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Setúbal na Era dos Descobrimentos

Setúbal na Era dos Descobrimentos

Verificado

No mapa de Fernando Álvaro Seco (1560), Setúbal surge assinalada como “primeiro porto nacional”. Nos séculos XV–XVI, a cidade não era apenas uma base de abastecimento de expedições com sal e mantimentos – era um ponto de reunião de armadas, um local de ensaio de armamento naval e o sítio onde foi ratificado o tratado que determinou o destino de dois hemisférios.

Convento de Jesus — primeiro edifício manuelino, símbolo da Era dos Descobrimentos

O poder económico da cidade

O segundo porto do reino

Em 1473, Setúbal contribuía com 2 contos e 57 000 réis para as receitas régias provenientes de direitos portuários, sal e peixe – mais do que Guimarães e Évora. Tal posicionava a cidade entre os maiores portos comerciais de Portugal, a seguir apenas a Lisboa e ao Porto.

Em 1514, o rei D. Manuel I reformou o foral de Setúbal precisamente devido ao “progresso e aumento demográfico” que a cidade registara ao longo do século anterior. Em 1525, D. João III concedeu a Setúbal o título de “notável vila”.

Sal – um recurso estratégico

O sal do estuário do Sado era criticamente importante para as expedições marítimas: a salga permitia conservar os mantimentos durante meses de navegação. Setúbal ocupava uma posição singular – enquanto produtora simultânea de sal e de peixe, abastecia as expedições com peixe pré-salgado como produto acabado.

Em 1511, D. Manuel I emitiu um decreto que proibia os navios que vinham buscar sardinha de trazerem sal de outros locais – tão vastas eram as reservas locais.

Mais informações sobre o comércio do sal num artigo dedicado.

Reunião de armadas no estuário do Sado

A expedição a Alcácer-Ceguer (1458)

Em 1458, uma armada de D. Afonso V foi reunida no porto de Setúbal – 200 a 220 navios transportando 25 000 a 26 000 soldados (além de marinheiros e pessoal de apoio) – para a conquista de Alcácer-Ceguer em Marrocos. Entre os participantes encontrava-se o Infante D. Henrique, comandando a armada do Algarve.

A escolha de Setúbal para a reunião da armada não foi acidental: o estuário abrigado permitia a concentração segura de centenas de embarcações, enquanto a proximidade do oceano aberto proporcionava acesso rápido ao Atlântico.

A missão de corso de Vasco da Gama (1492)

Em 1492, D. João II enviou o jovem Vasco da Gama aos portos de Setúbal e do Algarve para apresar navios franceses – em represália por actos de pirataria. A causa concreta: os franceses haviam capturado uma caravela portuguesa que transportava ouro de São Jorge da Mina (uma fortaleza na costa da actual Gana). Da Gama cumpriu a missão “rápida e eficazmente” – este episódio constituiu a sua primeira comissão naval conhecida.

Aprovisionamento de expedições

Setúbal abastecia as expedições dos Descobrimentos com mantimentos essenciais:

  • Biscoito – bolacha de bordo (pão cozido várias vezes)
  • Peixe salgado – a principal fonte de proteína
  • Vinho – frequentemente misturado com água para desinfecção
  • Azeite
  • Sal – para conservação durante a viagem

A preparação das frotas exigia grandes contingentes de artífices: carpinteiros, calafates, tanoeiros (para a fabricação de barris de água, vinho e mantimentos).

[NÃO VERIFICADO] Não foram encontradas provas da existência de estaleiros de grande dimensão directamente em Setúbal durante os séculos XV–XVI. Os principais centros de construção naval eram a Ribeira das Naus (Lisboa), Vila do Conde e o Porto. Contudo, sob D. João II, Setúbal foi utilizada para ensaios de artilharia em caravelas – uma inovação decisiva que permitiu às caravelas transportar artilharia de convés.

Ratificação do Tratado de Tordesilhas

A 5 de setembro de 1494, D. João II ratificou o Tratado de Tordesilhas em Setúbal, onde se encontrava a residir por motivos de saúde. A partir de Setúbal, o rei trocou correspondência com os seus embaixadores em Tordesilhas.

O tratado, assinado a 7 de junho de 1494, dividiu o mundo em duas esferas de influência – portuguesa e castelhana – ao longo de um meridiano a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Este acto:

  • Garantiu a Portugal o monopólio da Rota Marítima para a Índia (Rota do Cabo)
  • Tornou possível a soberania portuguesa sobre o Brasil após a sua descoberta por Cabral em 1500
  • É considerado o primeiro tratado internacional da era moderna
  • Encontra-se inscrito no registo Memória do Mundo da UNESCO

Comunidades mercantis estrangeiras

O porto de Setúbal atraía mercadores de toda a Europa:

Holandeses e flamengos

Em 1578–1579, aproximadamente 130 navios por ano chegavam a Setúbal para carregar sal. O sal de Setúbal possuía uma qualidade especial – branqueava o peixe durante a salga – razão pela qual era altamente valorizado no Norte da Europa. O sal era essencial para a indústria holandesa de salga de arenque – a base do chamado “comércio-mãe” (moedernegotie) com o Báltico.

Genoveses

A partir de 1317, o navegador genovês Manuel Pessanha foi nomeado primeiro almirante de Portugal em troca de 20 navios de guerra. Tal lançou as bases de uma comunidade mercantil genovesa que operava em todos os portos-chave, incluindo Setúbal.

Ingleses

Mercadores ingleses encontram-se registados nas Cortes de Évora (1481–1482). Já no século XIV, Ricardo II importava vinho “Osoye” de Azeitão – ver rotas comerciais marítimas do Moscatel.

A época áurea da cidade

A Era dos Descobrimentos trouxe a Setúbal:

  • O Convento de Jesus (1490–1500) – o primeiro exemplo do estilo manuelino, construído pelo arquitecto Diogo de Boitac sob o mecenato de D. Manuel I
  • Um aqueduto (iniciado em 1487 por iniciativa de D. João II, concluído sob D. Manuel) – o sistema de abastecimento de água da cidade
  • Expansão para além das muralhas medievais do século XIV (no século XVI, as muralhas contavam com 5 portas e 13 postigos)

Declínio: a União Ibérica

Após a morte de D. Sebastião I na Batalha de Alcácer-Quibir (1578) e a união de Portugal com Espanha (1580), Setúbal sofreu graves perdas:

  • O Forte de São Filipe (1582–1600) – construído não apenas para defesa, mas também para controlar a cidade, que oferecera resistência significativa ao domínio espanhol
  • Embargo ao comércio holandês – Espanha proibiu a entrada de navios holandeses nos portos ibéricos, prejudicando gravemente o comércio de sal de Setúbal
  • Epidemias de peste (1579–1580, 1582–1583, 1598–1603) dizimaram a população
  • O terramoto de 1755 completou o período de declínio

Após a Restauração (1640), os holandeses retomaram as compras de sal, mas durante os 60 anos da União, a cidade perdeu de forma permanente parte das suas ligações comerciais.

Cronologia

Ano Acontecimento
1317 Genovês Pessanha – primeiro almirante de Portugal
1421 Queixa dos pescadores: todo o pescado é comprado no mar
1458 Armada de D. Afonso V a Alcácer-Ceguer: mais de 200 navios a partir de Setúbal
1473 Setúbal – 2 contos em receitas régias
1487 Início da construção do aqueduto (D. João II)
1490–1500 Convento de Jesus – primeiro edifício manuelino
1492 Vasco da Gama apresa navios franceses em Setúbal
1494 Tratado de Tordesilhas ratificado em Setúbal
1511 D. Manuel I proíbe importações externas de sal
1514 Reforma do foral devido ao crescimento da cidade
1525 Título de “notável vila” (D. João III)
1578–1580 União Ibérica; início do declínio
1755 Terramoto

Ver também

Fontes das imagens
  • monastery-jesus-setubal.webp — Convento de Jesus ao anoitecer, Setúbal. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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