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Museu do Trabalho Michel Giacometti

Museu do Trabalho Michel Giacometti

Verificado

O Museu do Trabalho Michel Giacometti é um museu municipal em Setúbal, instalado numa antiga fábrica de conservas na frente ribeirinha. É dedicado à história do trabalho, indústria e tradições populares da região, e tem o nome do etnógrafo corso Michel Giacometti, que passou trinta anos a recolher o testemunho da cultura popular portuguesa.

Museu do Trabalho — uma antiga fábrica de conservas

História

A Fábrica de Conservas Perienes

O edifício do museu é uma antiga fábrica de conservas de cinco andares, Perienes (Fábrica de Conservas Perienes), uma das numerosas empresas conserveiras que definiram o carácter económico de Setúbal ao longo dos séculos XIX e XX. A fábrica situava-se no bairro histórico de pescadores, salineiros e trabalhadores das conservas — o bairro contíguo à frente ribeirinha do rio Sado.

Setúbal foi um dos principais centros da indústria conserveira de Portugal. Em meados do século XX, o país tinha mais de 400 fábricas de conservas, uma proporção significativa das quais se concentrava em Setúbal, Espinho (perto do Porto) e no Algarve. A produção de sardinhas de conserva em azeite tornou-se numa das principais indústrias de exportação de Portugal — em 1912, o país classificou-se em primeiro lugar no mundo em exportações de peixe de conserva.

A fábrica Perienes cessou operações em 1971, tornando-se numa das vítimas do declínio gradual que atingiu a indústria na segunda metade do século XX.

Michel Giacometti: O Etnógrafo e a Sua Missão

O museu tem o nome de Michel Giacometti (1929–1990) — um etnógrafo de origem corsa que dedicou a sua vida a documentar a cultura popular portuguesa.

Giacometti nasceu a 8 de janeiro de 1929 em Ajaccio (Córsega). Órfão em tenra idade, foi criado por tios maternos, viveu no Norte de África (Argélia colonial), regressou depois a França, onde estudou literatura e etnologia em Paris.

Em 1959, Giacometti mudou-se para Portugal e passou os últimos trinta anos da sua vida no país. Fundou os Arquivos Sonoros Portugueses (Arquivos Sonoros Portugueses) e viajou sistematicamente pelo país, gravando tradições orais que se encontravam a desaparecer na sequência da modernização. Na década de 1960, em colaboração com o compositor Fernando Lopes-Graça, publicou a Antologia da Música Regional Portuguesa (Antologia da Música Regional Portuguesa) — uma das mais importantes coleções de música tradicional portuguesa.

O trabalho de Giacometti não foi meramente académico mas também cívico por natureza: sob o regime de Salazar, a documentação da cultura popular era uma forma de resistência cultural. Após a Revolução dos Cravos (1974), a sua atividade intensificou-se e acabou por levar à criação do Museu do Trabalho — uma instituição dedicada a preservar a memória do património operário de Setúbal.

Michel Giacometti faleceu a 24 de novembro de 1990 em Faro.

A Abertura do Museu

O museu abriu em 1995 no edifício restaurado da fábrica Perienes. A decisão de instalar o museu num antigo edifício industrial foi deliberada: o próprio espaço torna-se uma peça de exposição, permitindo ao visitante sentir a escala e atmosfera da produção conserveira.

Em 1998, o museu recebeu uma menção honrosa do Conselho da Europa no âmbito do Prémio Museu Europeu do Ano — reconhecimento da qualidade do seu conceito e exposições.

Descrição e Exposições

Exposições Permanentes

O museu contém várias exposições permanentes:

  • “A Indústria Conserveira: Do Leilão à Lata” (A Indústria Conserveira: Do lota a lata) — documenta o ciclo completo da produção conserveira: do leilão do peixe e da evisceração até à embalagem e rotulagem. A exposição apresenta equipamento fabril, coloridos rótulos de lata (obras de design gráfico por direito próprio) e uma série de pinturas contemporâneas representando os processos de produção.

  • “O Mundo Rural — A Coleção Etnográfica de Michel Giacometti e a Génese do Museu” (Mundo Rural) — uma coleção reunida na década de 1970 por estudantes do Serviço Cívico Estudantil (Serviço Cívico Estudantil) sob orientação de Giacometti. Compreende ferramentas, objetos domésticos e testemunho material da cultura agrária de Portugal.

  • “Mercearia Liberdade — Um Património a Preservar” (Mercearia Liberdade) — uma recriação de uma mercearia tradicional portuguesa (mercearia), um tipo de espaço comercial em vias de desaparecimento.

Arquitetura Industrial como Peça de Exposição

O edifício fabril de cinco andares preserva a sua estrutura industrial: os tetos altos dos pisos de produção, as janelas industriais com vista sobre a frente ribeirinha. A localização à beira-rio não é acidental — as fábricas eram construídas perto dos cais onde os barcos de pesca desembarcavam as suas capturas de sardinha.

Significado

O Museu do Trabalho ocupa um lugar especial na paisagem cultural de Setúbal por várias razões:

  • Memória de uma indústria perdida — a indústria conserveira que outrora definiu a identidade de Setúbal praticamente desapareceu. Das mais de 400 fábricas por todo Portugal, apenas cerca de 20 permanecem hoje. O museu preserva a memória de uma indústria que alimentou milhares de famílias e moldou o tecido social de bairros inteiros.

  • Uma abordagem etnográfica — o museu não se confina à história técnica da produção; mostra as pessoas — os pescadores, as mulheres das fábricas de conservas, os salineiros — as suas condições de trabalho, as suas vidas quotidianas e a sua cultura.

  • O legado de Giacometti — o museu dá continuidade ao trabalho de um etnógrafo para quem a recolha e preservação do património popular foi um propósito de vida. Num certo sentido, todo o museu é uma materialização do seu método: a documentação sistemática e respeitosa de um mundo em vias de desaparecimento.

  • Conversão industrial — a transformação de uma fábrica abandonada num museu foi um dos primeiros exemplos de conversão industrial em Portugal e influenciou a abordagem à renovação da frente ribeirinha de Setúbal.

Informação Prática

  • Morada: Largo Defensores da República, 2910-470 Setúbal
  • Coordenadas: 38.5232 N, 8.8864 W
  • Horário: terça-feira–sexta-feira 09:30–18:00, sábado–domingo 14:00–18:00
  • Encerrado: segunda-feira e feriados
  • Entrada: aproximadamente 1,60 EUR

O horário de abertura e as tarifas de entrada podem alterar-se. Aconselha-se verificar as informações atuais no website dos Museus Municipais de Setúbal.

Fontes das imagens
  • museu-exterior.webp — Museu do Trabalho — uma antiga fábrica de conservas. Autor: El-Kelaa-des-Sraghna. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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