filipe – uma fortaleza construída pelos próprios espanhóis para controlar a cidade, que se tornou o último reduto da autoridade espanhola na região.

Contexto: A União Ibérica (1580–1640)
A Perda da Independência
Em 1580, a casa real portuguesa de Avis extinguiu-se. Após a morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578) e o breve reinado do Cardeal D. Henrique, o trono ficou vago. Foi reclamado por Filipe II de Espanha, que se tornou Filipe I de Portugal. Assim começou a União Ibérica – um período durante o qual Portugal e Espanha estiveram unidos sob a coroa dos Habsburgo.
Sessenta Anos sob Domínio Espanhol
Em termos formais, Portugal manteve a autonomia administrativa: as suas próprias leis, instituições e língua. Na prática, porém, a coroa espanhola interveio de forma cada vez mais agressiva nos assuntos portugueses:
- Carga fiscal – impostos crescentes para financiar as guerras de Espanha pela Europa
- Perdas militares – marinheiros e soldados portugueses pereciam em conflitos espanhóis
- Perda de colónias – os holandeses apoderaram-se de possessões portuguesas no Brasil, em África e na Ásia, enquanto Espanha não as protegia
- Erosão da autonomia – funcionários espanhóis substituíam cada vez mais os nomeados portugueses em cargos-chave
A Construção do Forte de São Filipe
Foi precisamente durante este período, entre 1582 e 1600, que o Forte de São Filipe foi erguido – uma fortaleza abaluartada em forma de estrela no monte acima de Setúbal. Encomendado por Filipe II (que assistiu pessoalmente ao lançamento da primeira pedra em 1582), projetado pelo engenheiro militar italiano Giovan Giacomo Paleari Fratino com Filippo Terzi como engenheiro-chefe (a construção começou em 1590 e foi concluída em 1600 por Leonardo Torreano após a morte de Terzi), a fortaleza servia um duplo propósito:
- Defesa costeira – proteção contra piratas, corsários ingleses e holandeses
- Controlo da cidade – supressão de eventuais levantamentos da população local
A própria localização da fortaleza – em terreno elevado, com canhões apontados tanto para o mar como para a cidade – não deixava qualquer ambiguidade quanto à sua segunda função.
O Golpe de 1 de Dezembro de 1640
Os “Quarenta Conjurados”
Em 1640, o descontentamento com o domínio espanhol atingira um ponto crítico. Um grupo de nobres e oficiais militares portugueses, conhecido como os “Quarenta Conjurados” (Os Quarenta Conjurados), preparou um golpe palaciano.
O momento foi calculado: Espanha travava simultaneamente a Guerra dos Trinta Anos na Europa e reprimia a revolta na Catalunha (junho de 1640). As forças de Madrid encontravam-se dispersas.
Os Acontecimentos em Lisboa
Na manhã de 1 de dezembro de 1640, os conspiradores assaltaram o Paço da Ribeira em Lisboa:
- A Vice-Rainha Margarida de Saboia foi detida
- O Secretário de Estado Miguel de Vasconcelos – a figura mais odiada da administração espanhola – foi morto
- O povo de Lisboa saiu às ruas em apoio ao golpe
Nesse mesmo dia, o Duque de Bragança foi proclamado Rei de Portugal sob o nome de D. João IV. Começava assim a Guerra da Restauração (Guerra da Restauração), que durou até 1668 e culminou no Tratado de Lisboa, no qual Espanha reconheceu formalmente a independência portuguesa.
Setúbal: O Cerco ao Forte de São Filipe
A Cidade Alinha-se com os Insurrectos
A notícia do golpe em Lisboa espalhou-se rapidamente. Setúbal, situada a menos de 50 km da capital, soube dos acontecimentos nos primeiros dias de dezembro de 1640.
A cidade e os seus arredores aderiram ao novo rei praticamente sem resistência: a população local, tal como a maioria dos portugueses, apoiava a restauração da independência. A guarnição espanhola na cidade depôs as armas.
Contudo, o Forte de São Filipe permaneceu sob controlo espanhol. O seu comandante, D. Francisco de Almeida, recusou render-se.
O Cerco
As forças portuguesas, apoiadas pela população local, cercaram a fortaleza. A posição da guarnição espanhola era desesperada:
- Isolamento – a cidade e a região circundante haviam aderido a D. João IV
- Sem reforços – Espanha não podia (nem conseguiu) enviar socorro
- Pressão popular – os próprios habitantes de Setúbal, para cuja subjugação a fortaleza fora construída, encontravam-se agora a cercá-la
A Rendição
Sob o peso das circunstâncias, o forte rendeu-se – foi a última fortificação em Setúbal a passar para o lado dos insurrectos. Este facto sublinha a capacidade defensiva da fortaleza: as suas muralhas, fossos e baluartes permitiram à guarnição resistir mais tempo do que qualquer outro ponto forte na região.
A ironia da história: uma fortaleza construída por Espanha para controlar Setúbal resistiu não a uma invasão externa, mas à própria cidade que fora erguida para subjugar.
Consequências para Setúbal
Uma Mudança de Função para o Forte

Após a Restauração, o Forte de São Filipe passou para as mãos da coroa portuguesa e foi integrado no sistema de defesa nacional. A sua função alterou-se: de instrumento de controlo sobre a cidade, tornou-se um meio de defesa da cidade e da costa contra ameaças externas.
Ao longo das décadas seguintes da Guerra da Restauração (1640–1668), a fortaleza serviu como posição defensiva na eventualidade de um contra-ataque espanhol, embora os combates principais tivessem lugar ao longo da fronteira terrestre – no Alentejo e no norte.
Recuperação Económica
A restauração da independência permitiu a Portugal recuperar o controlo do seu comércio colonial e redirecionar as receitas fiscais para o seu próprio tesouro. Para Setúbal, enquanto porto importante e centro do comércio do sal, isto significou:
- A retoma de laços comerciais diretos com a Inglaterra e a Holanda (ambas tinham apoiado a Restauração)
- O fim da participação em guerras espanholas ruinosas
- Novos investimentos em infraestruturas portuárias
A Aliança Luso-Britânica
Em 1654, Portugal assinou um tratado com a Inglaterra, reforçando uma aliança de longa data. Em 1661 seguiu-se o Tratado de Casamento: D. Catarina de Bragança, filha de D. João IV, casou com o rei inglês Carlos II. A Inglaterra tornou-se o principal parceiro comercial e aliado militar de Portugal – e Setúbal, como um dos portos-chave do reino, beneficiou diretamente desta aliança.
A Guerra da Restauração: Datas-Chave
| Data | Acontecimento |
|---|---|
| 1580 | Início da União Ibérica: Filipe II de Espanha torna-se Rei de Portugal |
| 1582–1600 | Construção do Forte de São Filipe em Setúbal |
| 1 de dezembro de 1640 | Golpe palaciano em Lisboa; proclamação de D. João IV |
| Dezembro de 1640 | Setúbal adere aos insurrectos; cerco ao Forte de São Filipe |
| 1640–1668 | A Guerra da Restauração |
| 1654 | Tratado Luso-Britânico |
| 1661 | Tratado de Casamento: D. Catarina de Bragança e Carlos II |
| 13 de fevereiro de 1668 | Tratado de Lisboa: Espanha reconhece a independência portuguesa |
Dia da Restauração
1 de dezembro é observado em Portugal como Dia da Restauração da Independência – feriado nacional que assinala a Restauração da Independência. Para Setúbal, esta data reveste-se de particular significado: a cidade preserva a memória do cerco ao Forte de São Filipe como o seu contributo para a restauração da soberania nacional.
Fontes das imagens
- restoration-forte-sao-filipe.webp — Forte de São Filipe — uma fortificação-chave da Guerra da Restauração. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- restoration-setubal-1669-panorama.webp — Panorama de Setúbal em 1669. Autor: Desconhecido (século XVII). Licença: Domínio público. Fonte
- restoration-forte-sao-filipe-entrance.webp — Entrada do Forte de São Filipe. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Ver também

- Forte de São Filipe
- Setúbal e a Época dos Descobrimentos
- A Reconquista e o Período Medieval
- O Terramoto de 1755
- Castelo de Palmela
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