Saltar para o conteúdo
O Comércio do Sal de Setúbal

O Comércio do Sal de Setúbal

Verificado

O sal — o “ouro branco” da Idade Média — constituiu a base da economia de Setúbal durante quase dois milénios. As salinas nas margens do estuário do Sado abasteciam de sal as empresas de salga de peixe desde a época romana e, no período medieval, tinham-se tornado a origem de uma das principais exportações de Portugal. O sal da Baía de Setúbal, conhecido em toda a Europa sob o nome “St. Ubes bay salt”, era expedido para a Flandres, a Inglaterra, os estados bálticos e mesmo até à Austrália.

Salinas no estuário do rio Sado

Origens: O Sal antes dos Romanos

Extração Pré-Histórica

A investigação arqueológica indica que a extração de sal no território do Portugal atual teve início já nos 4.o e 3.o milénios a.C. O litoral atlântico e os estuários dos grandes rios, incluindo o Sado, proporcionavam condições naturais para a produção por evaporação: águas pouco profundas, verões quentes e marés regulares que transportavam água salgada para o interior do estuário.

[NÃO VERIFICADO] A data precisa em que a extração de sal começou diretamente nas margens do Sado no período pré-romano não se encontra estabelecida. Contudo, a existência de uma indústria de salga de peixe desenvolvida em Cetobriga a partir do século I d.C. sugere que as salinas locais já estavam a ser ativamente exploradas nessa época.

A Época Romana: Sal e Garum

Cetobriga como Centro de Produção

Durante o período de domínio romano, Cetobriga — a predecessora de Setúbal — tornou-se um dos maiores centros de produção de salga de peixe na Península Ibérica. O complexo na Península de Tróia compreendia 182 tanques de salga nos quais se produzia o célebre garum — um molho de peixe fermentado apreciado em todo o Império Romano.

O funcionamento desta vasta empresa exigia quantidades enormes de sal. As salinas nas margens do estuário do Sado asseguravam um abastecimento contínuo, e foi precisamente esta combinação de “sal + peixe + porto” que determinou o destino económico da região nos dois milénios seguintes.

Rotas Comerciais

A Cetobriga romana estava ligada por estradas aos centros-chave da Lusitânia, incluindo Lisboa (Olisipo), e servia como polo de comércio marítimo tanto no Atlântico como no Mediterrâneo. Ânforas contendo garum de Setúbal foram encontradas no território da Grã-Bretanha atual — tão a norte como a Muralha de Adriano.

A Idade Média: Sal para Exportação

As Salinas do Sado

Após a Reconquista e a estabilização da autoridade cristã na região (séculos XII–XIII), as salinas do Sado receberam um novo impulso. As salinas tradicionais portuguesas consistem em sistemas de tanques pouco profundos nos quais a água do mar, introduzida pelas marés, evapora gradualmente sob a ação do sol e do vento.

As salinas portuguesas dividem-se em quatro tipos regionais segundo o método de exploração: algarvias, sadinas, taganas e de Figueira da Foz / Aveiro. O tipo sadino encontra-se entre os mais antigos e produtivos.

A vila de Alcácer do Sal, situada mais a montante no Sado, carrega no seu próprio nome o testemunho do papel secular do sal na economia da região: “Sal” no seu nome significa simplesmente “sal”.

O Norte da Europa como Mercado

Na Baixa Idade Média (séculos XIV–XV), as frotas pesqueiras do Norte da Europa — Flandres, Inglaterra, cidades hanseáticas — enfrentavam uma necessidade crescente de sal para a cura das suas capturas. As fontes locais (as salinas de Luneburgo, o sal de marisma da Bretanha) não conseguiam satisfazer a procura, e o sal marinho ibérico tornou-se uma mercadoria de importância crítica.

[DISPUTADO] O volume preciso das exportações medievais de sal de Setúbal para portos específicos da Flandres e de Inglaterra encontra-se apenas fragmentariamente documentado. Não obstante, o quadro geral é inequívoco: o sal marinho ibérico era a fonte primária para a indústria pesqueira do Norte da Europa. Os navios que transportavam este sal formavam as chamadas “frotas do sal”.

“St. Ubes” — O Nome Internacional de Setúbal

Em documentos comerciais ingleses e neerlandeses, Setúbal aparecia sob a transcrição fonética “St. Ubes” ou “St. Ybes”. Esta deformação reflete o modo como os marinheiros e comerciantes estrangeiros percecionavam o nome. Sob a designação “St. Ubes bay salt”, o sal da Baía de Setúbal tornou-se um nome comercial reconhecido em toda a Europa — e além dela.

A Época dos Descobrimentos

O Sal como Motor de Expansão

Nos séculos XV–XVI, durante a Época dos Descobrimentos, o sal e o peixe salgado continuaram a ser a espinha dorsal das exportações de Setúbal. O sal era essencial para:

  • Aprovisionamento das expedições marítimas — a salga conservava os alimentos para longas viagens nos porões dos navios
  • Comércio de exportação — o sal era trocado por mercadorias do Norte da Europa (têxteis, madeira, metais)
  • Processamento do peixe — o bacalhau, curado com sal português, tornou-se um produto nacional

O porto de Setúbal floresceu: navios chegavam de Inglaterra, da Holanda, da Flandres e das cidades hanseáticas para carregar sal e peixe salgado.

Séculos XVIII–XIX: Concorrência e Declínio

Redistribuição do Mercado

No século XVIII, a geografia da produção de sal em Portugal começou a alterar-se. As salinas de Lisboa e de Aveiro estavam a expandir a sua capacidade, enquanto no século XIX a extração de sal no Sado diminuiu de forma notável.

No final do século XIX e início do século XX, Lisboa tornou-se o centro dominante da produção salineira nacional e internacional, deslocando Setúbal da posição que ocupara durante séculos.

Um Último Surto Exportador

Apesar do declínio geral, o sal de Setúbal era exportado muito além das fronteiras da Europa. Na década de 1830, o “St. Ubes bay salt” era expedido até à Austrália — prova de que a rede comercial internacional estabelecida na Idade Média continuava a funcionar.

A Produção de Sal: A Tecnologia

Como Funcionam as Salinas

Salinas — operações semelhantes no Sado

As salinas tradicionais do estuário do Sado consistem num complexo de tanques pouco profundos dispostos em extensões planas do litoral:

  1. Canal de alimentação — a água do mar entra no sistema com a maré cheia
  2. Concentradores (concentradores) — a água percorre uma série de tanques, aumentando progressivamente a salinidade
  3. Cristalizadores (cristalizadores) — nos tanques menos profundos, o sal precipita-se sob a ação do sol
  4. Colheita — o marnoteiro recolhe os cristais de sal manualmente com um utensílio de madeira

Na superfície dos cristalizadores forma-se a flor de sal — uma camada fina de cristais colhida separadamente. A flor de sal é considerada o produto mais valorizado e é comercializada atualmente como condimento gourmet.

Sazonalidade

A época de produção decorre de maio a setembro — o período de maior intensidade solar e precipitação mínima. O trabalho do marnoteiro depende inteiramente das condições meteorológicas: a chuva pode destruir uma colheita, enquanto o vento acelera a evaporação.

Situação Atual

As Salinas do Sado Hoje

De acordo com os dados disponíveis, diversas salinas nas margens do Sado continuam a operar no início do século XXI, embora a escala de produção seja incomparável com os níveis históricos. Algumas destas salinas situam-se dentro da reserva natural do estuário do Sado e são valorizadas não apenas como locais de produção mas também como ecossistemas — as salinas servem de locais de nidificação e alimentação para numerosas espécies de aves.

Sal Artesanal

No século XXI, a produção artesanal de sal está a conhecer um renascimento enquanto parte do movimento de preservação dos ofícios tradicionais. O sal artesanal português e a flor de sal tornaram-se produtos gastronómicos procurados, valorizados pela sustentabilidade ecológica da sua produção e pelo seu sabor distintivo.

Perspetiva Histórica

O comércio do sal de Setúbal é um fio condutor que liga as épocas:

Período Papel do Sal

Detalhe das salinas — cristalização do sal

| 4.o–3.o milénios a.C. | Primeiras evidências de extração de sal em Portugal | | Séculos I–V d.C. | Sal para o garum de Cetobriga; exportação pelo Império Romano | | Séculos XII–XV | Exportação medieval para a Flandres, Inglaterra, Báltico | | Séculos XV–XVI | Aprovisionamento de expedições marítimas; comércio de exportação | | Séculos XVII–XVIII | Concorrência com Lisboa e Aveiro | | Século XIX | Declínio, mas exportações até à Austrália | | Século XXI | Renascimento artesanal; flor de sal |

O mesmo rio, as mesmas margens. Dos tanques de salga de Cetobriga aos comboios de sal com destino ao Norte da Europa e à flor de sal gourmet nos restaurantes do século XXI — o sal do Sado permanece parte da identidade de Setúbal.

Fontes das imagens
  • salt-sado-estuary.webp — Salinas no estuário do rio Sado. Autor: Epinheiro. Licença: CC BY 3.0. Fonte
  • salt-salinas-samouco.webp — Salinas — operações semelhantes no Sado. Autor: Carlos Luis M C da Cruz. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
  • salt-salinas-samouco-detail.webp — Detalhe das salinas — cristalização do sal. Autor: Carlos Luis M C da Cruz. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

Todo o nosso conhecimento é gratuito. Criá-lo não é.

☕ Apoiar no Ko-fi