Estivadores e Trabalhadores Portuários de Setúbal
Setúbal é uma cidade operária. Estivadores, pescadores, operárias conserveiras e trabalhadores da reparação naval moldaram o tecido social da cidade ao longo do século XX. A história dos trabalhadores portuários de Setúbal é uma narrativa de luta sindical sob o Estado Novo, dos acontecimentos turbulentos da Revolução dos Cravos e da dolorosa transformação numa era pós-industrial.

Uma cidade operária
Formação da classe operária
No início do século XX, Setúbal havia-se tornado num dos maiores centros industriais de Portugal. Três indústrias definiam o carácter da cidade:
- Indústria conserveira – na década de 1920, dezenas de fábricas de salga e conserva de sardinha laboravam em Setúbal. A mão de obra era predominantemente feminina – as operárias conserveiras. Ver indústria conserveira
- Pesca – milhares de pescadores faziam-se ao mar diariamente. Ver cultura piscatória
- Trabalho portuário – carga e descarga de sal, peixe, cimento e, mais tarde, pasta de papel e automóveis
Geografia social
Os bairros operários de Setúbal formaram-se em torno do porto e das fábricas:
- Bairro do Troino – o bairro dos pescadores
- Bairro dos Pescadores – literalmente, o “Bairro dos Pescadores”
- Fontainhas e zonas ao longo da frente ribeirinha – áreas residenciais dos trabalhadores portuários
Estes bairros tornaram-se não apenas distritos residenciais, mas também berços da cultura operária: cantava-se aqui o fado e formaram-se tradições de entreajuda.
Estado Novo: repressão e resistência
O sistema corporativista de Salazar
Sob o regime do Estado Novo (1933–1974), os sindicatos livres foram proibidos. Em seu lugar, o Estado criou os sindicatos nacionais – organizações controladas pelo governo, integradas no sistema corporativista. As greves foram declaradas ilegais.
Não obstante, Setúbal manteve-se como uma das cidades politicamente mais ativas de Portugal. Células clandestinas do Partido Comunista Português (PCP) operavam entre pescadores, operárias conserveiras e estivadores.
Greves
Apesar da proibição, ocorreram greves ilegais em Setúbal:
- Décadas de 1940–1950 – protestos espontâneos de operárias conserveiras por melhores condições de trabalho
- Décadas de 1960–1970 – politização do movimento operário, ligada à resistência anticolonial
[NÃO VERIFICADO] As datas exatas e a dimensão das greves no porto de Setúbal durante o Estado Novo carecem de investigação aprofundada em fontes de arquivo.
A Revolução dos Cravos e as suas consequências
25 de abril de 1974
A Revolução dos Cravos foi particularmente intensa em Setúbal. As organizações de trabalhadores emergiram rapidamente da clandestinidade:
- Criação de sindicatos livres para estivadores, pescadores e operárias conserveiras
- Ocupação de empresas por comissões de trabalhadores
- Setúbal tornou-se um dos bastiões da esquerda durante o período do PREC (Processo Revolucionário em Curso, 1974–1975)
Nacionalização e o estaleiro da Setenave
Em 1975, o estaleiro da Setenave, na península de Mitrena, foi nacionalizado – o maior empregador da região. No auge da sua atividade, o estaleiro proporcionava milhares de postos de trabalho. Posteriormente, foi reestruturado e transformado na Lisnave – uma operação de reparação naval com uma força de trabalho significativamente reduzida.
Transformação
Desindustrialização
A partir da década de 1980, Setúbal atravessou uma dolorosa transformação:
| Período | Acontecimento |
|---|---|
| Década de 1980 | Encerramento da maioria das fábricas de conservas |
| Década de 1990 | Declínio da construção naval; Setenave → Lisnave (reparação naval) |
| Década de 2000 | Contentorização do porto; redução do trabalho manual |
| Década de 2010 | Automatização das operações portuárias |
Se em meados do século XX o porto de Setúbal necessitava de milhares de estivadores para a carga manual de sal, peixe e cimento, os terminais modernos da Sadoport e Tersado operam com um número significativamente menor de trabalhadores, graças à contentorização e à mecanização.
Novas indústrias
As ocupações portuárias tradicionais foram substituídas por:
- Logística automóvel – o terminal da Autoeuropa (desde 1995)
- Indústria da pasta e do papel – o complexo da Navigator Company em Mitrena
- Reparação naval – Lisnave (alta tecnologia, mas com uma força de trabalho reduzida)
Memória: o Museu do Trabalho
O Museu do Trabalho Michel Giacometti, instalado numa antiga fábrica de conservas na frente ribeirinha, preserva a memória da história operária da cidade. A exposição inclui:
- Ferramentas e equipamentos das fábricas de conservas
- Fotografias e documentos de trabalhadores portuários
- A coleção etnográfica de Michel Giacometti (etnógrafo corso que dedicou a vida ao estudo da cultura popular portuguesa)
Cronologia
| Ano | Acontecimento |
|---|---|
| Início do séc. XX | Ascensão da indústria conserveira; formação da classe operária |
| 1933 | Instauração do Estado Novo; proibição dos sindicatos livres |
| 1973–1974 | Construção do estaleiro de Mitrena (Lisnave, 1973); constituição formal da Setenave (6 de agosto de 1974) |
| 1974 | Revolução dos Cravos; criação de sindicatos livres |
| 1975 | Nacionalização da Setenave |
| Década de 1980 | Início da desindustrialização; encerramento das fábricas de conservas |
| Década de 1990 | Setenave → Lisnave; declínio da construção naval |
| 1995 | Autoeuropa – um novo tipo de emprego |
| Década de 2000 | Contentorização do porto |
Ver também
- A Indústria Conserveira de Setúbal
- A Revolução dos Cravos em Setúbal
- O Porto Moderno de Setúbal
- Cultura Piscatória
- Museu do Trabalho
Fontes das imagens
- lisnave-shipyard-aerial.webp — Estaleiros da Lisnave/Setenave na península de Mitrena, fotografia aérea. Autor: Bjoertvedt. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Se este artigo foi útil — ajude-nos a escrever o próximo.
☕ Apoiar no Ko-fi