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Setúbal Subterrâneo: Arqueologia Sob os Pés

Setúbal Subterrâneo: Arqueologia Sob os Pés

Verificado

Cetariae de Tróia — tanques romanos de salga de peixe

📷 Crédito da imagem

Foto: Semsjp / Wikimedia Commons / Domínio Público

Sob a Setúbal moderna jazem 14 tanques romanos de salga de peixe do século I, muralhas medievais com 5 portas e 13 postigos, túneis sob o Forte de São Filipe e tubagens subterrâneas de um aqueduto do século XV. Cada renovação no centro histórico é uma oportunidade para descobrir outra camada de 2.000 anos de história.

Setúbal Romana: Caetobriga

Caetobriga (também Cetobriga/Cetóbrica) foi o povoado romano no local da atual Setúbal — um centro industrial de salga de peixe e produção de garum. Ocupava aproximadamente 2,5 hectares, abrangendo o Largo da Misericórdia, as ruas dos Caldeireiros, Paula Borba, Januário da Silva e Largo da Ribeira Velha.

A fábrica na Travessa de Frei Gaspar

Descoberta em 1979 durante obras de construção. As escavações revelaram duas camadas:

  • Estruturas residenciais de meados do século I d.C. (peristilo, pátio)
  • Uma fábrica de salga de peixe do último quartel do século I com 14 tanques (cetariae) de vários tamanhos, dispostos em duas filas paralelas em torno de um pátio

A fábrica operou até aos séculos V–VI. Encontra-se agora acessível através de um piso de vidro no edifício do posto de turismo.

A fábrica na Praça do Bocage

Escavações em 1957 e 1980 (lideradas pelo MAEDS) descobriram uma faixa de praia da primeira metade do século I e uma oficina de salga da segunda metade do século I com dois tipos de tanques: os revestidos com argamassa de cal (para sal) e os com fundo selado com argila.

Mosaicos romanos

  • Rua António Joaquim Granjo, 19 (“Casa dos Mosaicos”) — os primeiros mosaicos romanos encontrados em Setúbal
  • Rua Arronches Junqueiro, 73-75 — uma galeria porticada com pavimento de mosaico opus tessellatum, provavelmente parte do peristilo de uma domus romana

As muralhas medievais

As fortificações de Setúbal foram construídas entre os séculos XIV e XVI. A primeira cerca foi iniciada sob o Rei D. Afonso IV (1325–1357) e concluída sob D. Pedro I (1356–1367) — para proteger contra piratas e corsários do Norte de África.

O perímetro original incluía 5 portas e 13 postigos:

Elemento Descrição
Porta do Sol Arco ogival, século XVI
Porta de São Sebastião Arco abatido com aduelas salientes
Postigo do Cais Arco abatido
Postigo de João Galo (das Fontaínhas) Arco abatido

Torres quadradas e hexagonais encontram-se parcialmente embebidas em edifícios modernos e escondidas sob reboco. O arqueólogo Carlos Tavares da Silva nota que ao contrário de Elvas ou Valença do Minho, as muralhas de Setúbal “desapareceram do mapa”. Encontram-se classificadas como Monumento de Interesse Público.

Os túneis do Forte de São Filipe

Forte de São Filipe (construção a partir de 1582, projeto do Capitão Fratino):

  • Um labirinto de túneis subterrâneos, normalmente encerrados ao público
  • Entrada por uma porta na muralha ocidental → túnel abobadado em pedra → escadaria suave em dois lanços → patamar com acesso a casamatas
  • Uma passagem subterrânea documentada para possível fuga da fortaleza (durante o domínio espanhol)
  • Em 2014, foram realizados trabalhos de estabilização nas galerias subterrâneas: suportes metálicos, selagem de fissuras, impermeabilização

O Aqueduto da Alferrara

Em 1487, o Rei D. João II ordenou um aqueduto para trazer água da nascente da Alferrara (serra de Palmela) para Setúbal.

  • Comprimento: vários quilómetros
  • Construção: alvenaria de pedra até aos limites da cidade; tubagens subterrâneas dentro da cidade até às fontes
  • Ponto terminal: Chafariz do Sapal (construído em 1693, reconstruído em 1697 em mármore branco e rosa)
  • 1894 — um poço artesiano no Campo do Bonfim (9,5 m de altura, 5 m de diâmetro) para compensar a escassez de água

Sobrevivem duas secções do aqueduto: da Rua dos Arcos até ao Bairro do Montalvão, algumas com arcadas de duplo nível.

O terramoto de 1755

Escavações na Av. Luísa Todi, 170-178 revelaram uma estrutura de armazenamento subterrânea (cave) enterrada sob escombros de um edifício residencial dos séculos XVII–XVIII que ruiu no terramoto. Desde 2004, o subprojeto “Sismos e Arqueologia Urbana” tem vindo a estudar vestígios sísmicos no subsolo urbano.

O projeto “Preexistências de Setúbal”

Um projeto sistemático de investigação em arqueologia urbana realizado pelo MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, fundado em 1974). Principais escavações:

Morada Achados Período
Rua Vasco Soveral, 8-12 (2018) Estratigrafia da Idade do Ferro ao período Moderno Séc. VII a.C. – séc. XIX
Rua Arronches Junqueiro, 73-75 Peristilo, pavimento de mosaico Séc. I–IV d.C.
Rua A. J. Granjo, 19 Primeiros mosaicos romanos em Setúbal Período romano
Av. Luísa Todi, 170-178 Armazenamento subterrâneo, terramoto de 1755 Séc. XVII–XVIII
Largo de Jesus (2018–2020) Epígrafe funerária do século XII Pré-mosteiro

O MAEDS publica a revista “Setúbal Arqueológica” desde 1975 — a publicação-chave para a arqueologia da região. Investigador principal: Carlos Tavares da Silva.

A cripta do Mosteiro de Jesus

O mosteiro foi fundado a 17 de agosto de 1490 por iniciativa de Justa Rodrigues Pereira, ama do Rei D. Manuel I. Arquiteto: Diogo de Boitaca. A fundadora e a sua família encontram-se sepultadas na cripta sob o altar-mor. Durante a requalificação do Largo de Jesus (2018–2020), foi descoberta uma epígrafe funerária da segunda metade do século XII — um artefacto anterior ao mosteiro em 300 anos.

Porta do Sol — arco ogival do século XVI

📷 Crédito da imagem

Foto: Vitor Oliveira / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Aqueduto da Alferrara (século XV)

📷 Crédito da imagem

Foto: Vitor Oliveira / Wikimedia Commons / CC BY 2.0

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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