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Odeith — Mestre do Graffiti Tridimensional

Odeith — Mestre do Graffiti Tridimensional

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“O Rapaz dos Pássaros” mural na parede do Auditório José Afonso Fotografia: Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0. Wikimedia Commons.

Nas paredes de edifícios abandonados, onde outros veem uma superfície cinzenta, Sérgio Odeith cria ilusões de ótica que fazem os transeuntes duvidarem da realidade — insetos do tamanho de carros, letras a pairar no ar, sombras que projetam sombras.

Primeiros Anos: Damaia e Nascimento da Cultura do Graffiti (1976-anos 90)

Sérgio Odeith nasceu em 1976 na Damaia — um subúrbio densamente povoado e operário de Lisboa, conhecido por habitação social, alta concentração de imigrantes e, desde os anos 80, cultura ativa de hip-hop e graffiti.

A Damaia dos anos 80 era:

  • Contrastes sociais: prédios de betão, barracas, desemprego após a desindustrialização
  • Diversidade cultural: portugueses, pessoas das colónias africanas (Angola, Moçambique, Cabo Verde), ciganos
  • Cultura de rua: breakdance, rap, graffiti como forma de auto-expressão para jovens marginalizados

Odeith começou a desenhar graffiti em meados dos anos 80, por volta dos 12-13 anos. Foi a época do nascimento do movimento de graffiti português, inspirado pela cultura hip-hop americana que penetrava através de filmes (“Style Wars”, “Beat Street”), música e revistas.

Primeiros trabalhos — tags típicas (assinaturas) e throw-ups (inscrições rápidas de 2-3 cores) em paredes de comboios elétricos, pontes, edifícios abandonados. O pseudónimo “Odeith” (pronúncia próxima de “Odete” — um nome feminino português) foi escolhido aleatoriamente mas tornou-se uma marca reconhecível.

Aos 15 anos Odeith abandonou a escola para se dedicar inteiramente à arte. Esta decisão — típica para a cultura de graffiti da época — significou uma rutura com o elevador social tradicional (educação → trabalho → estabilidade) e a escolha de um caminho marginal mas criativamente livre.

Auto-Educação e Domínio Técnico (1990-2005)

Odeith é autodidata. Nunca estudou numa escola de arte, nunca teve aulas de pintores académicos. Tudo o que aprendeu veio através de:

  • Prática: milhares de horas a desenhar nas ruas
  • Observação: estudo de obras de outros artistas de graffiti
  • Experiências: tentativa de várias técnicas, materiais, estilos
  • Cultura visual: banda desenhada, ficção científica, filmes

Nos anos 90 desenvolveu competências clássicas de graffiti:

  • Caligrafia (lettering) — letras estilizadas, a base do graffiti
  • Personagens — imagens de pessoas, animais, monstros
  • Fundo — nuvens, estrelas, elementos abstratos que criam profundidade
  • Transições de cor (fades, blends) — gradientes suaves entre cores

No início dos anos 2000 Odeith era reconhecido na comunidade de graffiti portuguesa como um artista tecnicamente perfeito, mas ainda não tinha um estilo único reconhecível que o distinguisse de centenas de outros talentosos escritores de graffiti.

Tatuagens e Comercialização de Competências (1999-2008)

Para ganhar a vida, Odeith tornou-se tatuador em 1999, abrindo um estúdio em Lisboa. O trabalho de tatuagem deu-lhe:

  • Rendimento estável — capacidade de sustentar a família sem abandonar a arte
  • Trabalho com detalhes — tatuar requer precisão microscópica
  • Compreensão de anatomia e perspetiva — criticamente importante para o futuro estilo 3D
  • Base de clientes — muitos clientes tornaram-se clientes para trabalhos de graffiti

Em paralelo continuou a desenhar nas ruas, mas agora podia pagar tintas caras, mais tempo para preparação, viagens para outras cidades para participar em festivais de graffiti.

Em 2008 mudou-se para Londres, onde trabalhou como tatuador e integrou-se ativamente na cena internacional de arte de rua. A experiência londrina foi crucial: viu como a arte de rua se comercializa, tornando-se parte do mercado de arte e atraindo atenção de galerias, colecionadores, clientes corporativos.

Revelação: Técnica 3D Anamórfica (2005-presente)

O estilo único de Odeith — graffiti 3D anamórfico — começou a formar-se por volta de 2005. A técnica baseia-se na distorção de perspetiva: a imagem é desenhada de tal forma que de um certo ponto de vista parece tridimensional, como se pairasse no espaço ou se projetasse da parede.

Princípio do Anamorfismo

Anamorfismo é uma técnica conhecida desde o Renascimento (exemplo famoso: o crânio em “Os Embaixadores” de Holbein, 1533). A imagem é construída de modo a que de um ponto de vista pareça realista, e de outros — distorcida.

Odeith adaptou este princípio ao graffiti em cantos de edifícios, onde duas paredes se encontram num ângulo reto. Desenhando em ambas as paredes e no chão, cria a ilusão de que o objeto (inseto, letra, mecanismo) existe fisicamente no espaço do canto, projetando sombras e reflexos em ambas as superfícies.

Características Técnicas

  • Detalhe fotorrealista — cada escama, pelo, reflexo de luz é desenhado
  • Sombras e realces — criam ilusão de volume e interação com a iluminação real
  • Escala — frequentemente tamanhos enormes (insetos de 3-5 metros), reforçando a impressão
  • Escolha de cantos — prefere cantos interiores de edifícios abandonados, criando “efeito teatral”

Odeith fotografou os primeiros trabalhos 3D e publicou-os online (Flickr, mais tarde Instagram). O efeito viral foi instantâneo: as pessoas não conseguiam acreditar que era pintado, não montado em Photoshop. Os céticos exigiam vídeo do processo de trabalho, que Odeith começou a filmar e publicar.

Obras de Culto

  • Aranha gigante (2009) — uma das primeiras obras virais, aranha de 4 metros no canto de armazém abandonado
  • Tubarão (2011) — tubarão realista a “nadar” da parede
  • Letras 3D (série de 2010) — o pseudónimo “Odeith”, executado em forma 3D a levitar
  • Moscas e vespas (série de 2012) — insetos fotorrealistas de tamanhos gigantes

Trabalho em Setúbal: Auditório José Afonso (“Arte em Toda a Parte”)

Como parte do programa municipal “Arte em Toda a Parte”, Odeith criou um trabalho monumental de 20 metros de altura na parede externa do Auditório José Afonso — a principal sala de concertos de Setúbal, nomeada em honra do lendário cantor português e ativista antifascista.

Conceito do Trabalho

O trabalho representa um retrato anamórfico de José Afonso, integrado com letras abstratas no estilo característico de Odeith. De um certo ponto de vista (a praça em frente ao edifício), os elementos ligam-se numa composição única, criando uma ilusão de profundidade.

O esquema de cores — preto, cinzento, branco com acentos vermelhos — referencia a estética dos cartazes antifascistas portugueses dos anos 70 e simultaneamente corresponde ao estilo minimalista da arte de rua contemporânea.

Processo de Criação

  • Preparação: 2 semanas no desenvolvimento do esboço, cálculos matemáticos de perspetiva, fotografias de teste
  • Execução: 10 dias de trabalho numa plataforma elevatória (altura até 20 metros)
  • Materiais: tintas especiais para fachadas resistentes ao clima marítimo de Setúbal
  • Assistentes: equipa de 3 para logística e segurança

O trabalho foi inaugurado em 2019 e tornou-se uma das atrações mais fotografadas da cidade, atraindo turistas e amantes de arte de rua.

Significado Simbólico

A escolha de José Afonso como tema é simbólica:

  • Memória cultural — Afonso é considerado a voz da Revolução dos Cravos de 1974
  • Ligação do passado e presente — ícone musical clássico através do prisma da arte de rua contemporânea
  • Identidade urbana — arte monumental como forma de repensar o espaço público

Carreira Internacional e Clientes Corporativos

Desde o início dos anos 2010, Odeith tornou-se um artista globalmente reconhecido, trabalhando em mais de 30 países. Os clientes incluem:

Projetos Corporativos

  • Coca-Cola — campanha publicitária com garrafa 3D
  • Samsung — lançamento do Galaxy S10 com instalação 3D
  • Shell (Londres) — trabalho monumental na sede
  • Nike — design de lojas na Europa e Ásia
  • Red Bull — patrocínio de digressões de graffiti

Festivais e Exposições

  • Meeting of Styles (rede global de festivais de graffiti) — participante regular
  • Pow! Wow! (Havai, Long Beach, Taiwan) — criação de trabalhos monumentais
  • Cans Festival (Londres) — projeto curatorial de Banksy
  • Exposições individuais em galerias de Lisboa, Londres, Los Angeles

Os trabalhos são vendidos a colecionadores a preços de 5.000 a 50.000 euros (dependendo do tamanho e complexidade). Isto coloca-o entre artistas de graffiti comercialmente bem-sucedidos, o que causa reação contraditória na comunidade de graffiti (crítica de “vender-se” vs. reconhecimento de profissionalismo).

Filosofia e Posicionamento

Odeith posiciona-se como artista profissional, não como escritor de graffiti underground:

  • Trabalhos legais — quase todos os projetos após 2010 são legais (por contrato com proprietários de edifícios)
  • Abertura comercial — não esconde cooperação com corporações
  • Perfeição técnica — prioridade de qualidade sobre quantidade
  • Redes sociais — promoção ativa através do Instagram (1,5+ milhões de seguidores)

Numa entrevista de 2020 disse:

“Não sou um vândalo. Sou um artista que usa a cidade como tela. Se alguém está disposto a pagar-me para embelezar a parede, por que deveria recusar?”

Esta posição distingue-o dos “puristas” do graffiti que acreditam que o graffiti autêntico deve ser ilegal, não comercial e anónimo. Para Odeith, o graffiti é uma profissão, não um ato subcultural de resistência.

Influência e Legado

Odeith teve enorme influência no desenvolvimento do graffiti 3D como direção:

  • Centenas de artistas em todo o mundo copiam a técnica anamórfica
  • Os trabalhos são estudados em escolas de arte como exemplos de ilusão de ótica
  • Inspirou uma nova vaga de artistas de rua portugueses (p. ex., Vhils, Add Fuel)
  • O sucesso comercial provou que o graffiti pode ser uma carreira lucrativa

Os críticos notam virtuosismo técnico, mas por vezes censuram-no pela falta de crítica social e repetitividade de motivos (insetos, letras). Odeith responde que o objetivo é prazer visual, não declaração política.

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Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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