Igreja de São Julião (Igreja Matriz)
A Igreja de São Julião (Igreja de São Julião) é a principal igreja paroquial (igreja matriz) de Setúbal, situada no limite norte da Praça do Bocage. Fundada por pescadores na segunda metade do século XIII, reconstruída em estilo manuelino sob João de Castilho (1516–1520) e reconstruída em barroco após o terramoto de 1755, encontra-se classificada como Monumento Nacional desde 1910.
História
Fundação (Segunda Metade do Século XIII)
A Igreja de São Julião foi fundada pelos pescadores de Setúbal durante a segunda metade do século XIII. A data exata é desconhecida. A paróquia de São Julião (originalmente denominada São Gião, a forma portuguesa medieval do nome) foi uma das duas paróquias mais antigas da cidade, juntamente com Santa Maria da Graça. A informação sobre a estrutura medieval original é escassa.
Nessa época, Setúbal já se encontrava sob a influência da Ordem de Santiago: em 1249, o Mestre da Ordem, Paio Peres Correia, tinha concedido à vila o seu primeiro foral. A comunidade piscatória que construiu e sustentou esta igreja permaneceria como sua padroeira durante séculos.
Ligação à Ordem de Santiago
No final do século XV, a igreja ficou ligada ao Paço de Jorge de Lencastre, Mestre da Ordem de Santiago e Duque de Aveiro. Jorge de Lencastre utilizou a Igreja de São Julião como sua capela privada até aproximadamente 1510. Este patrocínio nobre revelar-se-ia decisivo para a transformação mais significativa da igreja.
A Reconstrução Manuelina (1513–1520)
A 2 de fevereiro de 1513, o Rei D. Manuel I emitiu um alvará régio desde Évora ordenando a reconstrução da igreja. A construção decorreu entre 1516 e 1520.
- Arquiteto (conceção): João de Castilho, um dos mais importantes arquitetos manuelinos, também responsável por obras no Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa e no Convento de Cristo em Tomar.
- Mestre pedreiro (direção das obras): João Favacho.
- Financiamento: O Mestre da Ordem de Santiago contribuiu com 500.000 réis; a Coroa também ordenou que os residentes de Setúbal contribuíssem.
Durante este período, a igreja recebeu um retábulo atribuído ao pintor Gregório Lopes (ou à sua oficina). Desta obra, sobrevive apenas o painel Criação do Homem — uma pintura do período dos Primitivos Portugueses.
Terramoto de 1531 e Restauro Maneirista (1570)
O terramoto de 1531 danificou gravemente a igreja. A reconstrução ficou concluída e o edifício foi reinaugurado em 1570, consideravelmente modificado em estilo maneirista. Durante este restauro, a nave única foi subdividida em três naves por arcos internos.
Em 1568, foi estabelecida na paróquia a Irmandade das Almas.
Também em 1570, a Capela do Santíssimo Sacramento foi decorada com talha dourada. Esta capela pertencia a Francisco Rodrigues de Almeida, nobre da Casa Real e administrador de um morgado.
O Terramoto de 1755 e a Reconstrução Barroca
O devastador terramoto de 1755 destruiu quase completamente a igreja, poupando apenas os portais manuelinos. A igreja possuía originalmente uma entrada coberta (alpendre) sobre o portal norte, que foi destruída e nunca reconstruída.
A reconstrução teve início em 1766, durante o reinado da Rainha D. Maria I. O interior foi completamente redecorado em estilo barroco:
- As paredes foram revestidas com painéis de azulejo (c. 1790), representando cenas das vidas dos santos padroeiros, São Julião e Santa Basilissa. Estes painéis foram financiados pelos pescadores de Setúbal, continuando a tradição do patrocínio da comunidade piscatória.
- O retábulo principal foi pintado por Pedro Alexandrino de Carvalho (1729–1810), um dos mais prolíficos pintores religiosos portugueses da época pós-terramoto.
- A decoração interior foi executada por João Elói Ferreira do Amaral (1839–1927), um pintor nascido em Setúbal (uma rua da cidade, a Rua João Elói do Amaral, tem o seu nome).
O Terramoto de 1858 e História Posterior
O terramoto de 1858 (magnitude ~7,1) causou mais danos: as paredes fenderam e quatro pináculos de pedra na fachada desabaram, juntamente com dois fogaréus decorativos (ornamentos em forma de chama). Estes elementos nunca foram substituídos, alterando permanentemente a silhueta da fachada.
Em maio de 1876, foi instalado no campanário um mecanismo de relógio de fabrico suíço. Durante séculos, este relógio de torre serviu como principal marcador de tempo público da cidade. Atualmente encontra-se não funcional.
A 16 de junho de 1910, a igreja foi classificada como Monumento Nacional — o nível mais elevado de proteção patrimonial em Portugal.
Na reforma administrativa de 2013, a paróquia de São Julião foi fundida com Nossa Senhora da Anunciada e Santa Maria da Graça na União das Freguesias de Setúbal.
Eventos Históricos
Em 1668, uma procissão solene partiu desta igreja em direção a Santa Maria da Graça para celebrar o tratado de paz entre Portugal e Espanha, marcando o fim da Guerra da Restauração.
Arquitetura
Exterior
A igreja apresenta um palimpsesto de estilos arquitetónicos acumulados ao longo dos séculos. Os elementos mais notáveis sobreviventes do período manuelino (1516–1520) são os portais:
O portal principal (ocidental) apresenta decoração característica manuelina.
O portal lateral norte é considerado pelos especialistas como “um dos mais belos exemplos do país”. Apresenta:
- Colunas torsas imitando cordas de navio — um motivo emblemático manuelino
- Motivos vegetais com decoração orgânica naturalista
- Arcos trilobados no estilo de transição gótico-manuelino
A porta da torre sineira também preserva a sua decoração manuelina.
A parte superior da fachada, com as suas janelas e empena, data da reconstrução pombalina do século XVIII. A fachada ostentava originalmente pináculos de pedra e fogaréus, perdidos no terramoto de 1858 e nunca restaurados.
Interior
Planta: Uma nave única subdividida em três naves por arcos internos (intervenção estrutural maneirista de 1570), com uma capela-mor mais estreita.
Painéis de azulejo (c. 1790): As paredes das naves, a capela-mor e a Capela do Senhor dos Passos encontram-se revestidas com painéis de azulejo recortados. São painéis azuis e brancos com cercaduras rococó policromadas e rodapés de azulejo marmoreado. Representam cenas das vidas de São Julião e Santa Basilissa, os santos padroeiros da igreja. A oficina específica que produziu estes painéis não foi identificada.
Capela do Santíssimo Sacramento (1570): Decorada com talha dourada do período maneirista.
Retábulo principal: Uma pintura do final do século XVIII de Pedro Alexandrino de Carvalho.
Pintura manuelina sobrevivente: O painel Criação do Homem, atribuído a Gregório Lopes ou à sua oficina (século XVI) — a única peça sobrevivente do retábulo manuelino original.
Teto: Decorado com o brasão de armas de Portugal.
Talha dourada: Talha dourada de período barroco no coro e área do altar, com colunas de madeira dourada.
Obras de Arte Notáveis
| Obra de Arte | Atribuição | Período |
|---|---|---|
| Portais manuelinos (principal + norte) | João de Castilho (conceção) / João Favacho (construção) | 1516–1520 |
| Painel Criação do Homem | Gregório Lopes (ou oficina) | Século XVI |
| Talha dourada — Capela do Sacramento | Desconhecido | 1570 |
| Nossa Senhora das Trancas (escultura em madeira) | Desconhecido | Século XVI |
| Painéis de azulejo | Oficina desconhecida | c. 1790 |
| Pintura do retábulo principal | Pedro Alexandrino de Carvalho (1729–1810) | Final do século XVIII |
| Decoração interior | João Elói Ferreira do Amaral (1839–1927) | Século XIX |
| Urna do Santíssimo Sacramento (prata litúrgica) | Desconhecido | 2.ª metade do século XVIII |
| Mecanismo de relógio suíço | Fabrico suíço | 1876 |
A Urna do Santíssimo Sacramento é uma peça notável de ourivesaria litúrgica portuguesa, objeto de um estudo académico de André das Neves Afonso que a descreve como “um caso paradigmático da excelente qualidade atingida na produção de ourivesaria de prata portuguesa na segunda metade do século XVIII”.
[NÃO VERIFICADO] Imagens de São Julião e Santa Basilissa, atribuídas à escola de Machado de Castro (século XVIII), terão sido transferidas desta igreja para a Igreja de São Nicolau em Lisboa.
Os Santos Padroeiros
A igreja encontra-se dedicada a São Julião (Saint Julian) e Santa Basilissa (Saint Basilissa), mártires cristãos primitivos.
Segundo a tradição hagiográfica, Julião e Basilissa foram um casal, provavelmente de Antinópolis (Antinoe) no Egipto. Forçados a casar pela família de Julião, fizeram um pacto mútuo de castidade e permaneceram virgens durante todo o casamento. Basilissa fundou um convento feminino; Julião fundou um mosteiro. Juntos, transformaram a sua casa num hospital, tendo alegadamente cuidado de mais de mil pessoas.
Basilissa morreu em paz. Julião foi martirizado (decapitado) durante as perseguições de Diocleciano (c. 304 d.C.). O seu dia de festa é 9 de janeiro no Martirológio Romano.
Este é um santo diferente de São Julião Hospitaleiro (Saint Julian the Hospitaller), a lendária figura de cavaleiro celebrada a 12 de fevereiro.
Localização e Praça do Bocage
A igreja define o limite norte da Praça do Bocage, a principal praça pública de Setúbal. A praça evoluiu a partir de um local de fábrica romana de salga de peixe (século I d.C.) através do medieval Largo do Sapal, foi expandida sob D. João III em 1533 e renomeada Praça do Bocage em 1865. Em 1871, foi erguida no centro da praça uma estátua de mármore do poeta neoclássico Manuel Maria Barbosa du Bocage, diretamente em frente à igreja.
Informações Práticas
- Morada: Praça do Bocage, n.º 135–136, 2900-349 Setúbal
- Coordenadas: 38,5247 N, 8,8878 O
- Classificação: Monumento Nacional, desde 1910
- Registo: SIPA 3448 / DGPC 70219
- Telefone: +351 265 523 723
- Horário de missas: Domingos às 10h30 e 18h00 (inverno) / 19h00 (verão)
- Horário de abertura: Segunda a sábado 8h30–12h00 e 15h30–17h30; Domingos 8h30–11h30 e 18h30–20h00
- Entrada: Gratuita (local de culto ativo)
- Transportes: Autocarros 230, 767, 768, 783. Localização central, acessível a pé.
Ver Também
- Igreja de Santa Maria da Graça — Catedral de Setúbal desde 1975
- Mosteiro de Jesus — Obra-prima manuelina primitiva de Diogo Boitac
- Praça do Bocage — A praça principal onde a igreja se situa
- Azulejos de Setúbal — A tradição azulejar nas igrejas da cidade
- O Terramoto de 1755 — A catástrofe que remodelou a igreja
- O Terramoto de 1858 — Danos adicionais à fachada
- O Foral e a Ordem de Santiago — O foral e o papel da Ordem em Setúbal
- Freguesias de Setúbal — O sistema paroquial histórico
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