Parque Marinho Professor Luiz Saldanha

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Foto: Pepolino83 / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0
O Parque Marinho Professor Luiz Saldanha (Parque Marinho Professor Luiz Saldanha) é a primeira área marinha protegida de Portugal continental. Estendendo-se ao longo da costa da Serra da Arrábida, abrange 53 km² de oceano e 38 km de litoral. Situado na junção das zonas biogeográficas atlântica e mediterrânica, o parque acolhe mais de 1.100 espécies marinhas. Faz parte da rede Natura 2000 e é um componente integral do Parque Natural da Arrábida.
História
A primeira proposta
Em 1965, o Professor Luiz Saldanha e os seus colegas do Centro Português de Atividades Subaquáticas (CPAS) apresentaram ao Ministério da Marinha uma proposta para a criação de uma reserva marinha ao longo da costa da Arrábida. A proposta foi rejeitada.
Um parque sem o mar
Quando o Parque Natural da Arrábida foi estabelecido em 1976 (Decreto 622/76), abrangia apenas a área terrestre. As águas marinhas permaneceram desprotegidas durante mais de duas décadas.
Estabelecimento do parque marinho
Em 14 de outubro de 1998, o Decreto Regulamentar n.º 23/98 estabeleceu o parque marinho como componente do Parque Natural da Arrábida. Recebeu o nome do Professor Luiz Saldanha, que tinha falecido no ano anterior (16 de novembro de 1997) sem ver a sua visão concretizada.
Plano de gestão
A regulamentação completa entrou em vigor em 2005 com a aprovação do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (POPNA, Resolução do Conselho de Ministros n.º 141/2005), após dois a três anos de consulta pública e protestos acesos de interessados — principalmente pescadores e proprietários de embarcações recreativas.
Professor Luiz Saldanha
Luiz Vieira Caldas Saldanha (1937-1997) foi um biólogo marinho e ictiologista português que dedicou a sua carreira ao estudo da fauna marinha do Atlântico nordeste.
| Facto | Detalhes |
|---|---|
| Nascimento | 16 de dezembro de 1937, Lisboa |
| Falecimento | 16 de novembro de 1997 |
| Formação | Doutoramento em biologia marinha (tese sobre a fauna marinha da Arrábida) |
| Cargos | Professor Catedrático da Universidade de Lisboa (desde 1979); Diretor do Laboratório Marítimo da Guia em Cascais (1974-1997); Presidente do INIP |
| Descobertas | Participou na descoberta das primeiras fontes hidrotermais e montes submarinos dos Açores |
| Conservação | Presidente da Liga para a Proteção da Natureza (1985-1987) |
Desde 1969, Saldanha participou em expedições de mar profundo a bordo de submersíveis tripulados — o Archimède e o Nautile franceses, e o Alvin americano. Formou gerações de biólogos marinhos que trabalham em Portugal e no estrangeiro atualmente.
Área e zonamento
Factos principais
| Parâmetro | Valor |
|---|---|
| Área | 53,11 km² |
| Litoral | 38 km (da praia da Figueirinha à praia da Foz, a norte do Cabo Espichel) |
| Profundidades | até 100 m |
| Tipos de fundo | Rochoso e arenoso |
| Administração | ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) |
| Estatuto | SIC Natura 2000; parte do Parque Natural da Arrábida |
Sistema de zonamento
Desde 2005, as águas do parque encontram-se divididas em zonas com três níveis de proteção:
| Tipo de zona | Regras |
|---|---|
| Proteção total (Proteção Total) | Todas as atividades proibidas, incluindo pesca. As embarcações devem manter-se pelo menos a 0,25 milhas náuticas da costa. Acesso apenas para monitorização científica |
| Proteção parcial (Proteção Parcial, 4 zonas) | Acesso limitado; mergulho através de operadores certificados; pesca regulamentada |
| Proteção complementar (Proteção Complementar, 3 zonas) | Menos restritiva; zona-tampão |
A pesca comercial com redes de emalhar e linhas de mão é permitida apenas a mais de 0,25 milhas náuticas da costa; a captura de lulas e polvos — a mais de 200 m da costa.
Biodiversidade
Contexto biogeográfico
A costa da Arrábida situa-se na fronteira de transição entre as zonas biogeográficas atlântica e mediterrânica. A foz do rio Tejo (aproximadamente 30 km a norte) serve como fronteira aproximada: a sul, o número de espécies mediterrânicas aumenta acentuadamente. Para muitas delas, a Arrábida representa o limite norte de distribuição.
Principais grupos de espécies
Peixes: sargos (Diplodus spp.), serrano (Serranus cabrilla), bodião-arco-íris (Coris julis), e 16 espécies de grandes meso e macrocarnívoros particularmente vulneráveis à pesca submarina.
Mamíferos: golfinho-roaz (Tursiops truncatus) e golfinho-comum (Delphinus delphis) — habitantes do Estuário do Sado adjacente.
Invertebrados: polvo (o principal recurso comercial da frota licenciada), chocos, santola, anémonas-do-mar, ouriços-do-mar.
Algas e ervas marinhas:
- Algas marinhas: 4 das 13 espécies europeias de Laminaria, incluindo Laminaria ochroleuca — populações com elevada diversidade genética que existem aqui há milhares de anos.
- Erva marinha Zostera marina: pradarias que servem de berçário para peixes juvenis e invertebrados.
Perda e recuperação
As pradarias de ervas marinhas perto do Portinho da Arrábida encolheram de 30 hectares em 1983 para 0,006 hectares em 2006 — destruição quase total causada pela pesca e navegação recreativa. Estas eram as últimas pradarias verdadeiramente marinhas de Zostera na costa atlântica da Ibéria.
Projetos de restauro
LIFE-BIOMARES (2007-2013)
O maior projeto de restauro de ecossistemas na história do parque:
- 62 parcelas-piloto; 5.276 tufos de ervas marinhas transplantados através de 7 hectares
- As taxas de sobrevivência foram baixas (tempestades e pastoreio por peixes), mas a recuperação natural com base em sementes de Z. marina mostrou taxas de crescimento elevadas em áreas não perturbadas
- O projeto tornou-se um modelo para a criação de reservas marinhas dentro da rede Natura 2000
Projetos de investigação 2017-2021
Estudos no parque marinho e ao longo da costa alentejana demonstraram um “efeito de reserva”: aumento de biomassa e abundância de peixes de recife em zonas totalmente protegidas dentro de 3-4 anos após o seu estabelecimento.
Ameaças
- Pesca ilegal — particularmente dragagem de bivalves
- Pressão recreativa — ancoragem e amarração danificam habitats bentónicos
- Alterações climáticas — aumento da temperatura da água e diminuição de nutrientes ameaçam populações de algas marinhas no limite sul da sua distribuição
- Espécies invasoras — o impacto de algas exóticas na ecologia de peixes encontra-se em estudo
Mergulho e recreação
O mergulho no parque é permitido através de operadores certificados. O principal centro de mergulho na região é a Haliotis Sesimbra (certificada PADI). Entre os locais de mergulho notáveis incluem-se:
- Pedra do Leão — um arco subaquático a ~5 m de profundidade com cardumes de peixes
- Rio Gurara — um navio de carga nigeriano que naufragou em 1989; profundidade ~28-30 m
- Jardim das Gorgónias — um “jardim de gorgónias” com corais moles coloridos
O mergulho com tubo de respiração e o caiaque em zonas de proteção parcial requerem notificação à GNR (Guarda Nacional Republicana). Foram instaladas boias de amarração ecológicas; o número de embarcações recreativas é limitado.
Para mais informações sobre atividades aquáticas, consulte Desportos Aquáticos na Região da Arrábida.
Relação com o Parque Natural
O parque marinho é parte integral do Parque Natural da Arrábida. As montanhas da Serra da Arrábida influenciam diretamente o ecossistema marinho: as falésias calcárias estendem-se por baixo da água, criando recifes rochosos e enseadas abrigadas. Os três elementos florísticos encontrados em terra (euro-atlântico, mediterrânico e macaronésico) encontram-se espelhados na biodiversidade marinha do parque.
Em setembro de 2025, a Arrábida foi designada Reserva da Biosfera da UNESCO — um reconhecimento que engloba tanto os componentes terrestres como marinhos do parque.
Datas principais
| Ano | Acontecimento |
|---|---|
| 1965 | Luiz Saldanha propõe uma reserva marinha |
| 1976 | Parque Natural da Arrábida estabelecido (apenas terra) |
| 1997 | Falecimento do Professor Saldanha |
| 1998 | Parque Marinho Professor Luiz Saldanha estabelecido |
| 2005 | Plano de ordenamento com sistema de zonamento aprovado |
| 2007-2013 | Projeto de restauro LIFE-BIOMARES |
| 2025 | Designação de Reserva da Biosfera da UNESCO |

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Foto: Epinheiro / Wikimedia Commons / CC BY 3.0
Ver também
- Parque Natural da Arrábida
- Golfinhos do Sado
- Estuário do Sado
- Praia dos Galapinhos
- Desportos Aquáticos na Região da Arrábida
- Trilhos da Arrábida
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