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A Toponimia de Setubal

A Toponimia de Setubal

Verificado

Os topónimos da região de Setúbal preservam a memória de dois milénios de ocupação contínua: raízes protocélticas, latinas, árabes e portuguesas medievais entrelaçam-se nos nomes da cidade, dos seus bairros, praias e rios. Cada nome é testemunho da civilização que o atribuiu.

Brasao de armas de Setubal

Setúbal: De Cetobriga a Shatubar

A origem do nome da cidade de Setúbal constitui um dos casos toponímicos mais bem documentados da região. O nome descende de Cetobriga (latim: Cetobriga, também Caetobriga) – um povoado romano nas margens do estuário do Sado, ativo entre os séculos I e VI d.C.

A Raiz Protocéltica

O próprio nome Cetobriga tem origens protocélticas, derivando da raiz *Caetobrix. O elemento *-brix (ou *-briga) é um sufixo celta típico que significa “povoado fortificado” ou “fortaleza”, presente em numerosos topónimos celtas por toda a Europa Ocidental (cf. Conimbriga / Coimbra, Lacobriga / Lagos).

A Transformação Árabe

Durante o período de domínio mouro (séculos VIII–XII), o nome passou por uma adaptação fonética árabe e tornou-se Shatubar (árabe andaluz: shatubar). A forma árabe preservou uma ligação fonética com o nome pré-romano, submetendo-o às regras da fonologia árabe. O geógrafo árabe do século XII al-Idrisi referiu-se ao rio de Setúbal como nahr Shatubar – “o rio de Shatubar”.

Variantes Europeias

Após a Reconquista, a forma árabe Shatubar evoluiu para o português Setúbal. No século XVII, durante a era de intenso comércio de sal através do porto de Setúbal, as línguas estrangeiras desenvolveram as suas próprias variantes do nome:

  • Saint Ubes – a forma inglesa
  • Saint-Yves – a forma francesa

Ambas as variantes representam etimologia popular – tentativas de mercadores estrangeiros de dar sentido a um nome desconhecido através do padrão familiar de “santo + nome”. A cidade não tem qualquer ligação com um hipotético Santo Ubes ou Santo Ivo.

Evolução do Nome

Período Forma Língua
Pré-romano *Caetobrix Protocéltico
Romano (séculos I–VI) Cetobriga / Caetobriga Latim
Mouro (séculos VIII–XII) Shatubar Árabe andaluz
Medieval Setúbal Português
Século XVII Saint Ubes / Saint-Yves Inglês / Francês

O Rio Sado

O Sado, em cujo estuário Setúbal se ergue, possui uma história toponímica complexa.

O Nome Romano: Callipus

Nas fontes antigas, o rio ostentava o nome Callipus. Na Antiguidade Tardia, este nome caiu aparentemente em desuso e foi substituído pela designação descritiva flumen de Caetobriga – “o rio de Cetobriga”.

Sadão / Sado

Até ao século XVIII, o rio era conhecido como Sadão (português: Sadão). Esta forma sobrevive em diversos topónimos modernos: São Romão do Sadão (concelho de Alcácer do Sal), Santa Margarida do Sadão (concelho de Ferreira do Alentejo), São Mamede do Sadão (concelho de Grândola).

Etimologia: Incerta

[DISPUTADO] A origem do nome Sado / Sadão permanece obscura e remonta provavelmente a um substrato pré-romano (possivelmente protocéltico ou ainda mais antigo). O principal etimologista português José Pedro Machado (Dicionário Onomástico Etimológico da Língua Portuguesa) rejeita a hipótese de uma derivação do latim *Salatus (relacionado com sal), apesar de o comércio do sal ter sido central para a região. A forma moderna abreviada Sado suplantou a forma histórica Sadão no século XVIII.

Arrábida

O nome da Serra da Arrábida e do parque natural homónimo é de origem árabe.

Ribat – O Mosteiro Fortificado Islâmico

A palavra Arrábida deriva do árabe al-rābita, por sua vez derivado do verbo rabata – “ligar”, “atar”. Da mesma raiz provém a palavra ribat (árabe: ribāṭ) – originalmente uma pequena estrutura fortificada na fronteira dos territórios muçulmanos, que servia simultaneamente como posto militar avançado e local de retiro religioso. Os monges-guerreiros que habitavam os ribats eram denominados murābiṭūn (daí “Almorávidas”, a dinastia governante do Magrebe).

Com o tempo, os ribats perderam a sua função militar e evoluíram para centros de piedade sufi e eremitismo. Na Península Ibérica, a raiz árabe deu origem a numerosos topónimos: Rábida, Ràpita, Arrábida.

De Ribat a Mosteiro

É um facto notável que o território nomeado a partir de um “mosteiro fortificado islâmico” tenha vindo posteriormente a albergar o Convento Franciscano da Arrábida (fundado em 1542) – um equivalente cristão do retiro eremítico. Deste modo, o nome revelou-se profético: o lugar que os árabes haviam designado como “retiro” permaneceu como tal sob uma fé diferente.

Tróia

A Península de Tróia, situada do outro lado do estuário do Sado em relação a Setúbal, era conhecida na Antiguidade como Acala e constituía originalmente uma ilha. O seu nome romano estava associado a Cetobriga – o complexo industrial que produzia garum.

Uma Ligação à Troia Antiga?

[DISPUTADO] A origem do nome moderno Tróia permanece objeto de debate. Os humanistas quinhentistas Gaspar Barreiros e André de Resende, que primeiro descreveram as ruínas da península, identificaram-nas erroneamente com Cetobriga. Existe a hipótese de que o nome tenha surgido entre os eruditos renascentistas, inclinados a atribuir nomes clássicos a sítios arqueológicos recém-descobertos. A escala da destruição na península pode ter evocado associações com a queda da lendária Troia – daí o nome “Troia Portuguesa” que se fixou.

[NAO VERIFICADO] Segundo outra teoria, o topónimo poderá ter uma origem mais antiga, sem relação com a Troia grega; contudo, não foi encontrada documentação que sustente esta hipótese.

Palmela

A vila de Palmela, situada a norte de Setúbal, recebeu o seu nome na época romana.

O Fundador Romano

O topónimo deriva do nome do estadista romano Aulus Cornelius Palma Frontonianus, duas vezes cônsul (99 e 109 d.C.), que exerceu funções de governador da Hispânia Tarraconense por volta de 100 d.C. e terá fortificado este local. A forma latina Palmella foi gradualmente transformada no português Palmela.

[NAO VERIFICADO] Alguns investigadores apontam para um povoamento anterior, datado de aproximadamente 310 a.C., que terá sido posteriormente fortificado pelo pretor romano. Após os romanos, o local foi ocupado sucessivamente pelos visigodos e depois pelos muçulmanos, que expandiram significativamente a fortaleza nos séculos X–XII.

Azeitão

O nome Azeitão, uma freguesia a oeste de Setúbal célebre pelo seu queijo e pelo Moscatel, é de origem árabe.

Azeite no Nome

A palavra deriva do árabe az-zayt – “azeite”, “sumo de azeitona”. Da mesma raiz o português herdou as palavras azeite e azeitona. O sufixo -ão em português denota frequentemente um lugar associado a um determinado produto ou atividade. Assim, Azeitão significa literalmente “o lugar onde se produz azeite” ou “a terra das oliveiras”.

A etimologia está em consonância com a história da região: os olivais são cultivados nas encostas da Arrábida desde a época do domínio mouro e continuam a fazer parte da paisagem até aos dias de hoje.

Bairros de Setúbal

Fontainhas

Fontainhas é o histórico bairro piscatório de Setúbal, povoado a partir do século XVII. O nome deriva do português fontainha – diminutivo de fonte. Fontainhas significa literalmente “pequenas fontes” – aparentemente, o bairro situava-se num local onde brotavam nascentes do solo.

Bonfim

O nome do bairro do Bonfim deriva do português Bom Fim – “bom desfecho”, “resultado abençoado”. Trata-se de um topónimo religioso típico, associado ao culto do Senhor do Bonfim – uma das invocações a Jesus Cristo amplamente difundida em Portugal e no Brasil. [NAO VERIFICADO] Em Setúbal, o bairro terá provavelmente recebido o seu nome de uma capela ou igreja dedicada ao Senhor do Bonfim.

Outão

Outão situa-se na entrada do estuário do Sado, onde se ergue o Forte de Santiago do Outão. A palavra outão deriva do antigo galego-português outo com o sufixo aumentativo -ão. Por sua vez, outo remonta ao latim altus – “alto”. Assim, Outão significa “lugar alto” ou “ponto elevado” – uma descrição adequada do promontório na entrada da baía. A estrutura mais antiga conhecida neste local é uma torre de vigia e farol mandados erguer por ordem de D. João I em 1390.

As Praias da Arrábida

As praias ao longo da costa da Serra da Arrábida ostentam nomes portugueses evocativos, enraizados na paisagem local e no ambiente natural circundante.

Figueirinha (Praia da Figueirinha)

O nome deriva de figueirinha – diminutivo de figueira. Literalmente: “uma pequena figueira”. A praia deve o seu nome às figueiras bravas que outrora cresciam em abundância nas imediações.

Galapinhos e Galapos (Praia dos Galapinhos, Praia dos Galapos)

[NAO VERIFICADO] A etimologia dos nomes das praias Galapinhos e Galapos é obscura. Uma hipótese relaciona-os com a palavra portuguesa galápago – “tartaruga” (cf. espanhol galápago, que deu nome às Ilhas Galápagos). O sufixo -inhos é um diminutivo plural, pelo que Galapinhos poderia significar “pequenas tartarugas” ou “lugar de tartarugas pequenas”. Todavia, não foi encontrada documentação convincente que sustente esta ligação.

Portinho da Arrábida

O nome significa literalmente “pequeno porto da Arrábida”. Portinho é o diminutivo de porto. O local serviu historicamente como ancoradouro secundário do porto de Setúbal, onde os pescadores instalavam os seus apetrechos e exerciam a sua atividade em determinadas estações do ano, formando um povoamento temporário.

Ruas e Praças

Os nomes das ruas de Setúbal constituem uma topografia memorial da cidade – um mapa dos seus heróis culturais e acontecimentos históricos.

Praça do Bocage

A praça principal da cidade deve o seu nome a Manuel Maria Barbosa du Bocage – o maior poeta de Setúbal. Uma estátua em mármore branco do poeta (da autoria do escultor João Carlos dos Reis) foi solenemente inaugurada a 21 de dezembro de 1871 – aniversário da morte do poeta. O monumento tem doze metros de altura: sobre uma base de quatro degraus octogonais ergue-se uma coluna coríntia coroada por uma figura de dois metros de Bocage, com a pena na mão direita.

Avenida Luísa Todi

A principal avenida ribeirinha de Setúbal recebeu a sua designação atual em 1895, em homenagem a Luísa Todi – cantora lírica nascida em Setúbal que alcançou renome por toda a Europa. Antes da mudança de nome, a artéria era conhecida como Rua da Praia. A reconstrução da avenida teve início no verão de 1848: a rua foi nivelada, pavimentada e arborizada.

Outros Topónimos Memoriais

As ruas e praças de Setúbal homenageiam figuras associadas à cidade e à história portuguesa em geral. Entre elas:

O Legado Árabe na Toponímia

O período mouro (séculos VIII–XII) deixou uma marca profunda na toponímia da região de Setúbal. Para além de Arrábida (de al-rābita) e Azeitão (de az-zayt) já abordados, as raízes árabes podem ser identificadas em diversos outros topónimos:

Panorama de Setubal em 1669

  • Alcácer do Sal – do árabe al-qaṣr (“fortaleza”), uma vila no curso superior do Sado em relação a Setúbal
  • Albarquel – [NAO VERIFICADO] presumivelmente de uma raiz árabe que designa um lugar fortificado; o Forte de Albarquel ergue-se na frente ribeirinha de Setúbal

Esta densidade de topónimos árabes atesta a importância da região para o al-Andalus muçulmano – postos avançados fortificados, ribats e propriedades agrícolas foram aqui estabelecidos ao longo de vários séculos.

O Substrato Pré-Romano

Para além da raiz protocéltica no nome de Cetobriga e da origem provavelmente pré-romana do hidrónimo Sado (Sadão), [NAO VERIFICADO] a região pode preservar vestígios de estratos linguísticos ainda mais antigos – fenícios e turdetanos. Os Turdetanos, que habitavam o sudoeste da Península Ibérica antes da chegada dos romanos, fundaram Cetobriga, porém a sua língua permanece pouco estudada, sendo difícil identificar com segurança topónimos turdetanos na paisagem atual.

Conclusão

A toponímia da região de Setúbal constitui uma espécie de corte geológico em que cada camada corresponde a uma época: o substrato pré-romano (Sadão, Caetobrix), as formas latinas (Cetobriga, Palmella, Callipus), as sobreposições árabes (Shatubar, al-rābita, az-zayt), as transformações portuguesas medievais (Setúbal, Arrábida, Azeitão) e as designações memoriais posteriores (Praça do Bocage, Avenida Luísa Todi). A cidade conta a sua própria história através dos seus nomes – basta saber lê-los.

Fontes das imagens
  • toponymy-brasao-setubal.webp — Brasão de armas de Setúbal. Autor: Desconhecido. Licença: Domínio público. Fonte
  • toponymy-setubal-1669-panorama.webp — Panorama de Setúbal em 1669. Autor: Desconhecido (século XVII). Licença: Domínio público. Fonte
  • toponymy-avenida-luisa-todi.webp — Avenida Luísa Todi. Autor: GualdimG. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte

Ver também

Avenida Luisa Todi

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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