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A Cultura Piscatória de Setúbal

A Cultura Piscatória de Setúbal

Verificado

A pesca é o alicerce histórico da economia e da identidade cultural de Setúbal. Ao longo de mais de um século, a cidade tornou-se o maior centro de Portugal para a pesca e conserva de sardinha, e o seu vínculo ao mar continua a definir o seu caráter.

Barcos de pesca no porto de Setúbal

Origens

Condições Geográficas

Setúbal situa-se na foz do rio Sado, que desagua no Oceano Atlântico, abrindo-se para a Baía de Setúbal. Esta localização criou condições ideais para a pesca:

  • O Estuário do Sado – um ecossistema rico onde a água doce se mistura com a água salgada, proporcionando um habitat favorável para uma grande variedade de espécies piscícolas
  • A costa atlântica – acesso direto ao oceano aberto e a rotas migratórias de peixes
  • Uma baía abrigada – um ancoradouro conveniente para embarcações de pesca e um local natural para processar as capturas
  • Cardumes massivos de sardinhas que tradicionalmente passavam ao longo da costa da Península de Setúbal

A pesca nestas águas remonta aos tempos romanos – achados arqueológicos em Cetóbriga, na margem oposta do Sado, atestam a produção do molho de peixe garum na Antiguidade. A tradição de salga e processamento de peixe existia aqui muito antes da era industrial.

Descrição

Tipos de Captura

As principais espécies de peixe capturadas ao largo da costa de Setúbal incluem:

  • Sardinha – a principal e historicamente mais importante espécie comercial
  • Carapau / chicharro – uma espécie básica e alimento quotidiano essencial
  • Cavala – um dos alvos principais da pesca costeira
  • Biqueirão (anchova) – um peixe pequeno usado para conservas
  • Lula – uma espécie comercialmente pescada
  • Choco – o ingrediente característico da gastronomia local

Ao lado da pesca industrial, persiste a pesca artesanal – pequenas embarcações que trabalham as águas costeiras com artes tradicionais.

Bairros Piscatórios

A história de Setúbal produziu bairros piscatórios distintos, cuja vida se organizava inteiramente em torno do mar:

  • Bairro do Troino – considerado o mais antigo povoado piscatório de Setúbal
  • Bairro dos Pescadores – um bairro cuja memória é preservada em obras de arte urbana. Foi recentemente criado um mural pela artista Ângela Miranda Penedu no Caminho dos Pescadores, dedicado a dois residentes falecidos do bairro

Nestes bairros, formou-se um modo de vida distinto: os homens iam para o mar, as mulheres trabalhavam no processamento de peixe, e os laços familiares e sociais eram governados pelo ritmo do oceano.

A Indústria Conserveira

Nascimento da Indústria

A indústria conserveira moderna em Setúbal começou em 1854, quando Manuel José Neto e Feliciano António da Rocha fundaram a primeira fábrica a empregar o método de esterilização. O verdadeiro salto industrial, porém, veio após 1880 com a chegada de industriais franceses que trouxeram tecnologia a vapor. O seu interesse em Setúbal foi impulsionado pela escassez de peixe ao largo da costa da Bretanha – procuravam novas fontes de matéria-prima.

O Boom

O crescimento foi rápido:

Ano Número de fábricas em Setúbal
1854 1 (a primeira fábrica)
1897 26
Anos 1910 85
Auge (meados do séc. XX) Aproximadamente 400 ao longo de toda a história

Setúbal tornou-se o maior centro conserveiro de Portugal. Em 1912, cerca de 10% da população da cidade trabalhava na indústria conserveira. No final da Primeira Guerra Mundial, Portugal tinha mais de 200 fábricas de conservas, a maioria das quais localizadas em Setúbal.

No final do século XIX, a Ramirez – a empresa conserveira mais antiga da Europa em funcionamento contínuo – abriu fábricas em Setúbal e no Algarve para a produção de sardinha em azeite.

O Papel das Mulheres

A indústria conserveira em Setúbal tinha um caráter marcadamente de género: 95% da força de trabalho fabril eram mulheres (operárias conserveiras). Os homens tratavam da pesca e da soldadura das latas, enquanto praticamente todo o trabalho real de conserva – arranjo, limpeza e embalagem do peixe – era feito por mulheres.

As condições de trabalho eram duras:

  • As trabalhadoras podiam ser convocadas “a qualquer hora da noite, sempre que o dono da fábrica achasse oportuno”
  • A jornada de trabalho durava 10 a 11 horas
  • O pagamento era de 180 réis por 5 horas de trabalho (extremamente baixo)
  • A tecnologia permaneceu sem modernização durante décadas; a indústria baseava-se na exploração em massa de mão de obra feminina barata

A Greve de 1911

Os anos 1910–1911 viram crescente agitação social entre as trabalhadoras conserveiras. Em Março de 1911, rebentou uma greve com exigências de salários mais altos e uma jornada de trabalho mais curta. Durante confrontos com a Guarda Republicana, uma trabalhadora chamada Mariana Torres foi morta. Este episódio é considerado uma das primeiras instâncias de ação sindical feminina organizada em Portugal. A memória vive na cidade: a peça “Mulheres de Sal” foi encenada pelo teatro municipal em tributo às operárias conserveiras.

Declínio

A partir de meados do século XX, a indústria conserveira de Setúbal entrou num período de declínio:

  • Esgotamento dos stocks de peixe – diminuição dos cardumes de sardinha
  • Relocalização da produção para norte, para a zona de Matosinhos perto do Porto
  • A Revolução de 1974 e a instabilidade social que se seguiu agravaram as dificuldades
  • Pela Segunda Guerra Mundial, o número de fábricas já caíra significativamente
  • Em 1983, Portugal tinha apenas 152 fábricas de conservas (a nível nacional)

As fábricas de Setúbal fecharam uma após outra. Hoje, resta apenas das fábricas as chaminés de tijolo das antigas unidades conserveiras espalhadas pela paisagem urbana, e edifícios reaproveitados para outros usos.

Património Tangível

O Museu do Trabalho (Museu do Trabalho Michel Giacometti)

A única fábrica de conservas a ser preservada e restaurada é a antiga Fábrica Perienes, outrora uma das maiores do país. Os seus herdeiros franceses venderam o edifício à câmara municipal de Setúbal, que em 1995 abriu no local o Museu do Trabalho Michel Giacometti.

  • Morada: Largo Defensores da República
  • Exposição permanente: “A Indústria Conserveira (Da lota à lata)”
  • O museu guarda memórias gravadas de operárias conserveiras – os seus relatos de trabalho, emoções e vidas pessoais ligadas à indústria
  • Faz parte de uma antiga aldeia piscatória, preservando o contexto circundante

Mercado do Livramento

O mercado abriu pela primeira vez as suas portas em 31 de Julho de 1876 por iniciativa do presidente da câmara municipal, António Rodrigues Manito. O edifício atual data de 1930 e foi projetado pelo arquiteto Marcelino Alemán Mendonça Cisneiros de Faria no estilo Art Déco. A área original era de 4.160 metros quadrados com 44 bancas dedicadas a peixe e vegetais.

De particular valor são os painéis de azulejos de Pedro Pinto, representando a atividade económica e a história de Setúbal. Em 2015, a publicação USA Today nomeou-o um dos mercados de peixe mais renomados do mundo.

O mercado permanece em funcionamento: todas as manhãs, pescadores entregam a captura fresca – sardinhas, dourada, polvo, marisco. Durante mais de 140 anos, a estrela indiscutível do mercado tem sido o peixe fresco.

O Porto de Pesca

O porto de pesca de Setúbal (Porto de Pesca) localiza-se na parte central da frente ribeirinha da cidade. Alberga uma lota operada pela empresa Docapesca, com um sistema de licitação computorizado. Nas proximidades encontram-se o mercado secundário de peixe e o mercado Rio Azul, que está aberto ao público.

A Tradição da Arte Xávega

A Técnica

A Arte Xávega é uma técnica de pesca tradicional portuguesa que tem sido praticada durante séculos. É uma forma única de pesca artesanal encontrada apenas em Portugal. O método envolve lançar uma rede de um barco 2 a 4 quilómetros ao largo, cercar um cardume de peixes, e depois puxar a rede para a praia com a ajuda de tratores (historicamente, bois e força humana).

O processo:

  1. Uma extremidade da rede é presa a um trator na praia
  2. O barco dirige-se para o mar, desenrolando a rede
  3. Tendo descrito um arco em torno do cardume, o barco regressa à praia
  4. A outra extremidade da rede é presa a um segundo trator
  5. Ambos os tratores puxam lentamente a rede e a sua captura para a praia

A época da arte xávega vai de Março a Novembro, sendo a melhor altura para observação de Junho a Agosto.

Arte Xávega e a Península de Setúbal

A arte xávega é tradicionalmente praticada ao longo do troço de costa de Espinho a Sesimbra e no Algarve. Na Península de Setúbal, a técnica pode ser observada nas praias de Sesimbra, Costa da Caparica e Fonte da Telha. Vários municípios (Almada, Sesimbra) estão a promover a arte xávega como património cultural imaterial.

[DISPUTADO] Dentro dos limites da cidade de Setúbal propriamente dita, a arte xávega aparentemente não foi praticada na sua forma clássica – a técnica adequa-se a praias arenosas abertas, enquanto Setúbal se situa numa baía. No entanto, nas praias mais próximas da península (sobretudo Sesimbra), esta tradição fazia parte da cultura piscatória mais ampla da região.

Estado Atual

A arte xávega está em declínio devido a dificuldades financeiras e falta de jovens recrutas – a pesca é vista como uma profissão perigosa e mal paga. Não obstante, várias comunidades piscatórias continuam a praticar a técnica, especialmente em praias turísticas onde a arte xávega atrai turistas como espetáculo cultural vivo.

Significado para a Cidade

A pesca não é meramente um setor económico na história de Setúbal. É o alicerce da identidade da cidade, moldando:

Barcos de pesca no porto

  • Demografia – os bairros piscatórios definiram a estrutura social da cidade
  • A economia – a indústria conserveira foi o principal empregador durante mais de um século
  • Gastronomia – Choco Frito, sardinhas grelhadas e outros pratos de marisco tornaram-se as cartas de visita culinárias da cidade
  • A paisagem urbana – chaminés de fábricas, o porto de pesca, o Mercado do Livramento
  • História social – o movimento operário feminino, greves e mais tarde a ligação à Revolução dos Cravos
  • Património cultural – o Museu do Trabalho, painéis de azulejos, arte urbana

Mesmo após a forte contração da indústria piscatória, Setúbal permanece uma cidade definida pelo mar. Os locais ainda dizem que a cidade vive “da lota à lata”.

Informação Prática

  • Mercado do Livramento – todas as manhãs, peixe fresco diretamente dos barcos; melhor visitado de manhã cedo
  • Museu do Trabalho – exposição permanente sobre a indústria conserveira; instalado numa antiga fábrica
  • Porto de pesca – os visitantes podem observar o descarregamento da captura
  • Restaurantes de marisco – ao longo da frente ribeirinha (Avenida Luísa Todi) e na zona portuária
  • Arte xávega – o local mais próximo para observar a técnica: praias de Sesimbra e Costa da Caparica (Junho–Agosto)
  • Caminho dos Pescadores – com murais dedicados à comunidade piscatória

Cronologia

Período Evento
Antiguidade Produção de garum em Cetóbriga
Idade Média Pesca artesanal e salga

Porto de pesca de Setúbal

| 1854 | Primeira fábrica de conservas | | Anos 1880 | Chegada de industriais franceses e tecnologia a vapor | | 1897 | 26 fábricas | | 1911 | Greve de operárias conserveiras; morte de Mariana Torres | | Anos 1910 | 85 fábricas – o auge da industrialização | | Meados do séc. XX | Início do declínio; produção desloca-se para norte | | 1974 | Revolução dos Cravos e maior agitação | | 1995 | Abertura do Museu do Trabalho na antiga Fábrica Perienes | | 2015 | Mercado do Livramento nomeado um dos melhores mercados de peixe do mundo |

Fontes das imagens
  • setubal-fishing-boats.webp — Barcos de pesca no porto de Setúbal. Autor: Francois Philipp. Licença: CC BY 2.0. Fonte
  • fishing-boats-setubal.webp — Barcos de pesca no porto. Autor: Francisco Antunes. Licença: CC BY 2.0. Fonte
  • fishing-harbour-setubal.webp — Porto de pesca de Setúbal. Autor: Osvaldo Gago. Licença: CC BY-SA 3.0. Fonte

Ver também

Este artigo faz parte de uma enciclopédia comunitária. Procuramos uma cobertura neutra e baseada em factos. As afirmações disputadas são assinaladas de forma adequada. Política Editorial

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