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Retornados — Os regressados de África

Retornados — Os regressados de África

Verificado

Revolução dos Cravos, 25 de abril de 1974 — início da descolonização e da vaga dos retornados

📷 Crédito da imagem

Foto: Desconhecido / Wikimedia Commons / CC BY 4.0

Os retornados foram entre meio milhão e um milhão de cidadãos portugueses que regressaram das colónias africanas na sequência da Revolução dos Cravos de 1974 e da descolonização. O distrito de Setúbal foi um dos três principais centros de acolhimento dos retornados, a par de Lisboa e do Porto.

Escala e cronologia

Números gerais

Em 1975, a população de Portugal situava-se em cerca de 9 milhões de habitantes. O afluxo de retornados aumentou-a em aproximadamente 5%. A grande maioria eram colonos brancos provenientes de Angola e Moçambique, com números menores vindos da Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Cronologia

Período Acontecimento
25 de abril de 1974 Revolução dos Cravos — início da descolonização
Maio–junho de 1974 Primeira vaga (reduzida)
Verão de 1975 Êxodo em massa: mais de 300 000 só de Angola
Junho de 1975 No Vale da Amoreira (distrito de Setúbal), retornados ocupam habitações inacabadas
1976 Continuação das chegadas; estabilização gradual
Final da década de 1970 Últimas vagas

Números para os distritos de Lisboa e Setúbal

Data Retornados registados
31 de dezembro de 1975 10 701
Junho de 1976 30 255
30 de dezembro de 1978 40 956

Mais de 50% de todos os retornados fixaram-se em três distritos — Lisboa, Porto e Setúbal.

Fixação na zona de Setúbal

Vale da Amoreira

Bairro do concelho da Moita (distrito de Setúbal). Em junho de 1975, camiões transportando soldados e retornados de Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique chegaram ao local e ocuparam casas inacabadas — muitas sem condições mínimas de habitabilidade. A zona manteve desde então a sua identidade multicultural: 33% cabo-verdianos, 23% angolanos, 22% guineenses, 7% moçambicanos, 8% são-tomenses (dados posteriores).

Casal das Figueiras

Bairro de Setúbal onde foi construído um empreendimento habitacional do programa SAAL, projetado pelo arquiteto Gonçalo de Sousa Byrne: 420 fogos, com construção iniciada em outubro de 1976. [NÃO VERIFICADO] Não foi documentada uma ligação direta entre este projeto e a fixação de retornados — o programa SAAL trabalhava com comunidades locais de baixos rendimentos.

IARN — Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais

O Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais (IARN) foi o organismo estatal responsável pela integração dos retornados:

Facto Detalhes
Criação 31 de março de 1975 (Decreto-Lei 169/75)
Antecessor GADU (junho de 1974) — sobrecarregado pelo afluxo
Dissolução 2 de maio de 1981 (Decreto-Lei 97/81)
Sede Lisboa
Delegações Faro, Funchal, Porto, Vila Real, Viseu

O instituto financiou alojamento (pensão completa em hotéis, pensões e edifícios públicos), transporte de pessoas e bagagem, assistência jurídica, subsídios familiares e bolsas de estudo.

[NÃO VERIFICADO] Não foi confirmada a existência de uma delegação do IARN em Setúbal — o distrito poderá ter sido servido a partir do gabinete de Lisboa.

Impacto económico

O afluxo de retornados expandiu a força de trabalho civil de Portugal em 15% entre 1974 e 1976. Os investigadores divergem quanto às consequências: alguns argumentam que o efeito sobre os salários e o emprego foi modesto; outros apontam para uma queda da produtividade média do trabalho. Em 1975, no auge da turbulência revolucionária, o PIB per capita desceu para 52,3% da média da CE-12.

Ao mesmo tempo, os retornados trouxeram competências e espírito empreendedor: médicos, professores, engenheiros, empresários. Muitos iniciaram negócios no comércio, nos serviços e na restauração. Os investigadores observam que os retornados possuíam frequentemente níveis de escolaridade superiores à média nacional.

Impacto cultural

Música

Os retornados e a diáspora africana introduziram novos géneros musicais em Portugal:

  • Semba — género angolano popular desde a década de 1950
  • Kizomba — desenvolvida na década de 1980 a partir do semba
  • Luso-Afro beats — movimento contemporâneo que funde ritmos portugueses e africanos

Entre os músicos de destaque encontra-se Bonga (José Adelino Barceló de Carvalho, n. 1942), cantor angolano que se mudou para Lisboa após 1975.

Gastronomia

Paradoxalmente, apesar de 500 anos de ligações coloniais, a cozinha africana não alcançou uma popularidade generalizada em Portugal. De todo o património culinário, o frango com piri-piri e os chamuças foram os elementos que entraram no consumo corrente. Dezenas de restaurantes africanos (angolanos, moçambicanos, cabo-verdianos) operam em Lisboa; a cena gastronómica africana em Setúbal encontra-se menos documentada.

Reflexos literários

A experiência dos retornados tem sido explorada na literatura portuguesa contemporânea:

  • Dulce Maria Cardoso (n. 1964) — cresceu em Luanda, regressou a Portugal em 1975. O seu romance “O Retorno” (2011) narra a história de uma família de retornados a viver durante um ano num hotel de Lisboa, vista pelos olhos de um adolescente.
  • Isabela Figueiredo (n. 1963, Lourenço Marques, Moçambique) — “Caderno de Memórias Coloniais” (2009), um relato cru do fim do colonialismo português. A edição francesa foi finalista do Prémio Femina Estrangeiro.

Legado contemporâneo

As comunidades africanas continuam a constituir uma parte significativa da população de Portugal. O censos de 2011 registou mais de 160 000 angolanos e cerca de 62 000 cabo-verdianos no país. A maioria concentra-se em Lisboa, Porto e Setúbal.

O Vale da Amoreira, no distrito de Setúbal, mantém o carácter multicultural adquirido na década de 1970.

Datas-chave

Ano Acontecimento
1974 Revolução dos Cravos; início da descolonização e do regresso
1975 Criação do IARN; êxodo em massa de Angola e Moçambique; fixação no Vale da Amoreira
1976 Estabilização do fluxo; início da construção SAAL em Setúbal
1981 Dissolução do IARN
2011 Publicação de “O Retorno” de Dulce Maria Cardoso

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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