Fado em Setúbal
O fado é um género de música portuguesa impregnado pelo sentimento de saudade — anseio pelo que se perdeu, uma nostalgia permanente. Em Setúbal, o fado possui um carácter distintivo: aqui a música liga-se inextricavelmente à comunidade piscatória, ao mar e ao estuário do Sado, e o seu som difere tanto do estilo metropolitano de Lisboa como da tradição académica de Coimbra.

Origens
O fado como género nacional
O fado nasceu nos bairros lisboetas de Alfama e Mouraria na década de 1820, embora as suas raízes provavelmente sejam mais profundas — remontando às canções marítimas portuguesas, ao lundu brasileiro e à tradição trovadoresca medieval. Na sua forma mais antiga, o fado era interpretado espontaneamente: em pátios, nas ruas, nas tabernas, entre marinheiros, pescadores e pobres urbanos. Era a música de pessoas marginalizadas, a voz daqueles cujas vidas estavam ligadas ao mar, à separação e à incerteza.
Em 2011, a UNESCO inscreveu o fado na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecendo-o como expressão única da identidade cultural portuguesa.
A tradição musical de Setúbal
Setúbal tem raízes musicais profundas. A cidade deu a Portugal uma das maiores cantoras de ópera do século XVIII — Luísa Todi (1753-1833), cujo nome adorna a principal avenida ribeirinha da cidade, a Avenida Luísa Todi. Embora Todi não fosse fadista no sentido moderno, o seu legado fomentou em Setúbal uma consideração especial pela arte vocal e pela expressividade musical.
O fado provavelmente chegou a Setúbal na segunda metade do século XIX, com o crescimento da vida portuária e a intensificação das ligações com Lisboa. Os bairros piscatórios da cidade — Bairro do Troino e Bairro dos Pescadores — tornaram-se um ambiente natural para esta música, cujos temas principais eram o mar, a separação e as dificuldades da vida de pescador.
Descrição
O carácter do fado de Setúbal
O fado em Setúbal difere das duas escolas mais conhecidas — as de Lisboa e Coimbra:
- O fado de Lisboa é urbano e teatral, ligado à vida noturna da capital, com casas de fado profissionais e uma indústria comercial
- O fado de Coimbra é académico, interpretado exclusivamente por homens, ligado à tradição universitária e mais refinado no seu idioma melódico
- O fado de Setúbal é popular, ligado à comunidade piscatória, interpretado nos bairros e nas ruas, preservando um vínculo com a vida quotidiana do mar
No fado de Setúbal, os temas dominantes são aqueles distintos de uma cidade portuária:
- Espera — as esposas dos pescadores aguardam o regresso dos maridos do mar
- Saudade do mar — anseio por aqueles que partiram e nunca voltaram
- Vida no Rio Sado — o estuário como centro da existência comunitária
- Labuta e pobreza — a sorte dura das famílias de pescadores e das mulheres das fábricas de conservas
Instrumentação
O conjunto tradicional de fado compreende:
- Guitarra portuguesa — uma guitarra de doze cordas em forma de pera com um timbre cintilante característico que define o som do fado
- Viola de fado — uma guitarra clássica de seis cordas que fornece a base harmónica
- Voz (voz) — o elemento central; o fadista habitualmente canta de pé, com os olhos fechados, usando o xaile preto tradicional (xaile)
Significado para a cidade
O fado e a identidade piscatória
Em Setúbal, o fado não é uma peça de museu nem atração turística, mas parte da cultura viva dos bairros piscatórios. É a música que ressoava nas tabernas do porto onde os pescadores bebiam vinho e comiam choco frito após um dia de trabalho, e que continua a soar nas ruas da cidade nas noites de verão.
A ligação entre o fado e o mar em Setúbal é mais profunda do que em Lisboa: aqui a saudade não é uma categoria filosófica abstrata, mas uma experiência concreta de famílias cujos homens iam para o mar todos os dias e nem sempre regressavam. O fado na tradição de Setúbal é uma crónica da vida da comunidade piscatória.
O fado como instituição social
Nos bairros piscatórios de Setúbal, o fado serviu historicamente como vínculo de coesão social: as noites de fado nas tabernas eram uma forma de experiência coletiva, uma terapia comunitária. Mulheres cujos maridos estavam no mar reuniam-se para cantar e ouvir canções que expressavam a sua experiência partilhada de espera e ansiedade.
Como Acontece Hoje
O programa “Fado em Setúbal”
Desde 2015, a Câmara Municipal de Setúbal desenvolve o programa “Fado em Setúbal” como parte da iniciativa cultural “Cultura em Movimento”. O programa decorre há mais de oito anos e continuou mesmo durante a pandemia.
Formato:
- Horário: Sextas e sábados às 21h30, de julho a agosto
- Local: Ruas e praças dos bairros de Setúbal, bem como localidades em todo o município — Azeitão, Palmela, Gâmbia
- Formato: Concertos gratuitos ao ar livre, três fadistas por noite
- Duração: 16 noites por temporada
Os fadistas de Setúbal
Cerca de 15 intérpretes locais participam no programa “Fado em Setúbal”. Entre os mais conhecidos:
- Carolina Mendes — vencedora do concurso “Melhor Fadista do Município” (2018)
- Ramiro Costa — uma das principais vozes masculinas do fado de Setúbal
- Maria Caetano — representante da geração mais antiga de fadistas
- Maria do Céu Freitas
- Susana Martins
- Nuno Rocha
- Piedade Fernandes
Instrumentistas regulares: Custódio Magalhães na guitarra portuguesa e Vítor Pereira na viola de fado.
Locais
O fado em Setúbal ouve-se em diversos cenários:
- Quinta do Bom Pastor em Vila Fresca de Azeitão
- Largo 2 de Setembro — uma praça no centro histórico
- Jardim de Palhais
- Parque de Vendas de Azeitão
- Os bairros de Gâmbia, Vanicelos, Vale Ana Gomes
- Durante a Feira de Santiago e as Festas do Bocage, o fado também faz parte do programa
Evolução
| Período | Acontecimento |

|—|—| | Década de 1820 | Nascimento do fado em Lisboa | | Segunda metade do séc. XIX | O fado chega a Setúbal através das ligações portuárias com Lisboa | | Início do séc. XX | O fado ressoa nas tabernas dos bairros piscatórios e conserveiros | | Décadas de 1920-1930 | Formalização do género em Portugal; surgimento das casas de fado | | Décadas de 1950-1970 | A era de Amália Rodrigues; o fado torna-se símbolo nacional | | 2011 | A UNESCO inscreve o fado na lista do Património Cultural Imaterial | | 2015 | Lançamento do programa “Fado em Setúbal” pela autarquia | | 2018 | Carolina Mendes vence o concurso municipal de fadistas | | 2020-2021 | O programa continua em formato adaptado durante a pandemia | | 2022 | 8.ª temporada de “Fado em Setúbal”: 15 fadistas, 16 noites no verão |
O fado e outras tradições de Setúbal
O fado em Setúbal não existe isoladamente — está tecido no tecido da vida da cidade:
- Durante a Semana do Choco, as atuações de fado acompanham eventos gastronómicos
- Na Feira de Santiago, o fado ouve-se ao lado de outros géneros musicais

- A Festa do Bocage (Dia da Cidade, 15 de setembro) inclui noites de fado como parte integrante do programa
- O ciclo de verão do “Fado em Setúbal” transforma os bairros da cidade em salas de concertos ao ar livre
Alguns estudiosos acreditam que o fado de Setúbal preservou qualidades perdidas na variante lisboeta comercializada: espontaneidade de interpretação, vínculo com uma comunidade específica, ausência de fronteira entre intérprete e ouvinte. Nos concertos de rua de Setúbal, o fado permanece o que era no princípio — música nascida da experiência partilhada.
Fontes das imagens
- fado-performance.webp — Atuação de fado ao vivo. Autor: Mind Booster Noori. Licença: CC0 (Domínio Público). Fonte
- fadista-guitarra-portuguesa.webp — Fadista com guitarrista. Autor: Jimmy Baikovicius. Licença: CC BY-SA 2.0. Fonte
- azulejos-fado-portugal.webp — Azulejo ‘O Fado’ — cena de fado em azulejos. Autor: Pedro Simoes. Licença: CC BY 2.0. Fonte
Ver também
- Cultura Piscatória de Setúbal
- Festas do Bocage e Dia da Cidade
- Feira de Santiago
- Luísa Todi
- Choco Frito
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