Arqueologia Subaquática de Tróia
No fundo do estuário do Sado e nas águas costeiras da Península de Tróia jazem vestígios de dois milénios de vida marítima: ânforas romanas, restos de fábricas de salga de peixe, embarcações naufragadas de diferentes épocas. A arqueologia subaquática de Tróia complementa o panorama fornecido pelas ruínas terrestres — um dos maiores complexos industriais de processamento de peixe do Império Romano.

O complexo romano de Tróia
Escala de produção
As ruínas romanas de Tróia representam o maior complexo conhecido de fábricas de salga de peixe (cetariae) no Império Romano. Durante o seu apogeu (séculos I–V d.C.), produzia-se aqui garum — um molho de peixe fermentado que constituía uma das mercadorias mais valiosas do comércio romano.
O complexo incluía:
- Tanques de salga (cetariae) — aproximadamente 182 tanques de pedra distribuídos por mais de 25 oficinas, destinados à preparação de garum e à salga de peixe
- Armazéns para ânforas e produtos acabados
- Zonas residenciais — termas, mosaicos, uma necrópole
- Um cais para carregamento em embarcações comerciais
Os produtos eram exportados para todo o Mediterrâneo, principalmente para Roma.
Ligação a Cetobriga
Na margem oposta do estuário erguia-se Cetobriga — uma cidade romana que servia provavelmente como centro administrativo do complexo industrial de Tróia. O nome “Cetobriga” poderá derivar do céltico ceto-briga (“fortaleza sobre a água”), sublinhando o vínculo do povoado com o mar.
Achados subaquáticos
Ânforas
O estuário do Sado e as águas costeiras de Tróia constituem uma fonte rica de achados arqueológicos. Entre os mais significativos:
- Ânforas Dressel 14 — o contentor-padrão para o transporte de garum e peixe salgado, produzido em massa na península. Fragmentos e exemplares completos foram descobertos tanto em terra como no leito marinho
- Ânforas Almagro 51c — um tipo mais tardio (séculos III–V), utilizado para a exportação de produtos piscícolas no período romano tardio
- Pedras de lastro e pedras de âncora de embarcações comerciais
[NÃO VERIFICADO] O número exato de achados subaquáticos e a sua catalogação sistemática requerem a consulta das bases de dados da DGPC (Direção-Geral do Património Cultural).
Naufrágios
Nas águas do estuário do Sado e na zona costeira entre Tróia e Setúbal, foram descobertos restos de embarcações de diferentes períodos. O fundo arenoso e as águas relativamente calmas do estuário contribuíram para a preservação de estruturas em madeira.
[NÃO VERIFICADO] Não foram encontradas informações pormenorizadas sobre naufrágios específicos na zona de Tróia em fontes abertas. Os dados poderão estar disponíveis através do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS).
Métodos de investigação
Arqueologia subaquática portuguesa
A arqueologia subaquática em Portugal é coordenada pelo CNANS — Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, integrado na DGPC. O centro coordena:
- O registo do património cultural subaquático
- O licenciamento de trabalhos arqueológicos subaquáticos
- A criação de uma base de dados nacional de achados
Condições específicas da zona de Tróia
O estuário do Sado cria condições particulares para a arqueologia subaquática:
- Baixa visibilidade — o fundo lodoso e as correntes de maré limitam a visibilidade a poucos metros
- Fundo dinâmico — a movimentação de areia expõe e volta a cobrir periodicamente os artefactos
- Impacto biológico — organismos marinhos (em particular o busano Teredo navalis) destroem as estruturas de madeira
- Preservação anaeróbia — os objetos enterrados em sedimentos lodosos podem conservar-se significativamente melhor
Importância
A arqueologia subaquática de Tróia reveste-se de importância por diversas razões:
- Complementa os dados terrestres — enquanto as ruínas em terra revelam a produção de garum, os achados subaquáticos (ânforas, estruturas de cais, embarcações) documentam o transporte e o comércio
- O porto mais antigo do estuário — os achados confirmam a navegação contínua no estuário do Sado desde o século I d.C., estabelecendo a ligação entre o período romano e o porto moderno
- Conexões comerciais — a tipologia das ânforas permite reconstituir as rotas de exportação (Roma, Norte de África, Gália)
Cronologia
| Período | Evento |
|---|---|
| Séc. I d.C. | Início da produção industrial de garum em Tróia |
| Séc. I–V | Apogeu do complexo de salga de peixe |
| Séc. III–V | Transição para as ânforas Almagro 51c |
| Séc. V–VI | Declínio e abandono do complexo |
| Década de 1850 | Primeiras descrições arqueológicas das ruínas de Tróia |
| 1956–1962 | Escavações sistemáticas |
| Décadas de 1970–1990 | Desenvolvimento da arqueologia subaquática em Portugal |
| 2006+ | Investigação moderna (projeto Tróia Resort) e conservação do complexo |
Ver também
Fontes das imagens
- cetariae-troia-roman-ruins.webp — Tanques romanos de salga de peixe (cetariae) na Península de Tróia. Autor: Semsjp. Licença: Domínio Público. Fonte
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