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Bocage -- Poeta de Setúbal

Bocage -- Poeta de Setúbal

Verificado

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765–1805) foi o principal poeta neoclássico português e um dos maiores mestres do soneto na história da literatura portuguesa. Nascido em Setúbal, tornou-se célebre sob o pseudónimo Elmano Sadino – anagrama de “Manuel” combinado com referência ao Rio Sado, que atravessa a sua cidade natal. A memória de Bocage constitui um dos pilares da identidade cultural de Setúbal.

Retrato de Bocage (1765-1805)

Origens e Família

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu a 15 de setembro de 1765 em Setúbal. O pai, José Luís Soares de Barbosa, provinha de uma família portuguesa. A mãe, Mariana Joaquina Xavier l’Hedoux Lustoff du Bocage, era de ascendência francesa: o avô, o almirante francês Gilles Hedoux du Bocage, chegara a Lisboa em 1704 para reorganizar a marinha portuguesa durante a Guerra da Sucessão Espanhola.

Os laços familiares com a França tinham também dimensão literária: a mãe de Bocage era prima-sobrinha em terceiro grau da célebre poetisa francesa Anne-Marie Le Page du Bocage – tradutora do Paraíso Perdido de Milton e autora da tragédia Les Amazones. Num certo sentido, portanto, o dom poético de Bocage era hereditário.

Desde tenra idade, o rapaz demonstrou aptidão notável para os versos. Começou a compor poesia em criança, granjeando admiração e lisonja dos que o rodeavam. Segundo os biógrafos, esta atmosfera moldou o caráter do futuro poeta – vaidoso, volátil e inclinado à aventura.

Juventude em Setúbal e Carreira Militar

Aos catorze anos, em 1779, Bocage abandonou abruptamente os estudos e alistou-se no 7.º Regimento de Infantaria. Dois anos de vida de guarnição em Setúbal aborreceram o jovem poeta, e decidiu ingressar na marinha. Em 1783, foi admitido na Academia Real de Marinha em Lisboa. Em vez de estudo diligente, porém, Bocage lançou-se a escapadas românticas e à boémia literária. Ao longo dos cinco anos seguintes, levou uma vida turbulenta cheia de casos amorosos, enquanto a memória fenomenal e o talento extraordinário para improvisação poética lhe granjeavam uma hoste de admiradores e ampla reputação nos círculos literários da capital.

Andanças Orientais: Índia e Macau

Em 1786, Bocage foi nomeado guarda-marinha na frota portuguesa destinada à Índia. Viajando via Brasil, chegou a Goa em outubro de 1786. As possessões coloniais portuguesas na Ásia causaram-lhe impressão desoladora: a realidade contrastava fortemente com as tradições heroicas celebradas pelo grande Camões dois séculos antes. Esta desilusão inspirou o poeta a compor sonetos satíricos “Sobre o Declínio do Império Português na Ásia” – obras nas quais a sua característica observação sardónica já se encontrava-se plenamente exposta.

No início de 1789, Bocage recebeu comissão de tenente de infantaria em Damão (Índia) mas desertou rapidamente. Por via que os estudiosos não conseguiram reconstruir inteiramente, chegou a Macau em julho ou agosto de 1789. [NÃO VERIFICADO] As circunstâncias precisas da estadia de Bocage em Macau e os detalhes da sua viagem de regresso a Lisboa (1789–1790) estão mal documentados e permanecem objeto de debate entre os historiadores literários. Sem quaisquer meios de subsistência, o poeta viveu da caridade de amigos, que eventualmente o ajudaram a regressar a Lisboa em meados de 1790.

Vida Literária em Lisboa

A Capital Boémia

Regressando a Lisboa em 1790, Bocage mergulhou imediatamente na vida literária boémia da capital. Tornou-se frequentador assíduo de tavernas e cafés, especialmente o célebre Café Nicola na Praça do Rossio, com o qual o seu nome ficou ligado desde então. Foi no Nicola que Bocage granjeou reputação de improvisador de versos inigualável: a capacidade de compor poesia extemporaneamente sobre qualquer tema dado assombrava os contemporâneos. Também compunha modinhas – poemas curtos rimados musicados à guitarra e executados em serões familiares – que lhe trouxeram fama popular generalizada.

Nova Arcádia e o Pseudónimo Elmano Sadino

Em 1790, fundou-se a academia literária Nova Arcádia, reunindo os principais poetas neoclássicos de Lisboa. Bocage aderiu e adotou o nome poético Elmano Sadino. O pseudónimo trazia dupla alusão:

  • Elmano – anagrama de “Manuel”
  • Sadino – referência ao Rio Sado, que atravessa a sua Setúbal natal

Assim, mesmo no auge da fama lisboeta, Bocage mantinha um vínculo literário com a cidade onde nascera.

O temperamento independente, cáustico e indisciplinado, porém, logo o pôs em conflito com os colegas membros da academia. As sátiras mordazes de Bocage sobre os seus colegas literários levaram à expulsão da Nova Arcádia em 1794. Seguiu-se guerra literária prolongada que envolveu a maioria dos poetas de Lisboa e dividiu a comunidade literária da capital em dois campos.

Prisão e a Inquisição

Em 1797, Bocage foi acusado de propagar republicanismo e ateísmo. Antigos companheiros da Nova Arcádia, agora inimigos, denunciaram o poeta às autoridades. O pretexto formal para a prisão foi a composição de versos antirreligiosos – a “Epístola a Marília” – juntamente com acusações de imoralidade.

Bocage foi confinado numa prisão do Estado, onde o sofrimento logo provocou arrependimento. O poeta procurou ativamente abrandar a sua sorte através de amigos influentes. Em novembro de 1797, foi transferido da prisão do Estado para a prisão da Inquisição Portuguesa. Nessa altura, a Inquisição tornara-se instituição consideravelmente mais branda que em séculos anteriores, e Bocage foi libertado em breve.

O período de encarceramento teve efeito inesperadamente benéfico na produção literária do poeta. Enquanto preso, Bocage trabalhou em traduções de Virgílio e Ovídio. Após a libertação, a tradução tornou-se a principal fonte de rendimento: verteu para português as obras de Torquato Tasso, Jean-Jacques Rousseau, Jean Racine e Voltaire, contribuindo para o intercâmbio cultural entre as literaturas românicas.

Legado Poético

Rimas

O principal legado poético de Bocage encontra-se nas coleções de versos Rimas, publicadas em três volumes:

Volume Ano de publicação Notas
Primeiro 1791 (reimpresso 1794) Primeira grande coleção de versos
Segundo 1799 Publicado após a libertação da prisão
Terceiro 1804 Último volume publicado em vida

Estes volumes contêm obras em todos os géneros líricos que o autor cultivava: sonetos, odes, elegias, epigramas, madrigais, apólogos, quadras, glosas, bem como traduções de escritores clássicos e contemporâneos franceses e italianos.

Domínio da Forma

Bocage dominava todas as formas líricas e deixou marca significativa em cada uma:

  • Os seus rondós são elegantes na construção
  • Os seus epigramas são afiados em engenho e precisão
  • As suas sátiras são penetrantes e impiedosas
  • As suas odes são frequentemente imbuídas de nobreza e páthos elevado

Sonetos – A Realização Suprema

A fama de Bocage assenta sobretudo nos seus sonetos. Os críticos observaram que quase rivalizam os sonetos de Camões em poder, elevação de pensamento e terna melancolia, embora fiquem ligeiramente aquém de Camões no refinamento erudito da fraseologia. Bocage é reconhecido como o segundo maior mestre do soneto na história da literatura portuguesa – depois de Camões.

Um dos seus sonetos autobiográficos mais conhecidos é “Já Bocage não sou”, escrito pouco antes da morte em 1805. Neste poema, o poeta de quarenta anos, consciente da aproximação da morte, faz balanço da vida e obra. O soneto combina traços do Arcadismo e do Romantismo e constitui exemplo vívido da sensibilidade pré-romântica:

“Já Bocage não sou!… A cova escura Meu estro vai parar desfeito em vento… Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento Leve me torne sempre a terra dura.”

Poesia Erótica

A poesia erótica de Bocage ocupa lugar distintivo na obra. Era tão ousada e subversiva para a época que permaneceu oficialmente inédita em Portugal por quase duzentos anos. A primeira edição anónima apareceu apenas no final do século XIX. Estes poemas, longamente circulados em cópias manuscritas, testemunham o radicalismo do poeta e a disposição de desafiar convenções sociais.

Lugar de Bocage na História Literária

Entre Neoclassicismo e Romantismo

Bocage pertence à geração de poetas neoclássicos, mas na obra pode cada vez mais discernir-se traços que prefiguram o Romantismo: culto do sofrimento pessoal, confissão autobiográfica, candura emocional, o tema da transitoriedade da vida. Os estudiosos definem a obra como neoclassicismo com elementos de pré-romantismo – forma transitória na qual a clareza racional dos modelos clássicos funde-se com a profundidade emocional da era romântica vindoura.

Comparação com Camões

O paralelo entre Bocage e Camões estende-se para lá da forma poética. Ambos os poetas:

  • Foram andarilhos e viajantes que peregrinaram ao Oriente
  • Criaram exemplos supremos do soneto português
  • Chocaram com as autoridades
  • Morreram na pobreza nas vésperas de invasão estrangeira de Portugal (Camões – antes da ocupação pelo exército do Duque de Alba; Bocage – no limiar da invasão napoleónica)

Anos Finais e Morte

Em 1804, a doença de que Bocage sofria (sífilis) tomou viragem acentuadamente pior. Em vez de aniquilar a energia criativa, a aproximação da morte inspirou o poeta a produzir vários sonetos magníficos nos quais o tom confessional atinge intensidade máxima.

Manuel Maria Barbosa du Bocage morreu a 21 de dezembro de 1805 em Lisboa de aneurisma, na pobreza. Tinha quarenta anos. A morte ocorreu nas vésperas da invasão napoleónica de Portugal (1807), aprofundando o paralelo histórico com a morte de Camões.

Em Setúbal Hoje

Setúbal preserva orgulhosamente a memória do grande filho. O nome de Bocage é um dos primeiros que qualquer visitante à cidade encontra.

Praça do Bocage

A praça principal de Setúbal tem o nome do poeta. No centro ergue-se uma estátua de mármore de Bocage, erguida em 1871 com fundos angariados por subscrição pública em Portugal e no Brasil. A figura de mármore branco eleva-se sobre coluna coríntia com quatro degraus octogonais. O poeta é retratado descoberto, com ligeira vénia, no traje da época, segurando pena na mão direita e folhas de papel na esquerda.

A praça encontra-se enquadrada por belos edifícios em estilos que vão do neoclassicismo ao Arte Nova. A Câmara Municipal neoclássica de Setúbal também se ergue aqui. A Praça do Bocage não é apenas o centro geográfico da cidade mas o coração simbólico – lugar onde a vida quotidiana e a memória literária convergem.

Casa do Bocage

Setúbal preserva uma casa-museu associada à memória do poeta – Casa do Bocage. A casa serve de espaço memorial dedicado à vida e obra de Bocage.

Festivais e Eventos Culturais

Todos os anos, Setúbal acolhe eventos culturais e festivais em honra do poeta, incluindo eventos na Praça do Bocage. As Festas do Bocage reúnem leituras literárias, produções teatrais e espetáculos ligados ao legado do poeta.

Outras Formas de Comemoração

  • A imagem de Bocage apareceu na nota de 100 escudos portuguesa (emissão de 1981) – marca de reconhecimento nacional.
  • Numerosas ruas e instituições por todo Portugal têm o seu nome.

Nota Bibliográfica

A bibliografia de Bocage, como observaram os estudiosos, é “excecionalmente complexa”, e estabelecer um catálogo completo das obras é tarefa assustadora. O problema agrava-se devido a grande número de publicações anónimas e textos atribuídos a ele sem provas suficientes. Alguns poemas tradicionalmente atribuídos a Bocage podem de facto ser obra de outros escritores no seu círculo, e inversamente, certo número das composições pode permanecer não identificado.

Datas-Chave

| Ano | Evento |

Estátua de Bocage em Setúbal

|——|——-| | 1765 | Nascimento em Setúbal (15 de setembro) | | 1779 | Alistamento no 7.º Regimento de Infantaria | | 1783 | Admissão na Academia Real de Marinha em Lisboa | | 1786 | Navegação para a Índia; chegada a Goa | | 1789 | Deserção de Damão; chegada a Macau | | 1790 | Regresso a Lisboa; adesão à Nova Arcádia | | 1791 | Publicação do primeiro volume de Rimas | | 1794 | Expulsão da Nova Arcádia | | 1797 | Prisão; encarceramento na prisão do Estado, depois na prisão da Inquisição | | 1799 | Publicação do segundo volume de Rimas | | 1804 | Publicação do terceiro volume de Rimas; deterioração da saúde | | 1805 | Morte em Lisboa (21 de dezembro) |

Fontes das imagens
  • bocage-portrait.webp — Retrato de Bocage (1765-1805). Autor: Joaquim Pedro de Souza. Licença: Domínio público. Fonte
  • bocage-statue-setubal.webp — Estátua de Bocage em Setúbal. Autor: Acscosta. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte

Ver Também

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