Feira de Sant'Iago
A feira anual mais antiga e maior de Setúbal, com uma história de mais de quatro séculos. Realizada no final de julho até ao início de agosto, atrai aproximadamente 400 000 visitantes por ano.

Origens
A Carta Régia de 1582
A Feira de Sant’Iago foi estabelecida por decreto real (alvará) em 1582, assinado pelo rei Filipe II de Espanha (também Filipe I de Portugal), que na época governava a União Ibérica unificada. O decreto instituiu uma feira anual com duração de três dias, começando na véspera da festa de São Tiago Maior (Santiago Maior) — isto é, 24 de julho, com o dia principal a 25 de julho.
Um detalhe crucial: a abertura da feira foi fixada para a tarde para não interferir com as cerimónias religiosas em honra de São Tiago. Esta tradição — inaugurar a feira à tarde — persistiu durante séculos.
A Ligação à Ordem de Santiago
O nome da feira não é coincidência. A Ordem de Santiago (Ordem de São Tiago da Espada) foi introduzida em Portugal em 1172 sob o rei Afonso Henriques e desempenhou um papel central na Reconquista — a campanha para reconquistar territórios a sul do Tejo dos mouros. Sob a liderança do Grão-Mestre Paio Peres Correia, entre 1234 e 1242 a Ordem conquistou grande parte do Baixo Alentejo e do Algarve.
Após a captura dos castelos de Palmela e Alcácer do Sal, a jurisdição da Ordem estendeu-se às terras ao longo do Rio Sado — e foi neste contexto que a futura Setúbal tomou forma. A Ordem de Santiago tornou-se o maior proprietário de terras do reino, controlando território desde Samora Correia até Tavira e de Almada a Aljezur. Muitas povoações nestas terras adotaram São Tiago Maior como santo padroeiro, e os seus brasões apresentam a distintiva cruz-espada da Ordem.
A Feira de Sant’Iago é assim não apenas um evento comercial, mas expressão viva do papel da Ordem na história da Península de Setúbal.
Descrição
O Formato Moderno
Hoje, a Feira de Sant’Iago é um festival de grande escala com duração de aproximadamente 10 a 11 dias (habitualmente de 24 de julho a 3 de agosto). A entrada é gratuita. O programa inclui:
- Concertos — o palco principal acolhe artistas de diversos géneros. Por tradição, a ênfase recai sobre música em língua portuguesa, embora também estejam representados artistas internacionais. Edições passadas contaram com GNR, Dino D’Santiago, Carminho, Diogo Piçarra, Bárbara Bandeira e outros.
- Bancas de artesanato — dezenas de tendas vendendo produtos artesanais e produtos regionais.
- Gastronomia — comida de rua, tasquinhas servindo especialidades locais e nacionais.
- Divertimentos e atrações — carrosséis e entretenimento para crianças e adultos.
- Espetáculos de rua — apresentações teatrais e entretenimento ao vivo para todas as idades.
- Áreas de desporto e lazer — zonas para recreação ativa.
- Exposições temáticas — cada ano a feira organiza-se em torno de um tema particular.
A feira atrai cerca de 400 000 visitantes anualmente, tornando-a um dos maiores festivais populares do sul de Portugal.
Estrutura Temática
Cada edição da feira tem o seu próprio tema. Em 2024, por exemplo, a feira foi dedicada aos 50 anos da Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974). Esta abordagem permite renovar o programa todos os anos preservando os elementos tradicionais.
Evolução
A Jornada da Feira pela Cidade
Ao longo de mais de quatro séculos, a feira mudou de local em várias ocasiões:
| Período | Local |
|---|---|
| 1582 — séc. XIX | Largo de Jesus, junto ao Mosteiro de Jesus |
| Séc. XIX | Alternando entre Jardim do Bonfim e Largo de Jesus |
| 1873 | Mudança para Rua da Praia por decisão da câmara municipal |
| 1905 | Transferida para oeste do Ribeiro do Livramento, para a Avenida Luísa Todi |
| 1946 | Regresso ao Bonfim |
| Início da década de 1950 | De volta à Avenida Luísa Todi |
| 2004 — presente | Parque Sant’Iago no bairro das Manteigadas |
A mudança de 2004 foi motivada pela necessidade de um local mais espaçoso que cumprisse padrões modernos de higiene e segurança. A maior distância do centro histórico foi compensada por melhores condições para visitantes e um programa mais ambicioso.
De Feira de Três Dias a Festival de Dez Dias
O evento original de três dias evoluiu gradualmente para um festival de pleno direito. O que antes era um caso puramente comercial transformou-se numa celebração cultural multiformato, embora o elemento comercial — artesanato, comida — permaneça parte importante da experiência.
Significado para a Cidade
A Feira de Sant’Iago é o principal evento de verão de Setúbal e um dos pilares fundamentais da identidade da cidade. Para os habitantes, não é apenas entretenimento, mas símbolo de continuidade: a feira realiza-se, com raras interrupções, desde o século XVI, sobrevivendo a mudanças de dinastia, ao terramoto de 1755, à República, à ditadura e à revolução.
A feira também serve uma função económica, atraindo turistas de toda a região e apoiando artesãos e produtores locais.
Informação Prática
- Datas: Habitualmente a última semana de julho e a primeira semana de agosto (em 2025, de 24 de julho a 3 de agosto)
- Local: Parque Sant’Iago, bairro das Manteigadas
- Entrada: Gratuita
- Horário: Abre à tarde e decorre até tarde da noite
- Como chegar: O bairro das Manteigadas fica nos arredores da cidade; habitualmente organiza-se transporte adicional
- Dicas: As horas noturnas são as mais animadas; para concertos, é melhor chegar cedo
Notas
[DISPUTADO] Algumas fontes sugerem que a tradição da feira pode ser anterior à carta oficial de 1582, remontando a feiras comerciais medievais organizadas pela Ordem de Santiago. Contudo, até à data não foi encontrada evidência documental da existência da feira antes de 1582.

Várias fontes mencionam que touradas (touradas) faziam outrora parte do programa da feira, mas o período preciso durante o qual decorreram na Feira de Sant’Iago requer verificação adicional.
Fontes das imagens
Ver também
- Festas do Bocage e Dia da Cidade
- A Reconquista e o Período Medieval
- O Período Mouro
- Cultura Piscatória
Se este artigo foi útil — ajude-nos a escrever o próximo.
☕ Apoiar no Ko-fi