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Ana de Castro Osório — Pioneira do Feminismo

Ana de Castro Osório — Pioneira do Feminismo

Verificado

Ana de Castro Osório, 1913 Foto: Domínio Público. Museu da Presidência da República. Wikimedia Commons.

No bairro piscatório de Troino, onde mulheres com mãos estragadas pelo sal trabalhavam 14 horas por dia nas fábricas de conservas, nasceu um pensamento que viria a subverter as conceções sobre o papel da mulher na sociedade portuguesa.

Primeiros Anos em Setúbal (1872-1895)

Ana de Castro Osório nasceu a 18 de junho de 1872 em Mangualde, uma pequena vila na região da Beira Alta. Desde cedo a família mudou-se para Setúbal, onde o pai João Baptista de Castro exercia funções de juiz. A família fixou-se no bairro de Troino.

Viver em Troino — o bairro piscatório mais pobre da cidade — foi uma experiência marcante para a formação da sua consciência social. Observava diariamente:

  • Mulheres arranhadoras (trabalhadoras do pescado) a laborar nas fábricas de conservas em condições que mais tarde chamaria “escravatura moderna”
  • Mortalidade infantil resultante de condições insalubres, má nutrição e falta de cuidados médicos
  • Analfabetismo feminino — mais de 80% das mulheres de Troino não sabiam ler nem escrever
  • Violência doméstica considerada assunto privado da família, sem intervenção da polícia ou da Igreja
  • Ausência de subjetividade jurídica para as mulheres — não podiam possuir propriedade, assinar contratos, viajar sem permissão do marido

A sua família, embora modesta, pertencia à pequena burguesia, o que proporcionou a Ana acesso à educação — privilégio raro para uma mulher da época. Estudou numa escola privada para raparigas em Setúbal, onde recebeu conhecimentos básicos de língua portuguesa, aritmética e economia doméstica (programa tradicional da educação feminina).

Desde cedo manifestou talento literário e pensamento crítico. Aos 14 anos publicou os primeiros poemas no jornal local Eco de Setúbal sob o pseudónimo “A.L.” (iniciais do nome), já que o editor se recusava a imprimir o nome de uma mulher na página literária.

Em 1895, aos 23 anos, casou com Paulino de Castro Osório, oficial e ativista republicano, e mudou-se para Lisboa. O casamento, embora tradicional na forma, revelou-se uma união de pessoas intelectualmente afins: o marido apoiava a sua atividade literária e política, o que era excecionalmente raro para a época.

“Às Mulheres Portuguesas”: Primeiro Manifesto Feminista (1905)

Em 1905 Ana de Castro Osório publicou “Às Mulheres Portuguesas” — texto reconhecido como o primeiro manifesto feminista em Portugal. O pequeno folheto de 32 páginas tornou-se uma bomba política, provocando fúria na sociedade conservadora e admiração nos círculos progressistas.

Teses Centrais do Manifesto

1. Educação como Fundamento da Emancipação

“A mulher sem educação é uma escrava mantida na ignorância para ser mais facilmente controlada.”

Osório exigia educação universal para mulheres, idêntica à dos homens, incluindo acesso a universidades e escolas profissionais. Criticava a “educação feminina” tradicional, reduzida a trabalhos de agulha, culinária e catecismo religioso.

2. Independência Económica

“A dependência económica é a raiz de todas as outras formas de opressão. Enquanto a mulher não puder ganhar o seu sustento, permanece propriedade do homem.”

Exigia abertura de todas as profissões às mulheres (exceto aquelas que requeriam força física), salário igual, direito a possuir propriedade e dispor dos seus ganhos sem permissão do marido ou do pai.

3. Direitos Políticos

“A mulher paga impostos, obedece às leis, mas não tem voz na sua criação. Isto é tirania mascarada de ordem natural.”

Defendia o sufrágio feminino — exigência radical, considerando que até a maioria dos homens em Portugal não tinha direito de voto devido a qualificações de propriedade.

4. Reforma da Legislação Familiar

Osório criticava o Código Civil, que consagrava a desigualdade jurídica no casamento:

  • Marido como “chefe de família” com direito de controlo sobre a esposa
  • Impossibilidade de divórcio (para católicos)
  • Direito do marido de castigar fisicamente a esposa “para fins educativos”
  • Privação dos direitos parentais da mulher no divórcio

Exigia casamento civil, direito ao divórcio, autoridade parental conjunta.

Reação da Sociedade

A publicação causou escândalo:

  • A Igreja Católica declarou o texto “blasfemo” e apelou ao boicote
  • Jornais conservadores acusaram Osório de “destruir a família” e “imitar vícios estrangeiros”
  • Monárquicos viram no feminismo uma ameaça à ordem tradicional
  • Alguns liberais apoiaram o apelo à educação mas consideraram a exigência de direitos de voto “prematura”

Simultaneamente o texto inspirou uma jovem geração de mulheres instruídas das classes médias, muitas das quais pela primeira vez ouviram articular exigências correspondentes ao seu próprio sentimento vago de injustiça.

Grupo Português de Estudos Feministas (1907)

Em março de 1907 Ana de Castro Osório fundou o Grupo Português de Estudos Feministas (GPEF) — a primeira associação feminista em Portugal.

Objetivos e Atividades

O GPEF reuniu cerca de 50 mulheres (predominantemente professoras, escritoras, jornalistas) e estabeleceu tarefas:

  • Palestras educativas sobre direitos das mulheres e história do feminismo
  • Assistência jurídica a mulheres vítimas de violência doméstica
  • Pressão sobre reformas legislativas
  • Publicação de textos feministas e traduções de autoras estrangeiras
  • Ligações internacionais com movimentos sufragistas da Grã-Bretanha, França, EUA

O grupo publicava a revista “A Sociedade Futura” (“Sociedade Futura”), com artigos sobre direitos das mulheres, pedagogia infantil e questões sociais. Em 1908, Osório juntamente com Adelaide Cabete e Fausta Pinto da Gama fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Também dirigiu a revista “A Mulher e a Criança” (“Mulher e Criança”), que procurava mostrar que o feminismo não significa rejeição da maternidade, mas exige condições dignas para ela — cuidados médicos, educação, apoio económico.

Cisão e Limitações

O GPEF cindiu-se em 1909 devido a desacordos entre alas radical e moderada:

  • Radicais (lideradas por Osório) exigiam concessão imediata de todos os direitos
  • Moderadas propunham reformas graduais começando pela educação

Além disso, o grupo enfrentava contradições internas:

  • A maioria das participantes era da burguesia instruída, distante da classe trabalhadora
  • As exigências eram frequentemente formuladas em termos de “mães educadas para a nação”, excluindo mulheres sem filhos e trabalhadoras
  • A ligação com o movimento republicano tornava o feminismo suspeito aos conservadores, mas simultaneamente subordinado aos objetivos políticos dos republicanos

Após a queda da monarquia em 1910 e estabelecimento da Primeira República, o GPEF efetivamente cessou atividade, pois muitas participantes passaram a trabalhar em organizações republicanas.

A Lei do Divórcio (1910)

Uma das conquistas práticas mais significativas de Osório foi a colaboração com Afonso Costa, Ministro da Justiça no governo republicano provisório, na elaboração da lei do divórcio (1910). Osório escreveu “A Mulher no Casamento e no Divórcio”, que se tornou a base teórica das mudanças legislativas. A adoção da lei do divórcio civil foi uma das primeiras grandes reformas da Primeira República e resultado direto da luta feminista.

Literatura Infantil: Revolução Cultural

Paralelamente à atividade feminista, Ana de Castro Osório criou a literatura infantil portuguesa como género independente. Antes dela praticamente não existiam livros de qualidade para crianças em português — liam-se adaptações de contos estrangeiros ou ensinamentos religiosos.

Obras Literárias

Escreveu mais de 40 livros para crianças, incluindo:

  • “Contos Tradicionais Portugueses” (1914) — adaptação de contos populares
  • Série “Para as Crianças” (1897-1935) — histórias sobre a história portuguesa, natureza, vida familiar
  • “Viagens Aventurosas de Teresinha” (1917) — romance de aventuras com uma rapariga como heroína (inovação!)
  • “A Minha Pátria” (1906) — histórias patrióticas para escolares

Os seus livros distinguiam-se por:

  • Função pedagógica — desenvolvimento do pensamento crítico, não obediência cega
  • Linguagem moderna — rejeição de vocabulário arcaico e construções complexas
  • Heroínas ativas — raparigas não apenas esperam ser salvas mas resolvem problemas por si mesmas
  • Conteúdo secular — ética sem dogmatismo religioso

Osório também fundou a editora “Livraria Editora” (1909), especializada em literatura infantil e materiais educativos. A editora existiu até aos anos 1970 e publicou centenas de títulos que educaram várias gerações de portugueses.

Emigração para o Brasil (1911-1914)

Após o estabelecimento da República, o marido de Ana, Paulino Osório, foi nomeado cônsul em São Paulo, Brasil. A família mudou-se em 1911. Os três anos no Brasil revelaram-se fecundos:

  • Contacto com o movimento feminista brasileiro (mais forte que o português)
  • Palestras em clubes femininos e sociedades educativas
  • Publicação de artigos em revistas brasileiras
  • Observação de comunidades de emigrantes — milhares de portugueses a viver na pobreza

A experiência brasileira reforçou a sua crítica ao Estado português, que não cuidava dos emigrantes. Ao regressar publicou uma série de artigos sobre a necessidade de apoio estatal à diáspora.

Anos Finais e Legado (1914-1935)

Regressando a Lisboa em 1914, Osório concentrou-se na atividade literária e editorial, afastando-se da política ativa após desilusão com a Primeira República, que não cumpriu promessas sobre direitos das mulheres.

Nos anos 1930, com o estabelecimento da ditadura de Salazar, as suas obras feministas foram efetivamente proibidas (embora não houvesse proibição oficial). A literatura infantil continuou a ser publicada, mas sob controlo da censura.

Ana de Castro Osório morreu a 23 de março de 1935 em Lisboa aos 62 anos, em relativa obscuridade. O regime de Salazar silenciou ativamente o seu legado feminista, promovendo a imagem da “mulher-mãe”, devotada à família e à nação.

Reconhecimento Póstumo

Após a Revolução dos Cravos de 1974, o nome de Ana de Castro Osório foi “redescoberto” por investigadoras feministas. Os seus textos foram republicados, a biografia escrita, escolas e bibliotecas receberam o seu nome.

Em Setúbal, onde passou os primeiros 23 anos de vida, uma biblioteca pública no bairro de Troino tem o seu nome — retorno simbólico ao bairro que inspirou a sua luta.

Anualmente a 18 de junho (aniversário) realizam-se palestras comemorativas e exposições dedicadas ao seu legado como pioneira do feminismo português, fundadora da literatura infantil e intelectual republicana.

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