Fontainhas — Bairro de Pescadores e Salineiros
Nas margens do estuário do Sado, onde o rio de água doce encontra o mar salgado, estende-se Fontainhas — um bairro onde durante séculos os destinos de pescadores nortenhos, artesãos do sal e trabalhadores industriais se entrelaçaram.

Primeiras Menções e Origem do Nome
Fontainhas (lit. “pequenas fontes” ou “nascentes”) foi documentada pela primeira vez na Carta de Desmembração — um alvará real de 1553 que definiu as fronteiras administrativas do município de Setúbal. O nome do bairro está ligado a numerosas fontes naturais de água doce que afloravam nesta zona costeira, o que era criticamente importante para povoações numa era em que o abastecimento de água centralizado estava ausente.
No entanto, as evidências arqueológicas apontam para uma história muito mais antiga do desenvolvimento territorial. Achados de ânforas romanas e restos de salinas atestam que já nos primeiros séculos d.C. existiam povoações sazonais envolvidas na extração de sal marinho — o “ouro branco” da antiguidade.
No período medieval, o território de Fontainhas permaneceu pouco povoado devido à vulnerabilidade aos ataques piratas dos corsários berberes que aterrorizaram a costa portuguesa até ao século XVII. A situação mudou apenas após a construção de um sistema de fortificações costeiras e a estabilização do comércio marítimo.
Formação do Povoamento nos Séculos XVII-XVIII
O povoamento sistemático de Fontainhas começou no século XVII e estava ligado ao desenvolvimento de três atividades principais: pesca artesanal, extração de sal e agricultura. Ao contrário do vizinho Troino, onde dominavam os colonos algarvios, a população de Fontainhas formou-se principalmente através da migração de regiões do norte de Portugal — Minho, Douro e Beira Litoral.
Os pescadores nortenhos trouxeram as suas próprias tradições de pesca marítima, distintas das do Algarve. Especializaram-se na pesca costeira de rede (pesca de arrasto) e pesca de armadilha (armadilhas), bem como na colheita de moluscos no estuário do Sado. As suas técnicas foram adaptadas às condições específicas do ambiente estuarino onde as águas doce e salgada se misturam.
Os salineiros (salineiros) representavam um grupo profissional especial envolvido na extração de sal marinho de bacias de evaporação rasas (salinas) localizadas ao longo da costa. Este trabalho exigia conhecimento profundo dos ciclos das marés, regimes de temperatura e tecnologias de cristalização. O sal de Fontainhas era reconhecido pela sua pureza e era usado não só na cozinha, mas também na indústria conserveira.
Os trabalhadores agrícolas (trabalhadores agrícolas) cultivavam pequenas hortas e vinhas nas encostas que rodeavam o bairro. Os seus produtos eram fornecidos ao mercado da cidade, criando uma fonte adicional de rendimento para as famílias.
Transformação Industrial do Século XX
A verdadeira transformação de Fontainhas ocorreu na primeira metade do século XX com o rápido desenvolvimento da indústria conserveira. Nas décadas de 1930, mais de uma dúzia de fábricas de conservas (fábricas de conservas) operavam no território do bairro e nas imediações, processando sardinhas, anchovas, cavalas e outros peixes pequenos.
A concentração industrial mudou radicalmente a estrutura social do bairro:
- Os pescadores artesanais tradicionais tornaram-se trabalhadores assalariados nas frotas das empresas conserveiras
- As mulheres foram massivamente envolvidas no trabalho fabril, realizando o processamento manual de peixe (arranjadoras)
- Os salineiros transitaram para o trabalho como especialistas técnicos em fábricas onde o sal era usado para conservação
- Foram construídas casas de rendimento (casas de renda) para acomodar trabalhadores vindos de áreas rurais
As condições de trabalho nas fábricas de conservas eram extremamente duras: jornadas de 12-14 horas, ausência de proteção laboral, salários baixos, condições nocivas (contacto constante com soluções salinas, alta humidade, cheiro a peixe). As mulheres arranjadoras recebiam particularmente pouco, apesar de o seu trabalho manual exigir alta habilidade e rapidez.
Nas décadas de 1970, no auge da industrialização, mais de 3000 pessoas estavam empregadas na indústria conserveira de Fontainhas, o que constituía cerca de um terço da população do bairro em idade ativa. Os apitos das fábricas regulavam o ritmo de vida para todo o bairro: sinal matinal às 6:00, pausa para almoço às 12:00, fim do turno às 18:00 ou 19:00.
Memória Social e Arquivo Fotográfico (2019)
Após a crise da indústria conserveira nas décadas de 1980-1990, muitos edifícios fabris foram abandonados ou reaproveitados, e a identidade coletiva do bairro foi ameaçada de extinção. Em resposta, o município de Setúbal lançou o inovador projeto cultural “A memória das Fontainhas vive nas fotografias dos seus moradores” (“A Memória de Fontainhas Vive nas Fotografias dos Seus Moradores”) em 2019.
O projeto representou uma campanha em larga escala para recolher arquivos fotográficos familiares privados dos residentes do bairro. Mais de 2000 fotografias abrangendo o período de 1920 a 2000 foram recolhidas e digitalizadas. As imagens documentam:
- Vida quotidiana de famílias de pescadores (remendar redes, secar peixe, refeições familiares)
- Trabalho nas fábricas de conservas (oficinas, linhas de montagem, mulheres arranjadoras)
- Procissões religiosas e festividades de santos padroeiros (especialmente a festa de Santo António)
- Jogos infantis nas ruas (futebol, jogos tradicionais)
- Salinas no momento da colheita de sal
- Casamentos, batismos, reuniões públicas
O arquivo digitalizado foi apresentado numa exposição pública em 2019, que atraiu mais de 5000 visitantes. Muitos residentes idosos reconheceram-se a si próprios, os seus parentes e vizinhos nas fotografias, o que desencadeou uma onda de memórias nostálgicas e ativou o diálogo intergeracional. A geração mais jovem viu pela primeira vez evidências visuais das vidas dos seus avós.
O projeto recebeu grande elogio da UNESCO como exemplo de melhor prática na preservação do património cultural imaterial através de metodologia participativa. Importante foi que os iniciadores da recolha de fotografias foram os próprios residentes, não investigadores externos, o que garantiu a autenticidade e completude dos materiais.
Desafios Contemporâneos e Perspetivas
Hoje, Fontainhas encontra-se numa encruzilhada entre preservar a identidade histórica e a necessidade de adaptação económica. As antigas fábricas de conservas estão a ser transformadas em espaços culturais, áreas de coworking e lofts residenciais, o que atrai jovens profissionais e artistas, mas simultaneamente leva ao aumento dos preços imobiliários e ao deslocamento dos residentes tradicionais.
O município tenta encontrar um equilíbrio através de programas de habitação social e turismo cultural, posicionando Fontainhas como um “museu vivo” da história industrial de Setúbal. Várias oficinas artesanais tradicionais são preservadas onde velhos mestres ensinam a juventude a técnica de remendar redes e fazer ferramentas tradicionais de pesca.
A tradição da pesca, embora em escala limitada, continua: cerca de 30 famílias ainda se dedicam à pesca artesanal, fornecendo peixe fresco ao famoso Mercado do Livramento. As suas capturas têm procura especial entre os gourmets que valorizam a qualidade e a sustentabilidade ambiental da pesca artesanal.
Fontes das imagens
- fontainhas.webp — Bairro de Fontainhas, Setúbal. Fonte: Wikimedia Commons.
Ver Também
- Troino — Bairro Piscatório de Setúbal
- Indústria Conserveira de Setúbal
- Cultura e Tradições da Pesca
- Mercado do Livramento — Mercado na Margem do Rio
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