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Vitória FC — A Alma de Setúbal

Vitória FC — A Alma de Setúbal

Verificado

Estádio do Bonfim — casa do Vitória FC

📷 Crédito da imagem

Foto: GualdimG / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

O Vitória Futebol Clube não é apenas uma equipa de futebol. É a identidade coletiva de uma cidade inteira, um espelho dos seus triunfos e derrotas, do seu orgulho e da sua dor. Para os setubalenses, que se denominam “sadinos” — o povo do Rio Sado — o Vitória significa tanto como o próprio rio.

Fundação e Primeiros Anos (1910–1934)

O Vitória Futebol Clube foi fundado a 20 de novembro de 1910 em Setúbal. A data é simbólica: o clube surgiu apenas um mês após a proclamação da República Portuguesa a 5 de outubro de 1910. O espírito de mudança que percorria o país encontrou expressão também no desporto — jovens de Setúbal reuniram-se para criar um clube que se tornaria o símbolo da sua cidade.

As primeiras décadas da existência do clube foram um período formativo: construção da estrutura organizacional, procura de campos de treino, participação em torneios regionais. O futebol em Portugal no início do século XX ainda não tinha uma liga nacional unificada.

Na época de 1934/35, foi organizado o primeiro campeonato português de futebol. O Vitória de Setúbal tornou-se um dos clubes fundadores do campeonato nacional — facto de que a cidade se orgulha até hoje. Isto significa que o Vitória esteve nas origens do futebol português organizado ao lado de gigantes como Benfica, Sporting e Porto.

A Era de Ouro: Anos 60

A era de ouro do Vitória chegou nos anos 60 — período em que o clube de uma cidade pequena nas margens do Sado desafiou os titãs do futebol português e europeu.

Taças de Portugal

Os principais troféus da história do clube:

Época Torneio Resultado
1964/65 Taça de Portugal Vencedor
1966/67 Taça de Portugal Vencedor
2004/05 Taça de Portugal Vencedor

As primeiras duas vitórias na Taça de Portugal — em 1965 e 1967 — marcaram o culminar da era de ouro. Nesses anos, o Vitória reuniu um plantel capaz de competir ao mais alto nível e ergueu a taça triunfalmente duas vezes.

O clube conquistou também a primeira edição da Taça da Liga portuguesa na época 2007/08. A final realizou-se a 22 de março de 2008 contra o Sporting: após empate 0–0 no tempo regulamentar, o Vitória triunfou nos penáltis graças ao guarda-redes emprestado Eduardo, que defendeu três grandes penalidades.

Jacinto João — O Maior Jogador

O símbolo da era de ouro foi Jacinto João, um extremo-esquerdo que passou 14 épocas no Vitória e marcou 66 golos em 268 jogos. A sua velocidade, drible e capacidade de criar oportunidades do nada fizeram dele uma lenda do clube. Jacinto João foi jogador-chave em ambos os triunfos na taça dos anos 60. Para os adeptos do Vitória continua a ser a referência — jogador que encarna o espírito do clube: talento, devoção e lealdade a uma única equipa ao longo de toda a carreira.

Sensação Europeia: Liverpool Eliminado (1969/70)

O capítulo mais sonante da história europeia do Vitória foi escrito na época 1969/70 na Taça das Cidades com Feiras (antecessora da Taça UEFA e da atual Liga Europa).

Na 2.ª eliminatória do torneio, o sorteio emparelhou o Vitória de Setúbal com o Liverpool — um dos clubes mais fortes de Inglaterra, vencedor da Taça dos Campeões Europeus e uma força formidável de Anfield. O resultado surpreendeu o futebol europeu: o modesto clube de uma cidade portuária portuguesa eliminou sensacionalmente o Liverpool da competição. No primeiro jogo em Setúbal, o Vitória venceu 1–0; na segunda mão em Anfield perdeu 2–3, mas apurou-se no agregado (3–3) graças à regra dos golos fora.

A vitória entrou na história do clube como prova de que o Vitória conseguia competir ao mais alto nível europeu. Para Setúbal foi um momento de imenso orgulho — a cidade inteira celebrou o triunfo como vitória coletiva.

Estádio do Bonfim — Casa do Vitória

O Estádio do Bonfim é o estádio do Vitória, inaugurado em 1962. O estádio tem o nome da colina do Bonfim onde está situado, com vista sobre a cidade e o Rio Sado.

  • Capacidade atual: aproximadamente 15.500 (anteriormente 18.694, antes do encerramento dos pisos superiores e conversão total em lugares sentados)
  • Recorde de assistência: aproximadamente 40.000 — num jogo da Taça UEFA contra o Spartak de Moscovo a 4 de novembro de 1971, quando ainda eram permitidas bancadas em pé

O Bonfim é mais do que um estádio. É lugar de memória onde gerações de setubalenses partilharam em conjunto alegria e tristeza. A atmosfera no Bonfim nos dias de grandes jogos é descrita como elétrica: os adeptos do Vitória são conhecidos pela sua paixão e lealdade ao clube mesmo nos períodos difíceis.

A Ligação Mourinho

A história do Vitória é inseparável da família Mourinho. Félix Mourinho, pai do futuro grande treinador, foi guarda-redes e depois diretor desportivo do clube. Félix jogou numerosos jogos pelo Vitória durante a era de ouro e tornou-se uma das lendas do clube.

O seu filho, José Mourinho, cresceu na atmosfera do Vitória — literalmente no estádio e no balneário. Desde os cinco anos, o jovem José acompanhava o pai aos treinos e jogos, absorvendo as táticas, a disciplina e a paixão do futebol profissional. Foi entre estas paredes que nasceu “The Special One” — o treinador que transformaria o futebol mundial.

Nas palavras do próprio Mourinho: “Setúbal ensinou-me a ser lutador. Isto não é Lisboa, não é a capital. Aqui é preciso provar-se todos os dias.”

A Identidade “Sadina”

A alcunha dos adeptos do Vitória — “sadinos” — deriva do Rio Sado (Rio Sado), que atravessa Setúbal e desagua no oceano, formando um vasto estuário. “Sadinos” refere-se não só aos adeptos do clube de futebol, mas serve também como autodesignação dos habitantes de Setúbal em geral. O Vitória é a expressão desportiva desta identidade regional.

É de notar que o rival tradicional do Vitória é o Sporting, não o Benfica, apesar de ambos os clubes de Lisboa estarem relativamente próximos. Isto explica-se pela proximidade geográfica e cultural de Setúbal com a margem sul do Tejo e laços históricos com áreas que gravitam em torno do Sporting.

Tempos Difíceis

Nos últimos anos, o Vitória de Setúbal atravessou um dos períodos mais difíceis da sua história centenária. Dificuldades financeiras levaram a dívidas, problemas no pagamento de salários aos jogadores e ameaças de sanções administrativas da liga.

O clube enfrentou lutas contra a descida — situação impensável na era de ouro dos anos 60. Para uma cidade que se identifica com a sua equipa, cada derrota e cada descida na tabela é vivida como trauma coletivo.

Contudo, os adeptos do Vitória mantiveram-se leais. As bancadas do Bonfim não ficam totalmente vazias mesmo nas épocas mais difíceis. Para os “sadinos”, apoiar o Vitória não é questão de resultados, mas questão de identidade.

A Terceira Taça: O Triunfo de 2005

Entre a era de ouro e a crise moderna houve mais um lampejo brilhante. Na época 2004/05, o Vitória conquistou a sua terceira Taça de Portugal — quase 40 anos após a segunda. A vitória recordou a todo o Portugal que o Vitória de Setúbal é um clube com grande história e tradição viva, ainda capaz de feitos extraordinários.

Significado para Setúbal

O Vitória Futebol Clube é instituição cultural que se estende muito para lá do desporto. O clube une a cidade: nos dias de jogo, pescadores e operários, comerciantes e professores tornam-se um só nas bancadas do Bonfim. A história do clube é a história da própria Setúbal: das ambições e triunfos às crises e esperanças de renascimento.

Na cidade dizem: “Ser de Setúbal é ser do Vitória” — “Ser de Setúbal é ser do Vitória.”

Homenagem a Jacinto João — lenda do Vitória FC

📷 Crédito da imagem

Foto: GualdimG / Wikimedia Commons / CC BY-SA 4.0

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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