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Geologia da Serra da Arrábida

Geologia da Serra da Arrábida

Verificado

A Serra da Arrábida é uma cordilheira na Península de Setúbal de excecional interesse geológico. As suas rochas calcárias da Era Mesozoica (períodos Jurássico e Cretácico) preservam a memória de antigos mares tropicais que cobriram este território há centenas de milhões de anos. Processos cársicos esculpiram aqui mais de uma centena de grutas e cavidades, enquanto descobertas paleontológicas — incluindo pegadas de dinossauros — ligam a história geológica da região aos processos globais que moldaram a Terra.

Serra da Arrábida vista da praia do Creiro

História geológica

A Era Mesozoica: nascimento dos calcários

Durante a Era Mesozoica (252-66 milhões de anos atrás), o território da moderna Península de Setúbal encontrava-se coberto por mares tropicais pouco profundos. Foi durante este período que se formaram as principais rochas da Arrábida.

Período Jurássico (201-145 milhões de anos atrás): Durante uma parte substancial do Jurássico, a área da Arrábida constituía um ecossistema marinho submerso sob o oceano. Em mares quentes e pouco profundos, acumulavam-se sedimentos carbonatados — as conchas de moluscos, corais, foraminíferos e outra fauna marinha. Estes sedimentos transformaram-se gradualmente em calcários dolomíticos — rochas carbonatadas brancas que atualmente formam a espinha dorsal da cordilheira.

No final do Jurássico (Oxfordiano Superior, ~160 milhões de anos atrás), um evento generalizado de emersão e processos cársicos produziram a célebre Brecha da Arrábida (Brecha da Arrábida) — uma brecha conglomerática intraformacional única de clastos carbonatados em várias tonalidades, unidos por um cimento de argila carbonatada-vermelha. Historicamente mal designada como “mármore da Arrábida” (mármore da Arrábida), esta pedra é na realidade uma brecha conglomerática do Jurássico Superior.

Período Cretácico (145-66 milhões de anos atrás): Durante este período, o território subsidiu, produzindo camadas alternadas de calcário, arenito e marga.

Tectónica: colisão de continentes

A singularidade geológica da Arrábida encontra-se ligada à sua posição na fronteira entre duas placas litosféricas — a Africana e a Eurasiática. A colisão destas placas, que começou no Cretácico Superior, levou a:

  • A elevação do fundo do mar e a formação da crista montanhosa
  • Dobramento e falhas nos estratos calcários
  • A modelação do relevo atual com as suas falésias caracteristicamente abruptas ao longo da encosta sul

A Serra da Arrábida é um território único na costa atlântica da Europa, demonstrando a extensão para oeste do Mar de Tétis e a formação do Mediterrâneo como resultado da colisão das placas africana-eurasiática. Isto torna a cordilheira um laboratório geológico natural de significado global.

Formação do relevo atual

A Serra da Arrábida atinge uma elevação máxima de 501 m (o cume do Formosinho). O flanco sul da cordilheira desce até ao oceano em falésias abruptas — a Serra do Risco, atingindo 381 m no seu pico (o Pincaro), constitui a falésia costeira mais alta da Europa continental.

A paisagem característica inclui:

  • Falésias e escarpas calcárias brancas
  • Gargantas e desfiladeiros profundos
  • Dolinas e algares cársicos
  • Grutas e cavidades de dimensão variável

Fenómenos cársicos

O mecanismo de carstificação

Os calcários da Arrábida encontram-se sujeitos a meteorização química — processos cársicos. A água da chuva saturada com dióxido de carbono dissolve lentamente a rocha carbonatada, criando formas características:

  • Carso de superfície: lapiás (lapiaz), dolinas, algares
  • Carso subsuperficial: grutas, cavidades, galerias subterrâneas, estalactites e estalagmites

As grutas da Arrábida

A cordilheira contém mais de 100 grutas, cavidades e cavidades subterrâneas, tornando-a uma das áreas espeleologicamente mais ricas de Portugal.

Gruta do Frade (Gruta do Frade)

A gruta mais conhecida da Arrábida é a Gruta do Frade (Gruta do Frade), descoberta em maio de 1996 pelo Centro de Espeleologia da Costa Azul (NECA) durante um levantamento costeiro. É a maior e mais complexa cavidade subterrânea da Serra da Arrábida:

  • Comprimento: 340 m linear, 40 m largura
  • Localização: ao nível do mar, na falésia da Recha d’Arcos
  • Espeleotemas: aproximadamente 40 tipos classificados de formações litoquímicas
  • Um sistema horizontal de galerias e condutas coincidindo com uma zona freática
  • O complexo geológico formou-se durante o Jurássico (180-160 milhões de anos atrás)

A gruta não se encontra aberta ao público em geral, a fim de preservar os seus frágeis ecossistemas subterrâneos. O acesso é difícil devido a condições atmosféricas, ondas e níveis de maré.

Lapa de Santa Margarida

A Lapa de Santa Margarida é uma pequena capela, [DISPUTADO] datada variavelmente dos séculos XVII ou XVIII, escondida dentro de uma pitoresca gruta marinha perto do Portinho da Arrábida. O acesso é feito por um caminho íngreme e sinuoso de cerca de 200 degraus de pedra descendo através de falésias calcárias até à gruta ao nível do mar.

Dentro da caverna natural, que se abre diretamente para o oceano, ergue-se uma capela simples caiada com um pequeno altar. O local é um exemplo notável da simbiose de geologia, natureza e tradição religiosa.

Outras cavidades notáveis

  • Gruta da Furada — uma gruta com passagem através
  • Numerosas pequenas grutas ao longo da costa sul, historicamente utilizadas por pescadores como abrigos
  • Grutas marinhas na base das falésias, acessíveis apenas da água

Significado paleontológico

Fauna fóssil

As rochas calcárias da Arrábida contêm abundantes restos fósseis da Era Mesozoica:

  • Fragmentos de ossos de dinossauros, predominantemente saurópodes (grandes dinossauros herbívoros)
  • Conchas fossilizadas de amonites e outros moluscos
  • Vestígios de fauna marinha jurássica

Pegadas de dinossauros

Na região da Península de Setúbal, no Cabo Espichel (Cabo Espichel), foram descobertos dois complexos de pegadas de dinossauros:

  • Pedra da Mua — pegadas do Jurássico Superior, incluindo pegadas de saurópodes e terópodes. Sete pistas paralelas de saurópodes atestam comportamento gregário nestes animais.
  • Jazida dos Lagosteiros — pegadas do Cretácico Inferior (Barremiano Inferior, ~130 milhões de anos atrás), o único exemplo de pegadas de dinossauros do Cretácico em Portugal. Foram identificadas aqui pegadas de terópodes e ornitópodes.

Os dois sítios situam-se apenas a 500 m de distância, mas encontram-se separados no tempo por aproximadamente 50 milhões de anos. Embora Espichel se situe a oeste da Arrábida, ambas as áreas pertencem à mesma formação geológica e partilham uma história paleontológica comum.

Rochas e minerais

Principais tipos de rochas

Mapa de traço da Falha da Arrábida

Rocha Período Características
Calcário dolomítico Jurássico Branco; forma a espinha dorsal da cordilheira
Arenito Cretácico Alterna com calcários
Brecha sedimentar (Brecha da Arrábida) Jurássico Superior Pedra decorativa, Pedra do Património Mundial da IUGS
Marga Vários Uma mistura de calcário e argila

Brecha da Arrábida

A brecha sedimentar da Arrábida (Brecha da Arrábida), historicamente conhecida por vários nomes — “Pedra de Jaspe”, “Vermelho Antigo”, “mármore em mosaico da Arrábida” — é um conglomerado intraformacional do Jurássico Superior (~160 milhões de anos) de clastos carbonatados de várias tonalidades num cimento de argila carbonatada-vermelha. A sua génese encontra-se ligada a processos cársicos durante um evento de emersão na Bacia Lusitânica à medida que as margens da Ibéria Ocidental e da Terra Nova se afastavam.

A pedra foi utilizada como material estrutural desde o período romano, e desde o século XV como pedra decorativa, nomeadamente no estilo manuelino. A exploração em pedreira cessou em meados da década de 1970 com a criação do Parque Natural da Arrábida. Em 2023, a Brecha da Arrábida foi designada Pedra do Património pela IUGS — a terceira pedra portuguesa e a 32.ª no mundo a receber este reconhecimento.

Património geológico e conservação

Significado científico

A Serra da Arrábida é de valor excepcional de várias perspetivas:

  • Geológica: Uma demonstração de sedimentação mesozoica e processos tectónicos
  • Espeleológica: Mais de 100 cavidades cársicas de origens diversas
  • Paleontológica: Restos fósseis da Era Mesozoica
  • Geomorfológica: Uma paisagem única que combina características mediterrânicas e atlânticas

Estatuto de proteção

O património geológico da Arrábida encontra-se salvaguardado dentro do Parque Natural da Arrábida, estabelecido em 1976. A exploração industrial de pedreiras é proibida dentro do parque, embora as pedreiras históricas tenham deixado a sua marca na paisagem.

As grutas do parque encontram-se geralmente fechadas a visitas não organizadas a fim de preservar os seus frágeis espeleotemas e ecossistemas subterrâneos. A investigação científica é realizada sob a supervisão do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas).

Itinerários geológicos

Vários percursos oferecem uma introdução à geologia da Arrábida:

  • A costa sul (do Portinho da Arrábida à Figueirinha): afloramentos de calcário jurássico, falésias marinhas, grutas
  • Serra do Risco: as falésias marinhas mais altas da Europa continental (381 m), com vistas panorâmicas das formações geológicas

Lapa de Santa Margarida — gruta calcária

  • Cume do Formosinho: uma visão geral de toda a cordilheira e das suas estruturas dobradas
  • Cabo Espichel: atrações paleontológicas (pegadas de dinossauros)
Fontes das imagens
  • serra-arrabida-vista-creiro.webp — Serra da Arrábida vista da praia do Creiro. Autor: Rudisicyon. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
  • arrabida-fault-trace.webp — Mapa de traço da Falha da Arrábida. Autor: Britoca. Licença: CC0 (Domínio Público). Fonte
  • lapa-santa-margarida.webp — Lapa de Santa Margarida — gruta calcária. Autor: TiagooDiass. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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