Igreja de Santa Maria da Graça (Sé de Setúbal)
A Igreja de Santa Maria da Graça é uma das igrejas mais antigas de Setúbal, fundada no século XIII e reconstruída no século XVI no estilo maneirista. Desde 1975, serve como catedral (Sé) da Diocese de Setúbal.

História
Fundação no Século XIII
A Igreja de Santa Maria da Graça foi fundada na segunda metade do século XIII como igreja paroquial da freguesia homónima de Setúbal. O edifício original foi construído no estilo românico-gótico característico da arquitetura eclesiástica portuguesa da época. Apenas informação fragmentária sobrevive sobre o aspeto medieval do edifício, uma vez que a igreja foi objeto de uma profunda reconstrução durante o Renascimento.
A freguesia de Santa Maria da Graça foi uma das mais importantes da cidade, a par das freguesias de São Julião e Nossa Senhora da Anunciada. A posição da igreja na parte superior da cidade, mais próxima das colinas, determinou o seu papel como centro paroquial para os habitantes deste bairro.
A Reconstrução do Século XVI
A transformação decisiva da igreja ocorreu na segunda metade do século XVI. Entre 1565 e 1570, o edifício foi inteiramente reconstruído segundo projeto do arquiteto António Rodrigues — um dos principais arquitetos portugueses da época e representante do movimento maneirista na arquitetura.
António Rodrigues, discípulo de mestres italianos, trouxe ao projeto os princípios da arquitetura renascentista adaptados à tradição portuguesa. O resultado foi um edifício em que a planta basilical medieval se combina com uma composição de fachada maneirista — contida, geometricamente precisa e livre de ornamentação excessiva.
Séculos Subsequentes
Nos séculos XVII–XVIII, o interior da igreja foi enriquecido com novos elementos decorativos: foram instalados retábulos de talha dourada e painéis de azulejo. Cada século acrescentou a sua própria camada à ornamentação, transformando a igreja numa escala cronológica da arte decorativa portuguesa.
Estatuto de Catedral (1975)
A 16 de julho de 1975, pela bula “Studentes Nos” do Papa Paulo VI, foi criada a Diocese de Setúbal, desmembrada da Arquidiocese de Lisboa. A Igreja de Santa Maria da Graça foi elevada à categoria de catedral (Sé) — a igreja principal da nova diocese.
A 26 de outubro de 1975, foi consagrado na catedral o primeiro bispo de Setúbal — Dom Manuel da Silva Martins, que ocupou a sé até 1998. A criação de uma diocese separada refletiu a crescente importância de Setúbal enquanto centro urbano e teve lugar no contexto das transformações democráticas em Portugal após a Revolução dos Cravos (1974).
Arquitetura e Descrição
A Fachada

A fachada da catedral é um exemplo de contenção maneirista. Caracteriza-se por formas geométricas rigorosas, um mínimo de elementos decorativos e uma verticalidade pronunciada. Do lado esquerdo da fachada ergue-se uma torre sineira (torre sineira), conferindo ao edifício a sua silhueta assimétrica distintiva. A fachada alcança a sua monumentalidade não através da ornamentação mas através das proporções e escala das suas superfícies pétreas.
O Interior
O interior da catedral encontra-se organizado como basílica de três naves. As naves encontram-se separadas por colunas da ordem toscana, decoradas com frescos do século XIX que criam um contraste entre a estrutura renascentista e a decoração pintada posterior.
A Capela-Mor
A capela-mor contém um retábulo de talha dourada no estilo “nacional” (estilo nacional), concluído no final do século XVII. Este estilo de talha, característico do reinado de D. Pedro II, distingue-se pelo denso ornamento vegetal com gavinhas de videira, aves e anjos, coberto com folha de ouro.
Azulejos
As paredes laterais da capela-mor encontram-se revestidas com painéis de azulejos azuis e brancos do século XVIII, representando cenas da vida da Virgem Maria. Estes painéis de azulejo representam um exemplo típico do azulejo barroco português — uma forma de arte em que Portugal alcançou mestria consumada.
O Teto
O teto da catedral data da segunda metade do século XVIII e complementa a atmosfera barroca do interior.
Capelas Laterais
As naves laterais contêm capelas com retábulos de talha dourada dos séculos XVII–XVIII, cada uma dedicada a um santo ou tema religioso particular.
Significado
Centro Religioso
Enquanto catedral da Diocese de Setúbal, a Igreja de Santa Maria da Graça é a igreja principal da diocese, que abrange o território do distrito de Setúbal a sul do Tejo. É uma catedral ativa em que se realizam os principais serviços e cerimónias litúrgicas.
Valor Arquitetónico
O edifício representa um dos poucos exemplos bem preservados de arquitetura eclesiástica maneirista na região de Setúbal. O contraste entre a fachada maneirista austera e o interior barroco rico cria um diálogo arquitetónico expressivo entre duas épocas.
Estratificação Histórica
A catedral-igreja exibe o carácter estratificado típico dos edifícios religiosos portugueses: uma fundação medieval, uma reconstrução renascentista, decoração barroca e frescos do século XIX. Cada camada não apaga a anterior mas sobrepõe-se a ela, produzindo um conjunto único.
Um Monumento de Arte Decorativa
A combinação de talha dourada, painéis de azulejo e frescos torna o interior da catedral numa coleção significativa de arte decorativa portuguesa dos séculos XVII ao XIX.
Informação Prática
- Morada: Largo de Santa Maria, 2900 Setúbal
- Coordenadas: 38.5244 N, 8.8883 W
- Tipo: catedral ativa (Sé)
- Entrada: gratuita (a igreja é um local ativo de culto)

O horário de visita pode estar restringido pelo horário dos serviços religiosos. Aconselha-se verificar as informações atuais antes da visita.
Fontes das imagens
- igreja-facade.webp — Fachada ocidental da Igreja de Santa Maria da Graça. Autor: GualdimG. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- igreja-interior.webp — Interior da Igreja de Santa Maria da Graça. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- igreja-altar.webp — Altar da igreja com pintura da Última Ceia. Autor: Diego Delso. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
Ver também
- Mosteiro de Jesus — outro exemplo notável de arquitetura eclesiástica em Setúbal, dois séculos mais antigo
- Praça do Bocage — a praça central, localizada perto
- Forte de São Filipe — uma fortaleza do século XVI, contemporânea da reconstrução maneirista da catedral
- O Terramoto de 1755 — a catástrofe que afetou todos os edifícios históricos de Setúbal
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