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Maria Antónia Palla -- Voz das Mulheres Portuguesas

Maria Antónia Palla -- Voz das Mulheres Portuguesas

Verificado

Em Portugal nos anos 60, a redação era um mundo masculino – um clube fechado onde as mulheres não eram admitidas. Maria Antónia Palla não apenas entrou nesse mundo; mudou-o, provando que a voz de uma jornalista mulher pode soar mais alto que o coro de preconceitos de toda uma era.

Primeiros Anos no Distrito de Setúbal (1933)

Maria Antónia Palla nasceu a 10 de janeiro de 1933 no Seixal – uma localidade do Distrito de Setúbal, na margem sul do Tejo, em frente a Lisboa. Nasceu na casa dos avós paternos.

A família de Palla era ateia, republicana e de orientação comunista. Os avós paternos eram republicanos e maçons. O pai, Italo Ferrer dos Santos, foi o primeiro da família a nunca ser batizado. A mãe era Angelina Painço de Assis.

O Seixal na primeira metade do século XX era uma localidade industrial e piscatória, estreitamente ligada a Setúbal tanto económica como culturalmente. Ambas as cidades partilhavam uma identidade semelhante – operária, portuária, com fortes tradições de esquerda e um movimento operário estabelecido. O ambiente em que Maria Antónia cresceu moldou a sua sensibilidade social e o interesse pelos problemas de desigualdade.

Palla licenciou-se na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1953. Após se licenciar casou-se com Orlando da Costa, um escritor de origem goesa.

Entrada no Jornalismo (anos 60)

As Primeiras Mulheres nas Redações

Em 1968, Maria Antónia Palla juntou-se ao primeiro grupo de mulheres admitidas na redação do Diário Popular – um dos principais jornais diários de Lisboa. Foi um momento histórico: até então, o jornalismo português permanecera uma profissão exclusivamente masculina. As mulheres podiam escrever para “páginas femininas” ou dirigir colunas sobre moda e cozinha, mas o trabalho editorial completo – reportagem, investigações, análise política – era considerado negócio de homens.

Carreira em O Século

Palla mudou-se posteriormente para o jornal O Século e o seu suplemento ilustrado O Século Ilustrado. Aí tornou-se a primeira mulher na equipa editorial, subindo gradualmente até ao cargo de diretora-adjunta – uma conquista sem precedentes para uma mulher na imprensa portuguesa da época.

O trabalho de Palla distinguia-se por:

  • Compromisso social – escrevia sobre pobreza, analfabetismo e condições de trabalho
  • Coragem – sob a censura do regime do Estado Novo, encontrava formas de abordar tópicos proibidos
  • Profissionalismo – a sua perícia jornalística não deixava espaço para acusações de “frivolidade feminina”

Atividade Sindical

Maria Antónia Palla tornou-se a primeira mulher membro do Sindicato dos Jornalistas Portugueses. Foi depois eleita vice-presidente do sindicato – mais um cargo que nenhuma mulher ocupara antes dela.

O trabalho sindical estava direcionado para:

  • Acesso igual para mulheres a cargos nas redações
  • Combate à discriminação em salários e oportunidades de carreira
  • Defesa da liberdade de imprensa – especialmente relevante nos anos finais da ditadura e no período de transição após a Revolução dos Cravos

“Nome Mulher”: Televisão como Arma (1974–1976)

A Revolução dos Cravos e Novas Possibilidades

A 25 de abril de 1974, a Revolução dos Cravos pôs fim à ditadura do Estado Novo. Com a liberdade política veio a liberdade de expressão – pela primeira vez em meio século, a sociedade portuguesa podia discutir abertamente assuntos anteriormente tabu.

Maria Antónia Palla aproveitou a oportunidade de imediato. Juntamente com Antónia de Sousa, criou para a emissora estatal RTP o programa “Nome Mulher”.

Conteúdo e Significado

“Nome Mulher” tornou-se o primeiro programa televisivo feminista em Portugal. Durante a sua emissão produziu 46 episódios de 50 minutos cada. O programa:

  • Documentou a vida real das mulheres portuguesas – desde camponesas no Alentejo a operárias fabris em Setúbal
  • Discutiu a desigualdade legal – restrições nos direitos de propriedade, custódia dos filhos, divórcio
  • Levantou o tema da violência doméstica – pela primeira vez na televisão portuguesa
  • Deu voz a mulheres que até então eram invisíveis no espaço público
  • Provocou debate público sobre o papel das mulheres na sociedade

O programa desencadeou uma controvérsia feroz. Os círculos conservadores acusaram as criadoras de “destruir os valores familiares” e “propagar a imoralidade”. A parte progressista da sociedade, pelo contrário, viu em “Nome Mulher” um instrumento de mudança social necessária.

A Luta pela Legalização do Aborto

Uma das causas centrais da atividade pública de Palla foi a luta pela legalização do aborto em Portugal. Num país onde a influência da Igreja Católica permanecia enorme mesmo após a revolução, esta era uma das questões mais controversas.

Palla defendia consistentemente o direito das mulheres a tomar as suas próprias decisões sobre os corpos e a saúde reprodutiva. A posição estava fundamentada em:

  • Experiência jornalística – documentou as tragédias de abortos ilegais que custaram a vida a mulheres
  • Justiça social – mulheres ricas podiam viajar para o estrangeiro, enquanto mulheres pobres arriscavam a saúde e as vidas
  • Análise legal – comparação com a legislação de outros países europeus

O episódio crucial foi a emissão de “Aborto não é Crime” em fevereiro de 1976 como parte de “Nome Mulher”. Por este programa Palla foi acusada pelo Ministério Público de ofensa à moral pública e incitamento ao crime. O programa foi retirado do ar — ironicamente, a decisão foi tomada pelo então presidente da RTP, que era o marido de Palla. O julgamento teve lugar em 1979, e Palla foi absolvida. Em 1985 tornou-se presidente da Liga dos Direitos das Mulheres e continuou a luta pelos direitos reprodutivos.

A legalização do aborto em Portugal só veio em 2007, após um segundo referendo. Palla estava entre aquelas que lutaram por este direito durante décadas.

Contexto: Movimento Feminista de Setúbal

Maria Antónia Palla fazia parte de um amplo movimento feminista cujas raízes no distrito de Setúbal são profundas. Entre as suas predecessoras estava Ana de Castro Osório, a primeira feminista de Portugal, que viveu em Setúbal e formou aí a sua consciência social.

É importante notar que Palla não esteve diretamente envolvida no caso das “Três Marias” (Novas Cartas Portuguesas, 1972) – o julgamento de três escritoras que se tornou um símbolo da luta pela liberdade de expressão e direitos das mulheres nos últimos anos da ditadura. Fazia, no entanto, parte do mesmo amplo movimento feminista e mantinha ligações com as participantes.

Reconhecimento

A 13 de fevereiro de 2025, o Presidente de Portugal Marcelo Rebelo de Sousa homenageou pessoalmente Maria Antónia Palla no Palácio de Belém, condecorado-a com o grau de Grande-Oficial da Ordem da Liberdade. Marcelo chamou-lhe “justiça há muito devida”. Palla foi também galardoada com o Prémio Gazeta de Mérito pela notável carreira jornalística.

Legado

Maria Antónia Palla deixou uma marca que se estende muito além do jornalismo:

  • Abriu a porta para gerações de jornalistas mulheres em Portugal
  • Estabeleceu um precedente para a presença de mulheres em associações profissionais e em cargos de direção editorial
  • Usou a televisão como instrumento de mudança social, muito antes da era dos “novos media”
  • Documentou as vidas de mulheres portuguesas comuns, preservando para a história vozes que de outra forma teriam sido esquecidas

A sua jornada – de uma rapariga no Seixal industrial a vice-presidente do sindicato dos jornalistas e criadora do primeiro programa televisivo feminista – é uma história não apenas de conquista pessoal mas da transformação de toda uma sociedade.

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Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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