A Revolução dos Cravos em Setúbal (25 de Abril de 1974)
Setúbal foi um dos principais centros do movimento operário durante a Revolução dos Cravos e o processo revolucionário que se seguiu (1974–1975). Conhecida como “Setúbal Vermelha” (Setúbal ville rouge), a cidade aproximou-se mais do que qualquer outra em Portugal de um modelo de autogoverno operário.

Contexto
Setúbal na véspera da Revolução
No início dos anos 1970, Setúbal era um dos principais centros industriais de Portugal. A Península de Setúbal simbolizava o crescimento económico dos anos 1960 e tornara-se um bastião da classe operária:
- Setenave – um estaleiro naval gigante, uma das maiores empresas do país
- Fábricas automóveis da Ford e da British Leyland – unidades de capital estrangeiro que forneciam milhares de empregos
- O legado da indústria conserveira – embora a própria indústria estivesse em declínio, as suas tradições operárias e cultura sindical perduravam
- Pesca – o porto e a infraestrutura associada
No estaleiro Setenave e na sua “irmã mais velha” Lisnave, localizada mais perto de Lisboa, greves e ações laborais ocorriam desde 1973. Nos seis meses finais antes do golpe, aproximadamente 100.000 trabalhadores em todo o país participaram em greves ilegais protestando contra a queda dos salários reais. A cintura industrial Lisboa-Setúbal era o epicentro destes protestos.
O regime do Estado Novo
Portugal estivera sob o regime autoritário do Estado Novo desde 1933 – inicialmente liderado por Salazar, depois por Caetano. A atividade sindical era reprimida e a oposição perseguida pela polícia secreta, a PIDE. Não obstante, o Partido Comunista Português (PCP), que operava na clandestinidade desde a sua fundação em 1921, tinha uma das suas bases mais fortes em Setúbal.
Cronologia
25 de Abril de 1974: O Dia do Golpe
Durante a noite de 24 para 25 de Abril, o Movimento das Forças Armadas (MFA), composto principalmente por oficiais subalternos, lançou um golpe militar contra o regime de Caetano.
Como parte das operações militares, uma coluna do 3.º Regimento de Cavalaria (RC 3), sediado em Estremoz, sob o comando dos capitães Andrade Moura e Alberto Ferreira, avançou em direção a Setúbal com o objetivo de alcançar a Ponte Salazar (atual Ponte 25 de Abril). Os capitães Miquelina Simões e Gastão Silva do 1.º Regimento de Cavalaria de Elvas juntaram-se à coluna.
Os trabalhadores da Lisnave e da Setenave seguiram atentamente os acontecimentos pela rádio. Dentro de dois dias após o golpe, os trabalhadores da Lisnave enviaram uma mensagem de felicitações à Junta de Salvação Nacional e ao MFA.
A Primeira Semana: Uma Erupção de Atividade
Entre 25 de Abril e 1 de Maio de 1974, houve 97 greves – mais do que em qualquer ano sob o antigo regime. Logo em 26 de Abril, moradores das barracas nos cinturões industriais de Lisboa, Setúbal e Porto começaram a ocupar casas vazias.
Trabalhadores dos estaleiros e fábricas entraram em greve exigindo um aumento salarial de 50%.
O Processo Revolucionário (PREC): Abril 1974 – Novembro 1975
O período conhecido em Portugal como PREC (Processo Revolucionário em Curso) durou 19 meses. Durante este tempo:
- Centenas de milhares de trabalhadores participaram em greves
- Centenas de empresas foram ocupadas pelos seus trabalhadores, por vezes durante meses
- Aproximadamente 3 milhões de pessoas (de uma população de cerca de 9 milhões) participaram em manifestações, ocupações e no trabalho de comissões
- A gestão de mais de 1.000 empresas foi entregue aos trabalhadores
- Muitas destas transitaram para autogestão, e algumas foram reorganizadas como cooperativas
- Em Outubro de 1974, o país tinha cerca de 4.000 comissões de trabalhadores
Setúbal Durante Este Período
A “Cidade Vermelha”
Setúbal ganhou reputação como uma das cidades mais politicamente ativas de Portugal durante o PREC. O rótulo “Cidade Vermelha” refletia a forte posição da esquerda, sobretudo do Partido Comunista Português (PCP), que em eleições subsequentes recebeu mais de metade dos votos em Setúbal.
O Comité de Luta
A cidade que mais se aproximou do poder operário foi Setúbal. Aqui formou-se um poderoso Comité de Luta, cujas reuniões e métodos de decisão se tornaram modelo de novas formas de democracia operária.
O comité reunia representantes de vários setores:
- Comissões de fábrica
- Comissões de moradores
- Comissões de soldados
- Cooperativas de camponeses
Em Outubro de 1975, estas estruturas formaram um comité central para Setúbal – um órgão coordenador que unia comissões de moradores, de fábrica e de soldados com cooperativas de camponeses.
O Comité de Luta rejeitou um plano de insurreição revolucionária – mas apenas porque não existia uma rede comparável de organizações no resto do país que pudesse estender o poder operário para além de Setúbal.
O Estaleiro Setenave
Os trabalhadores do estaleiro Setenave, de capital estrangeiro, estavam entre os participantes mais ativos no processo revolucionário. A sua posição sobre a questão do controlo operário é reveladora:
“Não temos controlo operário, e como podemos tê-lo sem controlar os bancos? A nossa posição é – queremos saber tudo. Não acreditamos que possamos alcançar o controlo operário sozinhos.”
Trabalhadores da Lisnave e da Setenave marcharam por Lisboa de capacete e fato de trabalho, tornando-se uma das imagens duradouras do movimento revolucionário.
Confrontos Políticos
A atmosfera política em Setúbal era especialmente tensa. Em Março de 1975, uma reunião do PPD (Partido Popular Democrático, centro-direita) em Setúbal foi invadida, e dois manifestantes foram mortos a tiro em confrontos com a polícia. Este incidente refletiu a intensidade da luta política numa cidade onde a esquerda dominava.
Ocupações de Habitação e Auto-Organização
Desde os primeiros dias após o golpe, moradores das barracas nos cinturões industriais de Setúbal começaram a ocupar casas vazias. Formaram-se Comissões de Moradores, que assumiram não apenas questões habitacionais mas a organização da vida quotidiana nos bairros. O estudo “Os Moradores à Conquista da Cidade: Comissões de Moradores e Lutas Urbanas em Setúbal” documenta este processo.
Património Tangível
O Documentário “Setúbal, ville rouge”
Um registo único da Setúbal revolucionária é o documentário “Setúbal, ville rouge” (1976, IMDb), filmado em português e francês. O filme capta Outubro de 1975 – o momento em que moradores, operários de fábricas, soldados nos quartéis e camponeses se organizaram para eleger nova liderança. É um valioso documento histórico que regista formas de democracia de base e auto-organização numa cidade industrial.
Património Industrial
O estaleiro Setenave e outras grandes empresas que serviram como arenas do movimento operário fecharam nas décadas seguintes. A desindustrialização de Setúbal é um dos temas definidores da história da cidade na segunda metade do século XX. O Museu do Trabalho, instalado na antiga Fábrica Perienes de conservas, embora dedicado principalmente à indústria conserveira, preserva a memória da cultura operária da cidade.
Legado Político
Setúbal permanece um dos bastiões da esquerda em Portugal. Após as eleições autárquicas de 2005, o PCP detinha a liderança em 32 municípios, concentrados principalmente no Alentejo e no Distrito de Setúbal. Embora as posições eleitorais do PCP se tenham enfraquecido nos últimos anos, a cidade mantém a sua identidade política de esquerda.
Impacto na Cidade
A Revolução dos Cravos e o PREC que se seguiu moldaram profundamente Setúbal:

- Habitação – ocupações massivas de habitação levaram à redistribuição do parque habitacional e ao lançamento de programas de habitação social
- Direitos laborais – conquistas do movimento operário: direito à greve, acordos de negociação coletiva, comissões de trabalhadores
- Cultura política – tradição de ativismo cívico e participação que persiste até hoje
- Identidade urbana – a reputação de “Cidade Vermelha”, que se tornou parte da autoimagem de Setúbal
- Desindustrialização – paradoxalmente, o período revolucionário acelerou a fuga de capital e o fecho de empresas de capital estrangeiro, desencadeando um processo de declínio industrial
Informação Prática
- 25 de Abril é feriado nacional em Portugal (Dia da Liberdade). Em Setúbal, realizam-se eventos comemorativos, manifestações e atividades culturais todos os anos
- Em 2024, a Feira de Sant’Iago foi dedicada ao 50.º aniversário da Revolução dos Cravos
- O Museu do Trabalho preserva a memória da cultura operária da cidade
- Nas ruas de Setúbal, podem ver-se placas comemorativas e murais relacionados com o período revolucionário
Notas
[NÃO VERIFICADO] Os detalhes das operações militares na própria Setúbal em 25 de Abril de 1974 (que unidades militares específicas estavam estacionadas na cidade, como o poder mudou de mãos a nível local) requerem investigação adicional em fontes primárias portuguesas e arquivos militares.
[DISPUTADO] A avaliação do papel do PCP no processo revolucionário em Setúbal é tema de debate. Fontes de esquerda enfatizam o caráter espontâneo e de base do movimento operário, enquanto outras apontam para o papel coordenador do partido. A realidade provavelmente abarcava ambos os elementos.

[NÃO VERIFICADO] Números precisos do número de empresas e casas ocupadas especificamente em Setúbal (em oposição a todo o país) ainda não foram encontrados nas fontes disponíveis.
Fontes das imagens
- revolucao-dos-cravos.webp — Revolução dos Cravos, 25 de Abril de 1974. Autor: Centro de Documentação 25 de Abril. Licença: CC BY 4.0. Fonte
- grandola-vila-morena-mural.webp — Mural Grândola Vila Morena em Grândola. Autor: Txo. Licença: CC BY-SA 4.0. Fonte
- carnation-revolution-celebration-2018.webp — Celebração do aniversário da Revolução, 2018. Autor: Pedro Ribeiro Simões. Licença: CC BY 2.0. Fonte
Ver também
- A Cultura Piscatória de Setúbal
- Feira de Sant’Iago
- Zeca Afonso e a Revolução dos Cravos
- A Indústria Conserveira
Se este artigo foi útil — ajude-nos a escrever o próximo.
☕ Apoiar no Ko-fi