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As Mulheres na Indústria Conserveira

As Mulheres na Indústria Conserveira

Verificado

Chamavam-lhes conserveiras, arranjadoras, operárias. Constituíam noventa e cinco por cento da mão de obra nas fábricas de sardinha de Setúbal – dezenas de milhares de mulheres cujas mãos alimentaram a indústria conserveira durante mais de um século. Trabalhavam do nascer ao pôr do sol, ganhavam um terço do que ganhavam os homens, começavam em crianças e enterravam os seus mortos na Avenida Luísa Todi. Esta é a história das mulheres que construíram e sustentaram a indústria conserveira – e que, levadas ao limite, paralisaram a cidade.

A Mão de Obra Feminina

Arranjadoras: A Operação Central

Nas fábricas conserveiras de Setúbal, a divisão do trabalho era absoluta. Os homens iam ao mar pescar e soldavam as latas. As mulheres faziam tudo o resto – e tudo o resto era a maior parte do trabalho.

As mulheres eram classificadas por tarefa, mas as mais numerosas e mais essenciais eram as arranjadoras. O seu trabalho consistia no processamento manual integral do peixe: descabeçar, estripar, lavar e embalar as sardinhas nas latas à mão. Cada sardinha tinha de ser colocada num padrão preciso – cabeça contra cauda, dispostas em camadas – a uma velocidade que fazia a diferença entre ganhar o suficiente para comer e passar fome, uma vez que o pagamento era feito à peça.

Outras funções femininas nas fábricas incluíam:

  • Descabecadeiras – descabeçavam e estripavam o peixe
  • Embaladeiras – embalavam as sardinhas processadas nas latas
  • Lavadeiras – lavavam o peixe e limpavam as superfícies de trabalho
  • Estivadoras de lata – empilhavam e transportavam as latas acabadas

No início do século XX, as mulheres constituíam aproximadamente 95% da mão de obra fabril no setor conserveiro de Setúbal. No auge da indústria, na década de 1920, isto significava dezenas de milhares de mulheres numa única cidade, concentradas ao longo da frente ribeirinha em fábricas que se estendiam do bairro das Fontainhas até ao extremo oriental da cidade.

Raparigas na Fábrica

O trabalho nas conserveiras começava cedo. Raparigas de apenas nove anos entravam nas fábricas, desempenhando tarefas auxiliares – lavar peixe, varrer o chão, carregar cestos de sardinhas. Aos doze ou treze anos já trabalhavam ao lado das mulheres adultas nas mesas de embalagem.

O trabalho infantil não era oculto nem excecional – era estrutural. As famílias dependiam do rendimento, e os donos das fábricas dependiam da mão de obra barata. Não existia escolaridade obrigatória que pudesse manter as raparigas fora das fábricas; a educação, para as filhas das operárias conserveiras, era um luxo que poucas podiam suportar e menos ainda eram incentivadas a procurar.

Condições de Trabalho

“De Sol a Sol”

A jornada de trabalho nas fábricas de sardinha seguia o princípio “De Sol a Sol” – do nascer ao pôr do sol. Na prática, isto significava 14 a 16 horas de trabalho em pé, com apenas duas pausas curtas num total de aproximadamente duas horas.

Mas a verdadeira crueldade do sistema residia na sua imprevisibilidade. As fábricas funcionavam com um sistema de sirene: cada conserveira tinha a sua sirene distintiva e, quando chegava uma carga de sardinhas – fosse ao amanhecer ou às três da manhã –, a sirene soava e as mulheres tinham de se apresentar imediatamente. Não havia horário fixo, nem aviso prévio, nem direito a recusar. Uma mulher que não aparecesse quando a sirene da sua fábrica tocava arriscava-se a perder definitivamente o seu lugar.

As operárias conserveiras viviam em estado de prontidão permanente. O sono era interrompido, a vida doméstica organizada em torno da possibilidade de a sirene soar a qualquer hora. As mulheres que amamentavam levavam os filhos para a fábrica ou deixavam-nos com vizinhas. A fábrica não se adaptava à maternidade; a maternidade tinha de se adaptar à fábrica.

Salários: A Desigualdade de Género

A disparidade salarial entre homens e mulheres na indústria conserveira não era subtil:

Função Salário diário
Trabalhadores masculinos (soldadura, mecânica) ~600 réis
Trabalhadoras femininas (arranjadoras, embaladeiras) ~220 réis

As mulheres ganhavam aproximadamente 37% do salário dos homens – e isto por um trabalho que não era menos exigente e que era frequentemente mais desgastante fisicamente (14 horas em pé, mãos imersas em salmoura e óleo de peixe, movimentos repetitivos causadores de lesões crónicas).

A justificação oferecida pelos donos das fábricas era a habitual da época: o trabalho das mulheres era “mais leve”, as mulheres tinham “menores necessidades” e, em todo o caso, o salário de uma mulher era “suplementar” ao rendimento do marido. Na realidade, muitas operárias conserveiras eram as únicas ou as principais provedoras das suas famílias – viúvas, mulheres com maridos ausentes ou desempregados, mães solteiras.

Saúde e o Corpo

O desgaste físico do trabalho era severo:

  • Lesões crónicas nas mãos – cortes provocados por espinhas de peixe, danos cutâneos pelo contacto prolongado com sal e óleo
  • Problemas respiratórios – pela inalação constante de odores a peixe, fumo e vapores do processo de soldadura
  • Lesões musculoesqueléticas – por estar de pé o dia inteiro, flexões repetitivas, transporte de cestos pesados
  • Ausência de cuidados médicos – não existia baixa por doença nem qualquer forma de assistência médica para as trabalhadoras

As mulheres envelheciam rapidamente nas conserveiras. Relatos da época descrevem operárias conserveiras na casa dos quarenta com aspeto de décadas a mais, mãos marcadas por cicatrizes e inchadas, costas permanentemente curvadas.

A Greve de 1911 e a Morte de Mariana Torres

Contexto

Em 1911, as trabalhadoras conserveiras de Setúbal tinham suportado décadas de exploração com proteção legal mínima. Portugal encontrava-se sob a Primeira República (proclamada em outubro de 1910), e o novo regime trouxera esperanças de reforma – esperanças que os donos das fábricas não tinham qualquer intenção de concretizar.

Em março de 1911, as operárias conserveiras de Setúbal entraram em greve. As suas reivindicações eram diretas: melhores salários, horários mais curtos, o fim dos abusos mais arbitrários do sistema de sirene. A greve foi liderada maioritariamente por mulheres, e foram mulheres que marcharam pelas ruas de Setúbal a exigir os seus direitos.

Os Fuzilamentos de Setúbal

A 13 de março de 1911, a Guarda Republicana abriu fogo sobre os trabalhadores em greve na Avenida Luísa Todi – a avenida central de Setúbal, que tem o nome da célebre soprano. Entre os mortos encontrava-se Mariana Torres, uma operária conserveira de 42 anos e mãe.

O tiroteio – conhecido como os Fuzilamentos de Setúbal – provocou uma onda de choque em todo o país. Uma república que prometera defender os direitos do povo estava a matar mulheres desarmadas na rua. A indignação foi imediata e profunda.

Consequências: A Primeira Greve Geral em Portugal

A morte de Mariana Torres e das suas companheiras desencadeou uma cascata de solidariedade:

  • A 20 de março de 1911, foi declarada uma greve geral – a primeira greve geral da história de Portugal
  • Trabalhadores de todo o país abandonaram os postos de trabalho em solidariedade com as operárias conserveiras de Setúbal
  • As mulheres das conserveiras recusaram-se a regressar ao trabalho mesmo depois de os trabalhadores masculinos de outros setores terem retomado a atividade – mantendo-se firmes até que as suas reivindicações centrais fossem pelo menos parcialmente atendidas

A greve de 1911 estabeleceu um padrão que viria a definir a história laboral de Setúbal durante décadas: as trabalhadoras como o elemento mais determinado, mais combativo e mais resiliente da mão de obra. Quando os homens regressaram, as mulheres mantiveram a linha.

Sob o Estado Novo

A Tentativa de Greve de 1934

A instauração do regime do Estado Novo sob Salazar (formalmente a partir de 1933) pôs fim ao movimento sindical livre. Os sindicatos independentes foram dissolvidos e substituídos por sindicatos nacionais controlados pelo Estado – organismos corporativistas concebidos para impedir greves e canalizar as reivindicações dos trabalhadores para procedimentos burocráticos inofensivos.

Em janeiro de 1934, foi feita uma tentativa de organizar uma greve geral revolucionária contra o regime fascista. Em Setúbal, onde as fábricas conserveiras empregavam milhares de mulheres, o potencial de mobilização era enorme. Contudo, a PIDE (polícia secreta) descobriu a conspiração: 60 bombas artesanais foram encontradas na cidade a 15 de janeiro, e os organizadores foram detidos na noite de 17 de janeiro.

A greve prosseguiu de forma enfraquecida. A repressão foi dura: 696 detenções em todo o país, julgamentos em massa, exílio para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Em Setúbal, os trabalhadores suspeitos de participação enfrentaram o despedimento e a inclusão em listas negras – para mulheres com famílias a alimentar, isto equivalia a uma sentença de miséria.

Corporativismo e Sindicatos Controlados

Sob o Estado Novo, as operárias conserveiras foram privadas da sua arma mais importante: o direito de se organizar livremente. Os sindicatos nacionais substituíram os sindicatos genuínos, e qualquer tentativa de organização independente era tratada como atividade subversiva.

Contudo, as mulheres das conserveiras nunca foram totalmente subjugadas. Ao longo de todo o período da ditadura, eclodiram protestos espontâneos nas fábricas – abrandamentos de produção, paragens breves, recusas coletivas de aceitar taxas de trabalho à peça particularmente exploradoras. Cada um desses atos acarretava o risco de detenção e despedimento, mas a tradição de resistência, transmitida de mãe para filha no chão da fábrica, revelou-se impossível de erradicar por completo.

Vigilância da PIDE

As fábricas conserveiras de Setúbal eram alvo constante de vigilância da PIDE. Informadores estavam infiltrados entre as trabalhadoras, e qualquer sinal de descontentamento organizado era comunicado. As mulheres trabalhavam sob um duplo fardo: exploradas pelo sistema fabril e vigiadas pelo Estado. Na cultura política da Cidade Vermelha, as operárias conserveiras eram simultaneamente a sua espinha dorsal e os seus membros mais vulneráveis.

Declínio e Desaparecimento

O Encerramento das Fábricas

O declínio da indústria conserveira em Setúbal começou na década de 1970 e acelerou ao longo das décadas de 1980 e 1990. Das aproximadamente 132 fábricas no auge, em 1919, o número foi diminuindo progressivamente. A depleção dos stocks de sardinha, a concorrência estrangeira, o equipamento obsoleto e a entrada de Portugal na Comunidade Europeia (1986) contribuíram para o colapso.

Em meados da década de 1990, as duas últimas fábricas conserveiras de Setúbal encerraram as suas portas. Com elas desapareceu um mundo inteiro – não apenas uma indústria, mas um sistema social, uma cultura feminina de trabalho, uma teia de saberes transmitidos ao longo de gerações.

As mulheres que tinham passado as suas vidas nas fábricas viram-se sem trabalho, sem pensões (muitas nunca tinham sido formalmente registadas) e sem o reconhecimento social que mereciam. Tinham construído a indústria que construiu a cidade, e a cidade tinha-as largamente esquecido.

O Custo Humano

O fim da indústria conserveira foi particularmente devastador para as operárias conserveiras mais velhas:

  • Muitas não tinham registos formais de emprego, tornando-as inelegíveis para pensões do Estado
  • Competências apuradas ao longo de décadas – os movimentos precisos das mãos, o conhecimento do peixe – não tinham valor na nova economia
  • Bairros inteiros que tinham girado em torno das fábricas perderam a sua base económica
  • A identidade coletiva forjada pelo trabalho partilhado e pela luta dissolveu-se à medida que as fábricas se esvaziaram

Legado e Memória

Museu do Trabalho Michel Giacometti

O mais importante guardião institucional da memória das operárias conserveiras é o Museu do Trabalho Michel Giacometti, instalado na antiga fábrica conserveira Perienes. Inaugurado em 1995 – o mesmo ano em que as últimas fábricas encerraram –, o museu preserva as ferramentas, documentos e testemunhos orais da era conserveira.

A exposição permanente “Da Lota à Lata” reconstrói toda a cadeia de produção, com particular atenção aos papéis desempenhados pelas mulheres. Equipamento autêntico, fotografias e depoimentos de antigas operárias conserveiras devolvem vida ao chão da fábrica.

Em 1998, o museu recebeu o Prémio do Museu do Conselho da Europa – reconhecimento não apenas da qualidade do museu em si, mas da importância da história que preserva.

Mariana Torres: De Vítima a Símbolo

Durante mais de um século, a memória de Mariana Torres – a operária conserveira morta na Avenida Luísa Todi em 1911 – foi preservada sobretudo pela tradição oral e pelas comemorações do movimento operário. Em 2016, a cidade de Setúbal erigiu uma estátua de Mariana Torres, conferindo forma física permanente à memória da greve de 1911 e dos sacrifícios das operárias conserveiras.

A estátua permanece como um lembrete de que os direitos de que os trabalhadores hoje usufruem – horários limitados, salários mínimos, o direito à greve – foram conquistados ao custo de vidas como a dela.

Teatro e Memória Cultural

A história das operárias conserveiras encontrou nova vida no teatro português:

  • “Mulheres de SAL” – uma produção teatral que explora as vidas, o trabalho e as lutas das mulheres das fábricas conserveiras
  • “A Casa de Emília” – uma peça que traz ao palco as mulheres da indústria conserveira do século XX, recorrendo a testemunhos orais e investigação arquivística para reconstruir o quotidiano nas fábricas

Estas produções funcionam como uma forma de restituição cultural – devolvendo à consciência pública uma história que as narrativas oficiais durante muito tempo ignoraram ou reduziram a notas de rodapé na história da “indústria conserveira” enquanto fenómeno económico abstrato. Por trás da indústria estavam mulheres – mulheres com nome, concretas, individuais – e as suas histórias merecem ser contadas.

Significado Histórico

A história das mulheres na indústria conserveira de Setúbal é significativa em vários planos:

  1. História do trabalho – as operárias conserveiras estiveram entre as primeiras e mais combativas trabalhadoras industriais em Portugal, pioneiras na ação grevista e na resistência organizada décadas antes do sufrágio feminino
  2. História de género – as fábricas conserveiras expuseram a desigualdade estrutural do capitalismo industrial: mulheres a realizar a maior parte do trabalho por uma fração do salário, sem proteção legal nem representação política
  3. História urbana – as operárias conserveiras moldaram o caráter físico, social e político de Setúbal, contribuindo para a sua identidade enquanto Cidade Vermelha com profundas tradições de resistência
  4. História nacional – a greve de 1911 e os Fuzilamentos de Setúbal desencadearam a primeira greve geral em Portugal, fazendo das operárias conserveiras protagonistas na história mais ampla da democracia portuguesa

Datas-Chave

Data Acontecimento
1854 Primeira produção conserveira documentada em Setúbal
Década de 1880 Rápida expansão das fábricas; as mulheres tornam-se a força de trabalho dominante
13 de março de 1911 Fuzilamentos de Setúbal: Mariana Torres morta na Avenida Luísa Todi
20 de março de 1911 Primeira greve geral da história de Portugal, desencadeada pelos acontecimentos de Setúbal
1919 Auge da indústria: aproximadamente 132 fábricas em Setúbal
18 de janeiro de 1934 Tentativa de greve geral sob o Estado Novo; detenções em massa
1933–1974 Período do Estado Novo: sindicatos livres substituídos por sindicatos nacionais
Décadas de 1970–1990 Declínio e encerramento das fábricas conserveiras
1995 Encerramento das últimas fábricas; inauguração do Museu do Trabalho
1998 Museu do Trabalho recebe o Prémio do Museu do Conselho da Europa
2016 Inauguração da estátua de Mariana Torres em Setúbal

Ver Também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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